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Um ano depois das cheias, Echternach ainda se está a tentar levantar

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Um ano depois das cheias, Echternach ainda se está a tentar levantar

Um ano depois das cheias, Echternach ainda se está a tentar levantar
Reportagem

Um ano depois das cheias, Echternach ainda se está a tentar levantar


por Ricardo J. RODRIGUES/ 22.07.2022

Fotos: António Pires

As piores inundações da história do Luxemburgo aconteceram há um ano. Regresso à cidade onde tudo foi pior, para avaliar a dimensão que ainda tem o estrago.

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Uma longuíssima espera
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O restaurante Oktav Amadeus demorou um ano a reconstruir.
O restaurante Oktav Amadeus demorou um ano a reconstruir.
Foto: António Pires

Esta semana, o restaurante Oktav Amadeus volta a abrir portas e para a família Intorre isso significa que a bonança chegou finalmente, depois de mais de um ano de tormenta. “Na manhã de 15 de julho de 2021 a água engoliu a nossa vida toda”, diz Mimo, o patriarca. Giusi, a sua mulher, puxa do telemóvel para mostrar a rua alagada. “A quota chegou aos dois metros, perdemos tudo. Os seguros avaliaram os estragos em milhão e meio de euros e nos primeiros dias não achámos que conseguissemos voltar a levantar”, conta ele. “Mas agora vamos voltar a abrir as portas e não imagina como isso me enche o coração de alegria.”


"Ai, meu Deus, a água vem com uma força que nos engole a vida inteira"
Echternach é um cenário de desolação, com centenas de pessoas a serem resgatadas de barco e a deixarem para trás a vida que levaram anos a construir. Na capital, o pesadelo da noite de quarta regressou ao final da manhã de quinta. As histórias de quem avalia perdas, estragos e as memórias que a tempestade levou.

Passou um ano desde o dia que ainda ninguém esqueceu. Na noite de 14 de julho do ano passado, a água subiu no Alzette e alagou a zona baixa da capital – o bairro do Grund ficou particularmente afetado, mas também os habitantes de Clausen e do Pfaffenthal sofreram com as inundações. Na manhã seguinte, foi o Sûre que se fez demasiado grande e começou a tomar conta das ruas de Echternach. Uma boa parte da cidade teve de ser evacuada, 250 pessoas foram recolhidas de barco dos pisos inferiores das casas, porque as zonas térreas estavam alagadas. E o restaurante dos Intorre estava mesmo ao lado do rio – foi uma das maiores vítimas da tempestade.

Ao cabo de um ano, a cidade do leste está longe de ver a vida voltar ao normal. Há 500 pessoas que foram afetadas diretamente pelas “piores inundações da história do país”, como disse na altura a ministra do Interior, Taina Bofferding. Os realojamentos estão praticamente concluídos, mas ainda há duas famílias que não voltaram a casa. As compensações por tudo o que se perdeu avançam, mas o trauma subsiste. E se o assunto é a economia, é preciso falar da sua espinha dorsal na região: o turismo. Esta semana reabrem dois restaurantes, mas muitos fecharam portas de vez. A cidade mais antiga do país continua a lamber as feridas das cheias.

As ruas de Echternach retomam a normalidade.
As ruas de Echternach retomam a normalidade.
Foto: António Pires

“Estamos a levantar-nos devagarinho, mas havemos de chegar lá”, diz Angelo Intorre, filho dos donos do restaurante italiano. À sua volta as mesas já estão montadas, algumas peças de decoração que jazem pelo chão à espera de ser arrumadas, baldes e esfregonas e vassouras encostam-se aos cantos das paredes. Agora está quase, pelo menos aqui. No Oktav Amadeus tem-se vista para o que toda a gente deseja em Echternach: que a vida volte definitivamente ao normal.

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Alfredo ainda não voltou para casa
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O Val des Roses foi uma das ruas mais afetadas pelas inundações. No dia da tragédia, o Contacto viu famílias serem evacuadas, outras a tentarem salvar as memórias que pudessem, e os anos de trabalho que tinham acumulado dentro das suas paredes. Agora, quase todos voltaram a casa. Ainda há marcas da água, ainda há pequenas coisas por reparar, mas em nenhum lugar elas estão tão atrasadas como na casa de Alfredo Moutinho, um rés do chão da zona histórica.

