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Um vírus que adora comboios
Comentário Luxemburgo 2 min. 04.06.2020

Um vírus que adora comboios

Um vírus que adora comboios

Foto: Lusa
Comentário Luxemburgo 2 min. 04.06.2020

Um vírus que adora comboios

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Como tinha prometido, o primeiro-ministro, António Costa, vai reverter algumas medidas de desconfinamento.

Quando tudo parecia bem encaminhado, surgiu um retrocesso que as autoridades de saúde atribuem, em exclusivo, ao relaxe que se vive na região da grande Lisboa. Aqui, o laxismo social parece estar a colaborar com a perversidade de um vírus maldito.

Há, no entanto, outras razões responsáveis pelo aumento de novos casos de infecção do coronavírus, na região de Lisboa. Todas essas razões estão directamente relacionadas com a escassez de qualidade de vida, na grande metrópole. O constante agravamento dos preços da habitação na cidade expede as famílias para os subúrbios, sujeitando-as depois a percursos enormes, entre a residência e o emprego. Nalguns casos, são mais de 70 quilómetros, por dia.

O problema não é de agora. Há mais de 60 anos, já a CP operava um comboio, que saía do Entroncamento por volta das cinco horas da madrugada, lotado com gente que ia trabalhar para Lisboa, geralmente de profissões operárias. Eram funcionários da própria CP, da Fábrica Militar de Braço de Prata, das indústrias do tabaco e dos sabões, entre outras, que tinham crescido na zona oriental de Lisboa, com a II Guerra. Era o chamado “combóio operário”.

Actualmente, com o aparecimento dos parques industriais e plataformas logísticas a norte de Lisboa, o “comboio operário” passou a viajar também no sentido oposto.

Mas há ainda os comboios vindos das linhas de Sintra e Cascais, os barcos que atravessam o Tejo vindos do Barreiro, Seixal, Almada e Trafaria, e dezenas de autocarros que despejam gente em Entrecampos, na Praça de Espanha, em Sete-Rios e noutras zonas. São milhares de trabalhadores que depois completam os seus itinerários de metro ou autocarro.

As condições em que viajam são reconhecidamente deploráveis, sem conforto, sem higiene, sem espaço, sem a dignidade que é devida a qualquer ser humano. Por aqui, o coronavírus espalha-se à velocidade do fogo, tocado pelo vento. E é isso que está a acontecer.

Como tinha prometido, o primeiro-ministro, António Costa, vai reverter algumas medidas de desconfinamento.

Haverá também um conjunto de medidas profilácticas para a região de Lisboa e Vale do Tejo, como a testagem em massa de trabalhadores de indústrias consideradas críticas, como a construção civil e as de grandes concentrações fabris. A tudo isto, podemos juntar a pouca informação e o desleixo de gente jovem que se acha acima de qualquer perigo.

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