Escolha as suas informações

Toxicodependência. A última oportunidade para ganhar uma vida

  • A decisão de dizer "basta!"
  • John. Mãe e filho no abismo dos consumos
  • Mariana. Recuperar as filhas perdidas para a droga
  • Jean. O AVC que o salvou da outra morte
  • António. A salvação numa certidão de óbito interrompida
  • Eles são a nova família
  • A decisão de dizer "basta!" 1/6
  • John. Mãe e filho no abismo dos consumos 2/6
  • Mariana. Recuperar as filhas perdidas para a droga 3/6
  • Jean. O AVC que o salvou da outra morte 4/6
  • António. A salvação numa certidão de óbito interrompida 5/6
  • Eles são a nova família 6/6

Toxicodependência. A última oportunidade para ganhar uma vida

Toxicodependência. A última oportunidade para ganhar uma vida

Toxicodependência. A última oportunidade para ganhar uma vida


por Paula SANTOS FERREIRA/ 19.04.2020

Perderam-se para as drogas e o Álcool no Luxemburgo, que os levou a viver nas ruas. Para portugueses e lusodescendentes, alguns muito jovens, o passaporte para uma vida nova está nas comunidades terapêuticas em Portugal, através do apoio da associação Impuls. O Contacto acompanhou-os na sua recuperação em Braga.

.

1

A decisão de dizer "basta!"
Copiar o link


Dizem que ali o pôr do Sol é fantástico, com o céu pintado de tons laranja e vermelho, como se estivessem em África.

Sempre que o tempo o permite, os residentes da comunidade terapêutica "Viver Mais" saem para o amplo exterior da moradia situada no alto de Nogueiró, com vista para a cidade de Braga, e ficam a ver aquela maravilha da natureza desaparecer sob o cenário bracarense.

Esta foi uma das coisas simples da vida que reaprenderam a admirar naquele centro de recuperação em Portugal, depois de anos e anos de autodestruição, no Luxemburgo, de adolescências perdidas para o consumo de drogas e álcool que os levou ao tráfico, à prostituição, à vida nas ruas, a alimentarem-se nos caixotes do lixo, à prisão e até serem quase dados como mortos. Os corpos, pele e osso alimentados pelos consumos, já exigiam o fim de tanto sofrimento: um AVC com sequelas e uma perna quase amputada foram tentativas de um ponto final. Sem sucesso. Até que procuraram ajuda.

Tudo começa na Impuls no Luxemburgo

O apoio e a passagem para a mudança de vida aconteceram através do Projeto Option, do Service Impuls de Solidarité Jeunes para tratar dependências, na capital do Luxemburgo. Perante o grande número de jovens portugueses e lusodescendentes toxicodependentes que a procuravam, esta associação, iniciou, em 2017, parcerias com quatro centros portugueses de tratamento para a toxicodependência e alcoolismo, todos no norte de Portugal, como a comunidade "Viver Mais". 

É ali que iniciam a mudança de vida, tratam o vício e se preparam para enfrentar o mundo sem dependências.  Atualmente, são 16 os jovens e adultos que escolheram Portugal, mas a Impuls tem também convénios com mais seis centros na Holanda e em Itália, onde estão em tratamento outras 10 pessoas. O confinamento acabou por interromper 20 novos processos.

No Luxemburgo, existem apenas duas comunidades em regime de internamento para reabilitação das dependências, uma para alcoólicos e outra para tratar as outras adições, mas só aceitam pessoas com mais de 18 anos. Para os adolescentes nada existe, apenas tratamentos ambulatórios. A Impuls também oferece este tipo de tratamentos aos adolescentes, na sua sede, sendo o Projeto Option a última alternativa, implicando o acompanhamento e tratamento de longa duração, com internamento.

Para dez dos residentes atuais, portugueses, lusodescendentes e dois luxemburgueses, que se encontram na comunidade "Viver Mais", a viagem para esta “última oportunidade” de “tentar endireitar a vida” foi longa, desde o Luxemburgo onde residem, até ali, em Braga, Portugal, onde estão a tentar reerguer-se.  