Há porta há latas de tinta e baldes de cimento, lá dentro ferramentas de construção, pintura, revestimentos de teto. “Há um lado que me faz querer voltar para aqui já mas há outro que me mete medo”, diz o português. “As minhas memórias daquele dia ainda me causam pesadelos.”


Olívia Moutinho sofre de esclerose múltipla e vive no Parque de Campismo de Echternach desde que ficou desalojada nas cheias de julho.
Passaram cinco meses das cheias e Olívia ainda não pode passar o Natal em casa
As inundações de julho no Grão-Ducado ainda não são assunto resolvido. Olívia Monteiro vive doente e isolada num parque de campismo, à espera do regresso à normalidade que nunca mais chega.

Quando a água chegou, ele e a mulher estavam a acabar de arrumar as malas – nesse dia o plano era seguir viagem para Portugal. “Às 9h30 fui a uma consulta rápida e via a água lá ao fundo da rua. Uma hora depois, já me chegava à porta de casa”, lembra. Numa hora, haveria de chegar aos 98 centímetros de altura no interior da sua casa. “Mandei a minha mulher para um vizinha que havia no terceiro andar e fui salvar os carros de umas vizinhas velhotas que tinham medo de se meter neles. Depois então vim para casa tentar ver o que podia salvar”, diz o homem.

Antes do quadro elétrico explodir, a água provocou-lhe-lhe alguns choques no corpo. “O que me impressionava mais de tudo era o silêncio, só se ouvia o correr da água e depois, de vez em quando, um grito a pedir socorro”, diz Moutinho. “Eu meti-me dentro de casa a tentar meter as coisas nos lugares mais altos. Mas assim que acabava de um lado e ia para outro, ouvia um móvel era a cair. Era a água a deitá-los abaixo.”

O momento mais difícil foi outro. “Houve uma altura em que a água empurrou o sofá contra mim e fiquei preso entre ele e o móvel da sala. Nisto, vejo a gaiola onde tinha o nosso periquito tombar. Tentei soltar-me mas a corrente já era forte. Quando lá cheguei o pobre do bicho já se tinha afogado”, e esconde o rosto porque os olhos voltam a encher-se-lhe de maresia. 

Os trabalhos em casa dos Moutinho continuam até ao fim do mês.
Os trabalhos em casa dos Moutinho continuam até ao fim do mês.
Foto: António Pires

Uma centena de famílias não pode voltar nos dias seguintes a casa e os Moutinho faziam parte dessa lista. Depois de duas semanas num hotel, foram instalados numa cabana no parque de campismo, a quatro quilómetros de casa. Em dezembro, o Contacto fez uma reportagem sobre a situação em que se encontravam. Olívia, mulher de Alfredo, falou então de sua justiça: “Não quero parecer ingrata, estou muito agradecida de me terem dado um teto depois das cheias. Mas tenho muitas dificuldades de locomoção e daqui até à estrada há uma inclinação de 200 metros. Custa-me descer, custa-me subir, trazer as compras para cima é um pesadelo. Mas o pior é este medo que sinto por estar aqui isolada. Eu só queria voltar para a minha casa.”

Segundo a comuna de Echternach, os Moutinho devem poder voltar a casa no fim do mês. “Têm as indeminizações pagas que lhes permitem recuperar a casa”, diz Ricardo Marques, vereador com o pelouro da Ação Social que também preside à Comissão de Gestão de Inundações de Echternach e Rosport, outro município altamente afetado pelas cheias. “O outro caso em que ainda não há realojamento prende-se com problemas de regularização dos habitantes, que não estavam registados no país.” Ou seja, o município acredita que bastam uns dias para toda a gente voltar a ter teto. Apesar de haver outras coisas que vão demorar mais tempo a recuperar.

