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Uma professora contra as minas de lítio
Luxemburgo 11 min. 20.09.2019

Uma professora contra as minas de lítio

Uma professora contra as minas de lítio

Foto: Francisco Colaço Pedro
Luxemburgo 11 min. 20.09.2019

Uma professora contra as minas de lítio

Nos últimos anos, uma professora natural de Covas do Barroso, no concelho de Chaves, emigrada em Inglaterra, trocou os livros de português e inglês pelo Mining Journal, os relatórios do mercado do lítio e as atas de conferências internacionais sobre mineração. Catarina Scarrott, mãe de duas crianças de 2 e 7 anos, bate-se apaixonadamente em defesa da terra onde a sua família vive há mais de dez gerações. A terra a que gostava um dia de regressar. A terra que a empresa britânia Savannah Resources quer esventrar para extrair, alegadamente, as maiores reservas de lítio da Europa.

Era a década de 90. Catarina Scarrott estudava para ser professora, quando soube que havia um interesse de geólogos e um pedido de prospeção na sua terra natal, a aldeia de Covas do Barroso, no município de Boticas, Trás-os-Montes. Quis saber mais e pôs-se a investigar. Em 2003, ficou surpresa com o que encontrou, em inglês, em atas de conferências internacionais. “Representantes do Laboratório Nacional de Energia e Geologia a referiam as potencialidades económicas do lítio”, conta Catarina. “E falava-se em Covas do Barroso como tendo as maiores reservas da Europa”.

Mais tarde, ficou a saber que havia uma licença de exploração, de 2006. Falava-se então duma pedreira de feldspato e quartzo, como havia outras pela área, com 42 hectares de exploração, a alguma distância da aldeia. A exploração nunca chegou a ser feita.

Uma década depois, em 2017, a licença foi vendida à empresa britânia Savannah Resources. “Fomos vítimas de especulação. O lítio era claramente o interesse deles, não o feldspato.” Catarina conta que, como havia a licença já atribuída, as pessoas não se opuseram aos pedidos para mais prospeções, e cada pessoa tinha apenas conhecimento da sua área. Quando se aperceberam, a área total de prospeção era a perder de vista: 30 mil metros de perfurações, mais de 300 furos, vários deles próximos das casas. “Os relatórios da empresa aos investidores falavam de 542 hectares! Falavam primeiro de 7 milhões, agora já de 27 e até 50 milhões de toneladas de rochas exploradas.” Estas “prospeções agressivas e a ritmo acelerado” aconteceram desde maio de 2017 até setembro do ano passado - quando “a população resolveu unir-se e perguntar ‘o que é que se passa aqui?’”

O que se passou, veio a saber, foi que a licença de 2006 tinha sido misteriosamente alterada em 2011, para uma área muitíssimo mais vasta. “A população, a câmara, a junta de freguesia – ninguém foi consultado, ninguém sabia de nada!”, indigna-se Catarina. “Havia um imperativo da União Europeia de buscar matérias-primas para baterias, e eles viram esta forma de cortar caminho mais rapidamente para a exploração do lítio”, analisa. “Ficámos a saber que o governo tinha ido apregoar o lítio português, literalmente vender o país lá fora. Há um vídeo em inglês que diz ‘invista em Portugal, temos estes recursos e estas facilidades’. Como aqueles spots publicitários ‘venha visitar as Caraíbas’. É chocante.”

Catarina e outros habitantes prosseguiram uma autêntica saga pelo acesso à informação e à verdade. “Havia uma tentativa do governo e da empresa de esconder o que se estava a passar. Um dos representantes disse-me: ‘Lítio? Não! Será outra coisa.’” Um deputado do PCP, em nome da população, questionou por fim a Direção-Geral de Energia e Geologia.

Hoje conhecem as pretensões da empresa. E são “assustadoras”. “Estamos a falar de várias minas de lítio a céu a aberto, uma delas de 600m de diâmetro por 150 de profundidade. E de muitos milhões de toneladas de rocha desfeita em pó e lavada com a nossa água – 390 mil metros cúbicos por ano. Vai haver os rejeitos, claro. Uma das aldeias está a 200 metros da área. Tudo para, segundo a empresa, em 2025 produzir baterias para 250 mil carros por ano.”