Adolescências perdidas aos 15 anos

A benjamim do grupo, filha de portugueses, chegou à "Viver Mais", com 15 anos, em 2018, e o mais velho deles, o luxemburguês Luc, tem 54 anos e também ali está desde esse ano. A estadia é longa e só dali saem quando as comunidades e os próprios considerem que estão preparados para partir e regressar ao Luxemburgo, para tentarem viver de novo.

 “Uma vez por mês vimos a Portugal para fazemos uma visita a cada centro para estarmos com eles, reunirmo-nos com cada um, para sabermos como estão, e também com os responsáveis dos centros”, esclarece a educadora Paula Martins que, com Salomé Mendes, acompanha todo o processo dos jovens e adultos que levam para Portugal. O apoio não se esgota aqui.

“Durante todo o processo fazemos um acompanhamento muito próximo de cada caso. Mesmo após o regresso continuamos a apoiá-los na sua reinserção familiar, social e no trabalho”, conta Paula Martins. Esta associação é a única no Luxemburgo que dá este apoio e trabalha com centros em Portugal. Ao todo são quatro, e no norte do país.

 

2

John. Mãe e filho no abismo dos consumos
Copiar o link


Naquele dia chuvoso de março foi a vez destas duas responsáveis passarem algumas horas na comunidade terapêutica "Viver Mais", em Braga.

À chegada, a casa grande e cheia de luz estava vazia. E silenciosa. Os residentes estavam na reunião matinal numa sala com a porta fechada. No andar de cima, os quartos dos homens e os das mulheres, primavam pela arrumação, com as camas feitas a rigor. Tudo feito por eles. Regras que têm de ser cumpridas. Aliás, o reaprender a viver com regras e normas e a respeitá-las e cumpri-las faz parte do processo de reabilitação.

O elo de ligação ao Luxemburgo

 A satisfação dos imigrantes no Luxemburgo foi grande quando viram Paula Martins e Salomé Mendes. “Nós somos o elo de ligação deles com o seu país e têm sempre questões para nos colocar ou conselhos a pedir sobre as opções a tomar no futuro, quando o tratamento está na fase final”, conta Paula Martins.

Olhando para todos os residentes, com aspeto saudável, é difícil imaginar tudo o que já passaram. Graças à Impuls e a este centro conseguiram apagar quase todas as marcas físicas do vício e ali, naquela casa, parecem um grupo grande de amigos que vivem juntos. Mas vigiados 24 horas por dia.

Um dos tópicos da conversa dos mais novos, os lusodescendentes John e Cindy foi a possibilidade das suas mães ingressarem também num destes centros em Portugal.

Os dois jovens, ele com 18 anos e ela com 17, cresceram no seio de famílias destruturadas, com mães alcoólicas. Desde muito cedo começaram a consumir canábis chegando a consumos perigosos diários, e sempre associados a muito álcool.

A força do filho e a fraqueza da mãe

Quando John deixou o Luxemburgo para iniciar o tratamento em Braga, não veio sozinho. A mãe viajou com ele para dar entrada noutra comunidade para tratar o problema de alcoolismo.

Só que, enquanto John se mantém em tratamento, iniciado há 11 meses, a mãe já desistiu e abandonou o centro onde estava.

Agora, John já conseguiu convencê-la a ingressar novamente numa comunidade terapêutica, desta vez noutro país, também através da Impuls.

“Ela está orgulhosa de mim e eu sou um exemplo para ela. Por isso, quero que ela olhe para mim e desta vez leve o tratamento até ao fim”, diz John num português com pronúncia francesa. Tal como ele, outros luso-descendentes treinam ali o idioma dos pais. Até os luxemburgueses aprendem a falar português.  

“A minha mãe é tudo o que tenho. Se ela não está bem, eu não estou bem”, garante o jovem que desde muito pequeno protegeu a mãe, vítima de violência doméstica por parte do pai. Também ele acabou vítima, até o pai desaparecer. Desde aí, “tantas foram as vezes que fui à procura dela porque sabia que tinha bebido demais, e por duas vezes impedi-a de saltar da janela”.

