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Uma eucaristia onde as emoções ficaram atrás das máscaras
Luxemburgo 4 min. 01.06.2020

Uma eucaristia onde as emoções ficaram atrás das máscaras

Os fiéis que comungaram tiveram de seguir regras adequadas.

Uma eucaristia onde as emoções ficaram atrás das máscaras

Os fiéis que comungaram tiveram de seguir regras adequadas.
Foto: Álvaro Cruz
Luxemburgo 4 min. 01.06.2020

Uma eucaristia onde as emoções ficaram atrás das máscaras

Álvaro CRUZ
Álvaro CRUZ
Não havia missas presenciais desde 15 de março, mas no domingo a igreja do Sacré Coeur acolheu 70 pessoas para a primeira eucaristia após o desconfinamento. Uma celebração diferente, devido à crise sanitária que mudou muitas coisas na vida dos fiéis.

"Em 46 anos nunca pensei viver nada assim", enfatiza o padre Sérgio Mendes no início da celebração eucarística, lamentando que "infelizmente, desta vez não nos é possível mostrar o sorriso de felicidade que qualquer cristão expressa normalmente quando vem à casa do Senhor." 

O sacerdote, responsável pela Missão Católica Portuguesa no Luxemburgo, lembrou ainda que este vírus faz-nos pensar muito sobre o que é realmente importante nas nossas vidas, mas realça que apesar de todos os constrangimentos "devemos dar graças a Deus por podermos voltar a estar reunidos na igreja e rezarmos juntos." 

O medo ainda impede muitos de saírem de casa e neste reencontro com a missa, tudo foi diferente. Ninguém entrou na igreja sem desinfetar as mãos com o álcool gel, sem mostrar a máscara e dizer o nome com o qual se inscrevera previamente por telefone. 

Todas as pessoas usaram máscaras durante a missa.
Todas as pessoas usaram máscaras durante a missa.
Foto: Á. Cruz

A imagem era desoladora. A igreja que antes da pandemia reunia cerca de 400 fiéis na missa dominical das 17h, estava preparada para receber 140, mas ficou-se pelos 70, ou nem isso. É que o distanciamento imposto causa incómodo àqueles que celebram habitualmente a eucaristia de forma alegre, vivida e com emoções fortes, sem máscaras e distanciamentos, onde a presença de Deus é tudo menos tímida. 

Temos que ter fé e confiar que as coisas voltem à normalidade o mais rapidamente possível à normalidade."

Maria das Dores, paroquiana.

Maria das Dores, católica assumida e mulher de fé desde que nasceu, viveu a nova missa divida por dois sentimentos: o de alguma desilusão, mas também com a esperança de que as coisas voltem a ser o que eram antes. 

"O padre dizia que em 46 anos nunca pensou viver nada assim, e eu, em 56, digo o mesmo. A missa foi realmente diferente do que estávamos habituados, devido aos constrangimentos, mas temos que respeitar e adaptar-nos à situação. Por muito que nos custe, devemos ter fé e confiar que as coisas voltem à normalidade o mais rapidamente possível." 

Medo como denominador comum e o agente secreto 007 

Fazendo alusão na sua homilia ao Pentecostes – data que assinala o derramamento do Espírito Santo sobre os discípulos 50 dias depois da Páscoa – o padre Sérgio evocou o medo como denominador comum entre os tempos de pandemia que se vivem atualmente e o início do cristianismo, quando os membros eram perseguidos e se escondiam com medo de serem mortos. 

"É verdade que as coisas mudaram, mas os cristãos definem-se pela sua fé. O Espírito Santo é como o 007, o agente secreto que age em nós e nos tranquiliza sem o vermos." 

Antes da crise, reuniam-se cerca de 400 fiéis na missa dominical na paróquia do Sacré Coeur, na capital. No domingo, estavam apenas cerca de 70 para uma lotação que podia albergar 140 pessoas.
Antes da crise, reuniam-se cerca de 400 fiéis na missa dominical na paróquia do Sacré Coeur, na capital. No domingo, estavam apenas cerca de 70 para uma lotação que podia albergar 140 pessoas.
Foto: Á. Cruz

O tradicional abraço da paz resumiu-se a um olhar e a uma vénia, longe dos beijos e abraços espontâneos e calorosos de outrora. Na comunhão, a hóstia foi entregue pelo sacerdote na mão, com regras de afastamento e setas que conduzem a um caminho que evita proximidades, para já não falar da ausência do grupo coral e da música que dão outra vida e calor à celebração.

Com o mês de Maria a terminar, Nossa Senhora não foi esquecida nesta eucaristia pelo sacerdote. "A proteção e o seu amor de Mãe representam um conforto para qualquer cristão. Importa saber que o 'colo' de Maria é um consolo para todos nós em situações de aflição como a que atrevessamos", recomendou.

À saída da missa, Marina Santos que raramente falha uma missa, confessou ao Contacto que "foi bom regressar", mas celebrar a eucaristia assim "acaba por ser triste ver tão pouca gente. É diferente do que estamos habituados e o sentimento de partilha está praticamente ausente", recorda, lembrando, no entanto, que "agora temos que nos habituar porque é melhor assim do que não termos nada." 

A Igreja não pode fechar as portas a ninguém 

Apesar de ter demostrado alguma compreensão pelo reduzido número de pessoas face aos constrangimentos, no final da missa o padre Sérgio insurgiu-se contra as inscrições dos fiéis e disse que a Igreja não pode fechar as portas a ninguém. 

"Não quero apontar o dedo a quem quer que seja, mas prefiro que tenhamos que enviar pessoas para casa do que as não ter na missa. As inscrições funcionam em grupos pequenos, não nas comunidades numerosas como a portuguesa. Acho que deveriamos ter abordado mais espeficicamente este tema nos diversos grupos", explica. 

Vamo-nos adaptar à situação e encontrar as respostas adequadas aos problemas para que as pessoas possam regressar à igreja.”  

Padre Sérgio Mendes

"O período para fazer chegar a informação às pessoas foi muito curto. Se não passarmos a informação corretamente, toda a gente acha que a igreja vai estar cheia e depois ficam em casa. Para além do medo normal que as pessoas têm, a inscrição trava um pouco este processo." 

No entanto, garante que é um homem de fé e acredita que as coisas vão melhorar: "Depois da tempestade vem a bonança. Vamo-nos adaptar à situação e encontrar as respostas adequadas aos problemas para que as pessoas regressem à igreja com mais tranquilidade e assiduidade", concluiu.

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