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Uma questão de escolha
Editorial Luxemburgo 2 min. 20.06.2018

Uma questão de escolha

Uma questão de escolha

Cartoon: Florin Balaban
Editorial Luxemburgo 2 min. 20.06.2018

Uma questão de escolha

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Daniel da Mota ainda está a tempo de rejeitar a candidatura por um partido com o perfil do ADR. Outra decisão que não seja essa servirá apenas para que se torne um instrumento de interesses alheios.

Daniel da Mota é uma figura respeitada por todos na sociedade luxemburguesa. Filho de imigrantes portugueses, nasceu no Grão-Ducado, aqui estudou, cresceu e fez as suas opções, escolhendo o desporto e, em particular, o futebol como caminho para a afirmação. Nesse campo tem mostrado qualidades e assim chegou a internacional pela seleção do Luxemburgo, camisola que tem vestido com orgulho. Entre os golos que marcou, talvez o mais emblemático tenha sido frente a Portugal, num jogo que terminou com tangencial vitória para os portugueses.

Estive no estádio nesse dia e recordo-me bem de como o remate vitorioso do avançado foi aplaudido por todos, luxemburgueses e portugueses. Não era que todos estivéssemos satisfeitos com a desvantagem da seleção portuguesa, mas falava mais alto o êxito daquele português que tanto tem lutado pela afirmação. No fundo, era o símbolo do que tem sido a vida dos imigrantes portugueses um pouco por todo o lado e também aqui: não há facilidades, existe dureza e, para se conseguir atingir uma posição de estabilidade, é preciso ultrapassar muitos obstáculos.

É óbvio que, como qualquer cidadão num mundo livre, Daniel da Mota tem direito a fazer opções. Aliás, a sua vida tem sido um pouco isso, escolher melhor ou pior, com mais ou menos erros, e seguir em frente. Mas é importante perceber que filiar-se e optar por uma candidatura pelo ADR, partido mais à direita no espetro político luxemburguês, tem custos que vão muito além da mera seleção entre convites. Desde logo porque vai ficar associado a um partido com várias posições de cariz xenófobo e contra os estrangeiros. Ora, nem todos os convites que nos são dirigidos devem merecer respostas positivas e o primeiro a saber isso será, por certo, o próprio Daniel, a quem não terão faltado solicitações ao longo da vida.

Na entrevista que concedeu aos jornalistas Álvaro Cruz e Paula Telo Alves, o próprio Daniel da Mota procura argumentos para justificar algumas das posições do ADR em questões como o voto contra a lei da dupla nacionalidade ou a atitude contrária ao ensino do português nas escolas. Noutras respostas, demarca-se claramente de qualquer ideia que seja contra os estrangeiros, afirmando que os ajudará sempre e que deixará de se candidatar se “o partido decidir que é contra os estrangeiros”.

Seja qual for o discurso de Daniel da Mota, as suas origens e o seu percurso exigem que se afaste do ADR. Caso contrário, no mínimo será um instrumento de interesses alheios. E arrisca-se a ser confundido com alguns portugueses que, vindo para o Luxemburgo à procura de oportunidades para melhorarem as suas vidas, se tornaram mais papistas do que o papa, afirmando-se entre os principais obstáculos a que outros compatriotas lhes sigam o caminho.


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