Foi também pela mãe e porque John chegou a uma situação limite que aceitou vir para Portugal tratar-se. “Eu pedi-lhe: ‘mãe vamos voltar a ter a vida que tínhamos antes’”, uma vida onde a progenitora tinha bons empregos e “uma casa bonita”.

É este desejo que tem guiado John. “A minha vida estava um descontrolo total, por dia, sei lá, fumava uns 15 gramas de canábis. E traficava. Ganhava dinheiro. Cheguei a fazer assaltos”, conta. Até que foi expulso da escola. “Agredi um rapaz. Ele foi parar ao hospital e fez queixa à polícia”. Com 17 anos ficou com duas alternativas: ou ir para um centro de acolhimento de menores ou internar-se e tratar a sua dependência da cannabis. John escolheu a segunda.

Tudo começou aos 15 anos

Desde os 15 anos que as rotinas de John e da sua mãe viviam em redor dos consumos. “De início não foi fácil estar aqui, o que mais me custava era ter de obedecer a ordens. Agora sinto-me bem. Somos uma família entre o grupo e a equipa do centro”. Chegou ao Viver Mais com 52 quilos, agora tem 70. E “tem feito exercício”, ganhado músculo. O instrutor do grupo é um português do Luxemburgo, um ex-atleta que quase todos os dias lhes dá um treino personalizado. 

O jovem assume que a serenidade que sente agora reconquistou-as ali, em Braga. “Este sou eu, o John de antigamente. Com o vício tornei-me muito agressivo, julgava-me o maior”, admite.

“Quero ter uma vida decente, voltar a estudar e ir para a tropa. Ganha-se bem”, ambiciona John.

Miúdos perdidos em famílias tóxicas

No dia seguinte à visita à comunidade, a educadora Paula Martins foi ao aeroporto buscar uma nova residente. Uma mulher luxemburguesa que entrou no centro para tratar o seu alcoolismo, a pedido da filha. A jovem, que fez o pedido, esteve ali internada e hoje é um dos casos de sucesso.

Também a benjamim do grupo atual está a convencer a sua mãe a vir para esta comunidade tratar as suas dependências. A Impuls estava também a analisar o pedido, que agora está parado, devido à pandemia do novo coronavírus.

“Há muitos miúdos que nos chegam do Luxemburgo muito perdidos, com pais ausentes, famílias destruturadas, com pais que também consomem drogas e mães dependentes do álcool. Também há vários casos de famílias monoparentais com pais e filhos dependentes”, explica Raquel Lago Cruz, psicóloga do centro "Viver Mais".

Nestes casos, a Impuls, nas consultas conjuntas com os jovens e os pais, incentiva também os progenitores a realizar o tratamento, por eles e pelos seus filhos.

“Nós trabalhamos com a entourage familiar. É muito importante apoiar não só para quem tem dependência, como toda a família. Muitas vezes a dependência é a ponta do iceberg dos problemas daquelas famílias, as relações tóxicas e a dinâmica que levou à dependência”, declara René Meneghetti, diretor da Impuls. Para que no regresso ao Luxemburgo não se retorne à “situação destrutiva do passado”. 

Há dois anos que a "Viver Mais" iniciou esta colaboração com a associação do Luxemburgo e recebe doentes para tratamento.

O perigo da canábis

São doentes pois, como refere o life coach Alexandre Couto, “a toxicodependência é uma doença crónica”, para a vida. Mesmo depois de terminado o tratamento.

Uma das diferenças marcantes de quem vai do Luxemburgo é “o tratamento para a dependência da canábis”, refere Raquel Lago Cruz, o que é “um avanço importante em relação, por exemplo, a Portugal, onde ainda é raro o internamento e tratamento por esta dependência”.

Mas é importante e quanto mais cedo, melhor. “O consumo de canábis provoca problemas do foro psicológico que, consoante o grau de consumo, podem ser graves. Já temos tido casos de jovens que acabam o tratamento, refazem a vida, mas ficam com certas limitações a nível cerebral”, alerta a psicóloga.