“No refinamento do lítio desfazem a rocha e lavam-na com água e químicos. Isso produz concentrado de lítio. Depois tem de ter um tratamento muito complexo para obter hidróxido de lítio. Neste momento só é feito na China e na Austrália. O governo quer que a cadeia de valor fique em Portugal, e que haja uma ou duas refinarias. No Mining Journal as empresas diziam 'sim, fazemos a refinaria, e até podemos acrescentar valor importando concentrado de lítio do Mali ou do Brasil'… É ridículo. Eles precisam de dizer ao governo 'sim, vamos fazer', mas estão a planear levar o concentrado para a China. Qual vai ser o custo ambiental disso tudo? Vai valer a pena todas essas baterias que supostamente irão contribuir para a descarbonização?”, questiona Catarina, e ironiza: “São pecadores arrependidos… Agora exploram metais para a descarbonização!”

Na aldeia, teme-se o que se vai passar com a água. “Não sabemos que outros minerais há, qual o seu nível de toxicidade e como vai afetar a saúde das populações. Fala-se em desviar rios... Há muita coisa que não sabemos – mas aquilo que sabemos é suficiente para dizer ‘não, isto é excessivo!’” Outro receio prende-se com a viabilidade económica da empreitada. “Diz-se que na realidade as reservas de lítio europeias e portuguesas são ínfimas. Se a China decidir inundar o mercado com lítio barato, estamos em risco sério de todas estas explorações que o governo quer fazer irem à falência. E se a empresa falir? A tal recuperação ambiental que tem de fazer de acordo com a lei… Onde vamos ficar?”

Tanto os receios como a solidariedade são partilhados com as várias populações em luta contra projetos de mineração, como na vizinha Morgade, em Montalegre. “A Câmara de Montalegre trouxe ilustres académicos para esclarecer a população e dizer que o projeto não ia ser assim tão mau. Sinto-me insultada. Não requer um académico para me dizer o que são 30 milhões de toneladas, 800 m de diâmetro e 250 de profundidade à minha porta, o que é pó, água com esse pó, lama à minha porta. Esta descredibilização das nossas preocupações é revoltante…”, desabafa Catarina. “Descobrimos todas estas publicações em inglês, da maior reserva, e ninguém vem falar connosco. Sentimo-nos como uma colónia, face a alguém que nos vem colonizar.”

Foto: Francisco Colaço Pedro

“Os lobos a tomar conta das galinhas”

Após a primeira reação - “Não! Isto é a nossa terra, não podem vir assim” - Catariana e os restante populares inteiraram-se das leis e dos passos a seguir – mas também de que “o governo não está do nosso lado e afinal as leis não significam nada para o governo.” Como não estavam a ser ouvidos enquanto indivíduos, criaram a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso. “Estamos a tentar com todos os meios reivindicar os nossos direitos. Não há contrapartidas que paguem os prejuízos que vamos ter. Será mau quando a mina estiver lá, e o nosso medo ainda maior é quando a mina sair.”

Em março deste ano, deputados da Assembleia da República visitaram a região e ficaram surpreendidos com os estragos feitos com a prospeção. “Perguntaram ao ministro do ambiente porque é que a população não foi envolvida, e foi-lhes dito que é a empresa que devia contactar e informar a população…!”, indigna-se a professora. “Temos os lobos a tomar conta das galinhas!”

Desde novembro de 2017, a empresa disponibiliza à população boletins informativos mensais. “Falam de quem são os geólogos, o que andam a fazer… De tudo menos do que nos interessa. Em julho pediram ampliação da área para mais 51 hectares. E anunciaram aos investidores um contrato com outra empresa, que tem uma área de exploração próxima. Nada disso apareceu no boletim. Da licença original, que representava 4% da área da freguesia, passámos em 2011 a 18%, agora já são 23%! Parece que o projeto pode alargar-se tanto quanto a empresa quiser, o governo facilita. Não há controlo ou fiscalização.” No ano passado houve ainda a tentativa de classificar a mina como Potencial Interesse Nacional, para acelerar o processo, candidatura entretanto retirada.

