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UE cede à Turquia para evitar nova crise
Luxemburgo 5 min. 11.03.2020 Do nosso arquivo online

UE cede à Turquia para evitar nova crise

UE cede à Turquia para evitar nova crise

Foto: AFP
Luxemburgo 5 min. 11.03.2020 Do nosso arquivo online

UE cede à Turquia para evitar nova crise

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
A UE quer evitar a todo o custo uma nova tensão na fronteira entre a Grécia e a Turquia, onde migrantes e refugiados têm chegado desde 28 de fevereiro.

 Depois da escalada de violência junto à fronteira entre a Turquia e a Grécia, envolvendo refugiados sírios e polícias dos dois países, a União Europeia (UE) relançou o diálogo com Ancara na segunda-feira com uma reunião em Bruxelas. Durante o encontro, tanto a líder da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, como o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, em conjunto com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, anunciaram a abertura de um processo que vai durar várias semanas para clarificar os termos do acordo assinado em 2016, que permitiu então cortar o fluxo de migrantes e refugiados para a UE em troca de ajuda financeira. Simultaneamente, Bruxelas também atenuou o seu apoio às duras políticas migratórias de Atenas e exigiu que a Grécia respeitasse o direito de asilo.

De acordo com o El País, a UE quer evitar a todo o custo uma nova tensão na fronteira entre a Grécia e a Turquia, onde migrantes e refugiados têm chegado desde 28 de fevereiro. Com muitas críticas à gestão europeia da crise migratória na última décadas, que levou à morte de milhares de pessoas no Mediterrâneo, a UE tenta evitar o pior cenário vivido entre 2015 e 2016 quando chegaram 1,3 milhões de refugiados. Segundo o El País, Bruxelas admite que a forma desastrosa como enfrentou essa crise abriu feridas entre os seus membros e levou à ascensão de movimentos de extrema-direita, nacionalistas e populistas. Daí a urgência de resolver este episódio.

Se Von der Leyen acredita que a UE está “melhor preparada” hoje do que estava então, a verdade é que nos seus primeiros cem dias de mandato não foi capaz de apresentar um pacto migratório como havia prometido. A Turquia, no entanto, continua a ser uma peça-chave nesta estratégia de contenção. O país abriga mais de 3,7 milhões de refugiados sírios, para os quais foi assinado em 2016 um programa de ajuda da UE de 6 mil milhões. Sem um novo pacto para enterrar definitivamente o sistema de asilo adoptado em Dublin em 1990, a UE precisa de Ancara para regressar aos termos do acordo. “É importante para nós implementarmos o acordo entre a Turquia e a UE sobre migração”, insistiu Charles Michel.

Ainda assim, os dois líderes da UE não conseguiram alcançar um compromisso imediato de Erdogan para regressar ao acordo e afastar os migrantes da fronteira. A crise da semana passada, na verdade, deixa claro que os dois lados não têm o mesmo entendimento do acordo. Na verdade, o presidente turco tenta usar os refugiados como moeda de troca perante o avanço das tropas sírias, com o apoio da Rússia, em território ocupado pela Turquia e por forças próximas da al-Qaeda. Erdogan já tinha ameaçado quebrar o pacto em várias ocasiões se Bruxelas não atendesse às suas exigências que envolvem mais dinheiro para manter os refugiados em seu território e um maior envolvimento europeu na Síria assim como a isenção de visto para os cidadãos turcos no espaço Schengen. Charles Michel admitiu aliás, que tinham estado outras questões em cima da mesa mas não especificou quais.

“É um primeiro passo para abrir um diálogo político mais forte a curto, médio e longo prazo”, afirmou. “É um bom ponto de partida para um processo”, concordou Von der Leyen depois da reunião, de acordo com o El País.

Bruxelas também decidiu romper o seu silêncio em relação à forma como a Grécia está a gerir a crise. Na semana passada, Von der Leyen falava do “escudo” da Europa mas na segunda-feira já alertava para que a proteção fronteiriça não pode pôr em causa os direitos fundamentais, incluindo o asilo. Nesse sentido, pediu às autoridades gregas uma investigação às queixas sobre as ações policiais contra os refugiados.

Entretanto, Luxemburgo, Portugal, Alemanha, França e Finlândia aceitaram distribuir entre si os cerca de 1500 menores que chegaram sem as suas famílias às ilhas gregas.

Apoio da NATO

Aparentemente, a estratégia da Turquia de usar os refugiados da região como forma de chantagem sobre a UE e os Estados Unidos em relação à Síria está a funcionar. Jens Stoltenberg, secretário-geral da NATO, destacou o papel “importante e valioso” de Ancara na aliança atlântica e reafirmou o seu “forte compromisso com a sua segurança”. O dirigente da NATO também exortou a Turquia a envolver-se na “procura de uma solução a longo prazo” para a crise e saudou as conversações.

Já o ministro turco das Relações Exteriores, Mevlut Cavusoglu, afirmou na terça-feira, de acordo com a Reuters, que os Estados Unidos propuseram a Ancara o acesso à inteligência terrestre, marítima e aérea na região de Idlib. Em entrevista à agência estatal de notícias Anadolu, o ministro das Relações Exteriores anunciou que Moscovo e o seu país tinham chegado a um acordo sobre o patrulhamento da área. Segundo Cavusoglu, está prevista a criação de um corredor de segurança ao longo da estratégica auto-estrada M-4. As forças turcas ficam responsáveis por vigiar o território a norte do corredor de segurança e as forças russas pelas áreas a sul.

“Estamos a trabalhar para tornar este cessar-fogo permanente. Se o regime [sírio] tentar avançar, apesar do cessar-fogo em Idlib, faremos o que nossos soldados têm feito até agora”, ameaçou Cavusoglu que acrescentou que a compra dos sistemas anti-mísseis russos S-400 não impede Ancara de adquirir os sistemas norte-americanos Patriot. 


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