3

Mariana. Recuperar as filhas perdidas para a droga
Copiar o link


A canábis foi também o início do que viria a ser uma vida de dependência das drogas para a portuguesa Mariana, imigrada no Grão-Ducado. Começou a fumar aos 13 anos, em Portugal, e hoje aos 40 anos está ali na "Viver Mais", para deixar para trás 27 anos de consumos. Mesmo assim conseguiu acabar o curso superior de Nutrição. Mariana experimentou tudo, viciou-se em tudo: canábis aos 13 anos, heroína aos 14 anos, speed ball (mistura de heroína e cocaína) aos 26 anos, e fez de tudo para conseguir a próxima dose. “Fui traficante, estive seis meses presa, fui prostituta e sem-abrigo”, conta. Tem três filhas, de 14, sete e cinco anos, que lhe foram tiradas com meses ou poucos anos por causa do vício.

 “Foi uma relação de consumos e de violência doméstica, que acabou com os meus pais a tirarem-me a guarda da minha filha mais velha, tinha ela seis meses de vida”, lembra Mariana.

Depois teve as duas filhas mais novas com outro namorado, que já desapareceu.

 “Pus a vida das minhas filhas em risco”, diz arrependida.  “Durante todas as minhas gravidezes nunca consumi, nem durante a amamentação. Mas depois voltava. Mais uma vez, as filhas foram entregues a uma família de acolhimento, a do padrinho de batismo da filha do meio, também residente no Luxemburgo. “Tiraram-me as meninas, tinham elas três anos e seis meses, foi horrível”.

Mas Mariana pode ir visitá-las, uma vez por semana. E nunca falhou. “Já não fui mãe para a minha filha mais velha, que foi criada pelos meus pais, desde os seis meses. E mal fui para a mais nova. O meu sonho é que daqui a dois anos e meio esteja a viver com as minhas filhas numa casa e tenha um emprego. Uma vida como nunca tive”, diz Mariana que junto à sua cama tem um quadro com várias fotos das filhas e dos seus pais. 

"Estive morta quatro minutos"

No Luxemburgo não conhece ninguém, ou melhor, “ninguém que valha a pena, sempre me envolvi e convivi com quem consumia e desses só quero distância”. Os anos, de um dia a seguir ao outro vividos só para consumir, os intervalos era para conseguir dinheiro para a próxima dose, levaram-na a uma grave pneumonia e chegou a estar em morte clínica. “Estive morta quatro minutos, mas ressuscitei”. Porém, nem depois desta quase passagem para o outro lado, parou de consumir. “Eu nestes anos todos fiz sofrer muita gente e fiz mal a muita gente. Não quero fazer mais mal a ninguém”.

Mariana vai continuar ali no centro por mais seis meses, onde vive desde julho de 2018. Desta vez é que vai ser, prometeu Mariana a si própria. “Não basta deixar de consumir, é preciso mudar de vida”. Mariana gostava de seguir a profissão de Alexandre, life coach.  “Penso que os compreendo muito bem, como se perde o sentido da vida e se luta para o recuperar. Quem sabe se não posso vir a trabalhar na Impuls”.

A partir de uma certa fase do tratamento, os residentes, começam a “fazer a prova”, ou seja, vêm até ao Luxemburgo passar uns dias, e depois regressam para o centro. O objetivo, além de rever as famílias é voltar à ‘vida real’, mas sem consumir. “Vão começando a reintegrar-se e a preparar-se para a vida depois do tratamento terminar”, vinca a psicóloga Salomé Mendes.

As visitas ao Luxemburgo

Da última vez, no início de março, Mariana veio nove dias ao Luxemburgo, para visitar as filhas, e começar a adaptar-se a este país, onde quer continuar imigrada. Quem volta a casa por uns dias tem de ir a três consultas com a educadora e a psicóloga, na sede da Impuls, e frequentar as reuniões de narcóticos anónimos, criadas por ex-toxicodependentes desta associação. Mariana vai sempre nervosa, mas tem conseguido passar com sucesso estas etapas. Mas é no centro que se sente em casa. “Aqui somos mesmo uma família, os responsáveis do centro e todo o pessoal fazem-nos sentir bem, dão-nos confiança e proteção”.  Mas, a vida real é lá no Luxemburgo, sabe.