“Já vieram falar na televisão em mil empregos”, ri-se Catarina. “Nem as Minas da Panasqueira têm 250 pessoas.” Por outro lado, na aldeia não há geólogos, engenheiros ou operadores de máquinas. “Seriam para pessoas de fora. E não se irá revitalizar a comunidade, porque falta acesso a serviços. É responsabilidade do governo, não de uma empresa mineira, fornecer esses serviços.”

A vida sustentável e o paradigma do “mais e mais”

Antes de me encontrar nos jardins do castelo de Chaves, Catarina esteve com o seu tio no hospital. “Como no Barroso não há médicos, tive de o trazer para Chaves, quando já devia ter vindo há um mês. Descobriu-se que tinha tido um AVC. Mas em Chaves não se faz ressonância magnética e não há neurologista. Teve ficar lá a semana toda, à espera, para ser levado a Vila Real. Agora continua à espera para fazer um eletrocardiograma.”

Pela Linha do Corgo, que ligava Chaves à Régua e à Linha do Douro, há muito deixou de se ouvir comboio. Mora o silêncio e a revolta. “Todos têm acesso a serviços mínimos. Mas aqui em cima somos cidadãos de segunda. Não há médicos, escolas, nem transportes. E, quando é preciso, é à nossa porta que os prejuízos vêm bater. Como se não fosse suficiente os sacrifícios que fazemos para conseguir pagar impostos e para sobreviver.”

A escassez de acessos e de serviços fez muitos como Catarina emigrar, e faz-lhe adiar o regresso. Mas os anos de ausência cristalizaram o “sentido de pertença” à sua terra. “É a minha família, são os meus laços de sangue. É uma comunidade. Há uma memória coletiva: falamos dum momento histórico, duma pessoa, e todos sabemos do que estamos a falar. Se a comunidade desaparecer, isso desaparece também.”

A professora conta como no Barroso sempre se levou uma vida sustentável, desligada do governo, sem apoios. A escola, que existe desde 1932, ou um antigo asilo dos pobres, foram estabelecidos pela própria comunidade, para se apoiar mutuamente. Em abril de 2018, a região foi a primeira em Portugal, e das primeiras na Europa, a ser classificada pelas Nações Unidas como Património Agrícola Mundial. O sistema agro-silvo-pastoril que ali se mantém há milhares de anos assenta no comunitarismo, na agricultura sustentável e na proteção da natureza. “Tudo faz parte deste legado cultural. A minha família está lá há pelo menos dez gerações. A mina é uma ameaça enorme. É terrível a forma como vai alterar o ambiente, a comunidade, a forma de vida. O legado que vou deixar aos meus filhos não é aquilo que me foi deixado a mim – é o que a mina lá deixar.”

Na vida sustentável em que foi criada, o “comprar e deitar fora” não lhe serve. “A geração mais nova não conhece isto, por culpa do sistema.” Os mercadinhos locais desapareceram para dar lugar aos hipermercados em Chaves, onde “tudo vem embalado em plástico.” “Muitas pessoas chamam-nos hipócritas e acusam-nos: ‘só no quintal do vizinho’, ‘escrevem estas coisas em tecnologias em lítio’. A questão não é o lítio. É o excesso.”

Catarina apela às pessoas que procure informar-se sobre os potenciais impactos e riscos da exploração – e que tomem uma posição. “O lítio não é a panaceia para a descarbonização. Com o aumento dos veículos elétricos vai haver um acréscimo na procura da eletricidade. Até termos 100% da eletricidade de fontes renováveis, a ideia de que o lítio é a solução é completamente errada. O lítio não produz energia, apenas acumula. E não é o único componente necessário para produzir baterias. As nossas reservas são muito pequenas – estamos a correr um risco ambiental, económico e para as populações enorme. A pegada carbónica dum veículo elétrico é enorme: há o processo para produzir hidróxido de lítio e há o custo da extração. E o que vai acontecer às baterias? Não são recicláveis e contêm muitos metais tóxicos. Continuamos no paradigma do consumismo, do mais e mais. A solução não é carros elétricos – é menos carros! Reduzir o consumo."

Foto: wildlings.pt

Francisco Colaço Pedro 

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