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Uma multidão esfomeada no Kirchberg
Opinião Luxemburgo 3 min. 19.11.2022
A fava

Uma multidão esfomeada no Kirchberg

Opinião Luxemburgo 3 min. 19.11.2022
A fava

Uma multidão esfomeada no Kirchberg

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
A comida é um dos melhores passaportes para compreendermos o outro.

No último sábado, uma fila de dezenas de pessoas concentrava-se em frente ao pavilhão da Índia, na LuxExpo. Era o dia cheio do Bazar Internacional do Luxemburgo e o grande salão de eventos do Kirchberg estava tão à pinha que parecia não haver lugar para nem mais uma cana de pesca. Mesmo antes de entrar, cruzei-me com o meu amigo William, que acabou por dar-me o mais valioso conselho do dia: "Deixa o casaco no bengaleiro", avisou ele, e foi uma benção eu ter cumprido o aviso. Estava tanta gente e fazia tanto calor ali dentro que, mesmo sem agasalho, era impossível não transpirar.

Só que há um fator que torna o Luxemburgo imenso. É o facto de viverem aqui 170 nacionalidades...

Nunca tinha ido ao Bazar Internacional. Dois anos de pandemia explicam uma boa parte do assunto, mas também devo dizer que achava que era coisa parecida com o Festival das Migrações – e esse eu conhecia. Gosto de ambos, porque ambos são montras da diversidade cultural que enche este pequeníssimo país do centro da Europa.

Quando os meus amigos em Lisboa me perguntam como é viver no Luxemburgo respondo que é viver num país que é pequeno, mas depois não é pequeno. Eu moro na capital, explico, que é uma das mais pequenas capitais da União Europeia. Oficialmente, não tem mais de 130 mil residentes – ainda que, com toda a gente que aqui chega diariamente para trabalhar e fazer negócios, me pareça muitas vezes urbanidade de meio milhão de almas. A sensação que tenho é que é bem maior do que parece à primeira vista: seguramente maior que Coimbra, Braga ou Setúbal. Mas menor que o Porto.

Só que há um fator que torna o Luxemburgo imenso. É o facto de viverem aqui 170 nacionalidades, tornando a capital do Grão-Ducado numa das mais multiculturais e diversas que existem em toda a União. Sentimos todos isso quando andamos de comboio ou autocarro e ouvimos as pessoas falarem ao telefone nas mais incompreensíveis línguas. Ou quando nos metemos à estrada e damos com um restaurante etíope ou um café usbeque numa aldeia no meio de nenhures. Num pequeno país no centro da Europa plantou-se esta improvável Torre de Babel, e esse é um dos motivos que me faz gostar tanto dele.

Quando no sábado fui ao Kirchberg, confrontei-me mais uma vez com toda a beleza que existe nessa diversidade. Havia bancas e pavilhões de dezenas de países. Havia artesanato e roupa e livros dos sete continentes, vendiam-se os maiores prodígios que as nações africanas e asiáticas, europeias e oceânicas, americanas do norte e do sul, produzem nos territórios de origem. Portugal tinha faianças e vinho e pastéis de nata. E rifas que sorteavam as maravilhas do país numa tômbola. Apesar dos encontrões por causa da casa cheia, e apesar do calor sufocante, comovo-me sempre que vejo o mundo encontrar-se num único lugar.

Agora há outra coisa que notei quando entrei na LuxExpo. É que, por mais mundo que houvesse à venda nas bancas dos países, as filas que se formavam eram para experimentar os temperos do planeta. De Israel ao Paquistão, das Filipinas ao México, à Índia e ao Peru, grupos de pessoas aguardavam a sua vez para ver a que sabe cada canto do mundo. 

E isso deixou-me a pensar que não seria má ideia fazer um mercado com comidas do mundo inteiro neste país onde o mundo inteiro também cabe. A comida é um dos melhores passaportes para compreendermos o outro.

(Grande Repórter)

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