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O caminho da reconstrução
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Ricardo Marques, vereador da Ação Social na comuna de Echternach.
Ricardo Marques, vereador da Ação Social na comuna de Echternach.
Foto: António Pires

Alfredo Moutinho preferia ter mais tempo para reconstruir a casa, até porque a comuna lhe pede para abandonar as instalações no parque de campismo até ao final deste mês. “Estou condenado a fazer quase tudo sozinho, porque agora começam as férias coletivas e abala todo o setor da construção civil.” Nos últimos dias, é ele que dá conta dos baldes de cimento. “Pus o teto falso, forrei as paredes de azulejo, mas ainda falta montar armários na cozinha e loiças na casa de banho. “Como tenho esclerose múltipla isto demora mais um bocado. Há dias em que são muitas dores para levantar os braços”, lamenta.

As pessoas afetadas pelas cheias tiveram direito a três níveis de apoio: o das seguradoras, primeiro, o do governo, depois e por fim o da comuna. Houve uma altura em que as  pessoas estavam fartas e desmotivadas. E Ricardo Marques foi o primeiro a dizê-lo, desde a altura das cheias: “Tínhamos de pedir-lhes mais um papel, mais uma avaliação. Mas tínhamos de avaliar o que já receberam de um lado e de outro para poder complementar o bolo inteiro.” Agora, diz ele, as coisas já estão compostas. O caminho da reconstrução avança.


"Uma parte de Echternach está perdida para sempre"
Passaram 50 dias desde as maiores inundações da História do Luxemburgo. Em Echternach, onde tudo foi pior, há quem ainda não tenha podido voltar a casa dois meses depois da evacuação da cidade. O rio pode ter baixado mas as mágoas estão longe de secar.

A prioridade do auxílio foi para os cidadãos, mas também o comércio sofreu uma hecatombe. Dos 50 estabelecimentos afetados, 19 eram lojas, 16 eram vendas de comida. Seis lojas não tornaram a abrir, nem dois cafés e restaurantes. Os contentores improvisados que foram colocados no parque escolar para compensar as salas de aula que se encheram de humidade e não estavam utilizáveis vão ser desmantelados no próximo ano letivo, porque a escola nova – um projeto que já estava em marcha – vai abrir portas em setembro.

“As cheias aceleraram uma série de obras e de infraestruturas que já estavam previstas”, diz Marques. Outro exemplo disso é o parque desportivo da cidade, cuja inauguração estava prevista para 2025 mas poderá acontecer antes. “Claro que entretanto temos dezenas de atletas a terem de ir treinar para outros municípios. A piscina, que era um ex-libris da cidade, está completamente inutilizada. Mas pelo menos agora vemos uma luz ao fundo do túnel”, diz o vereador da Ação Social de Echternach.

Uma das pequenas guerras que o município atravessava com o governo foi também resolvida esta semana. O parque central de Echternach continuava um campo vazio porque, durante um ano, o ministério do ambiente não deixava que ninguém lhe tocasse. “Quiseram fazer um levantamento histórico do que estava antes plantado ali, mas acabámos por ficar mais de um ano à espera de resolução. Já tínhamos gasto 22 mil euros em arvoredo e flores que não pudemos plantar”, queixava-se Marques no final da semana passada. “Somos uma cidade de turismo, não podemos ter o parque da cidade ao abandono.”

Ricardo Marques diz que os trabalhos que demorarão mais tempo serão os da reconversão do rio.
Ricardo Marques diz que os trabalhos que demorarão mais tempo serão os da reconversão do rio.
Foto: António Pires

 Nesta segunda, o governo anunciou que o estudo estava terminado e as obras poderiam avançar. Dentro de algumas semanas, as zonas floridas voltarão a ter cor. Mas há um projeto que demorará mais tempo, alguns anos até estar pronto. “Precisamos de gerir melhor o curso do rio, de criar zonas de inundação naturais que não afetem tanto as populações. Isso exige uma gestão integrada entre vários municípios, entre várias regiões e entre vários países. Levar o seu tempo”, diz Marques.

No leste do país, a vida ainda não voltou totalmente ao normal. Algumas coisas perderam-se para sempre, outras vão demorar a estar prontas – e as memórias de um dia terrível continuam presentes na cabeça de muita gente. Mas, lentamente, a cidade vai-se erguendo e reconstruindo. Um ano depois, a esperança nunca foi maior.

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