 “Cada residente é um caso único e todo o processo pode demorar mais ou menos tempo, mas só regressam quando vemos que estão preparados”, conta a psicóloga Salomé Mendes. As reuniões mensais com cada um deles nos centros terapêuticos, são fundamentais, vinca.

4

Jean. O AVC que o salvou da outra morte
Copiar o link

 

O Estado de Emergência impediu que Jean regressasse ao seu país natal. Este luxemburguês, de 53 anos, é o residente mais velho no centro, onde está há 12 meses. A saída estava marcada para este mês com um bilhete de regresso para uma nova etapa na sua vida de 26 anos de consumos. Agora tem de esperar pelo fim das restrições.

Jean sempre quis ser um homem livre, sem responsabilidades de filhos e família. É um don juan. Até houve uma paixão antiga que viajou do Luxemburgo até Portugal para o visitar. Só que está comprometida e garante que não quer “nenhuma relação com ela”. Aliás, “quero estar livre para iniciar a minha vida limpo”.

Este engenheiro que durante anos conseguiu manter “um bom emprego, a ganhar bem” mesmo consumindo diariamente, começou tarde a drogar-se, aos 27 anos de idade. E nunca mais abandonou os consumos. Acabou por perder o emprego, fez dois tratamentos de reabilitação, sem sucesso. Um na Alemanha e outro em Itália. Sempre teve dinheiro para comprar e nunca se meteu em “nada ilegal”.

“Só que devido às drogas tive um AVC e colocaram-me uma válvula no coração”. Um AVC que o deixou um mês em coma e depois numa cadeira de rodas durante meio ano e lhe afetou a zona do cérebro responsável pela fala.  Foi já ali no centro que continuou a fisioterapia e conseguiu recuperar desse problema. Hoje já anda bem, embora se canse muito, e ainda tem dificuldade na dicção, mas já se percebe tudo o que diz. A seguir à cirurgia e ainda em cadeira de rodas continuava a ir “todos os dias à Abrigado consumir”, diz Jean contando que nessa fase já vivia num centro de acolhimento.

A decisão do luxemburguês 

Até que um dia “disse chega, quero sair desta vida, porque tenho medo de que o pior me aconteça e não quero outro AVC”. Um amigo encaminhou-o para a Impuls e Jean gostou da ideia de realizar o tratamento em Portugal. “Nunca tinha estado cá, mas gosto de Portugal, do sol, o Luxemburgo é muito mais cinzento”.

No entanto, quer regressar à sua cidade, a capital, e à casa da mãe, que ficou, entretanto, viúva, para a apoiar. “Desta vez não posso recair, é muito perigoso para mim e eu quero viver”. Até porque, como confessa, “é a primeira vez que tenho a esperança de conseguir vencer e vou lutar todos os dias para vencer”.

Quando sair de Braga Jean leva “esta família no coração”, onde “todos foram muito amáveis e se preocupam comigo”. Assim que voltar ao Luxemburgo quer começar a trabalhar o mais rápido possível e conta com a ajuda das portuguesas da Impuls para encontrar um trabalho, “quem sabe na associação”. Na reunião mensal com Paula Martins e Salomé Mendes, Jean colocou esta hipótese que as responsáveis prometeram analisar.

5

António. A salvação numa certidão de óbito interrompida
Copiar o link


Também para António a pandemia alterou-lhe os planos. No final de março deveria ter regressado ao Luxemburgo, depois de 18 meses de tratamento na Viver Mais, onde chegou para “se salvar da morte certa e salvar a perna que quase esteve a ser amputada”.

Para fugir à dependência das “drogas”, António saiu de Portugal e veio para o Luxemburgo, com 18 anos. Só que afinal foi aqui que entrou no olho do furação, de onde só aos 39 anos se conseguiu soltar. Mas em muito mau estado. Nestes 21 anos esteve preso várias vezes, no total quase dez dos 11 anos de destruição, a vez mais longa foram seis anos e a última oito meses: “Dessa vez estava inocente, a culpada era a minha namorada na altura, mas eu não a denunciei”. Nos primeiros anos do “namoro com a droga” ainda trabalhava e “todos gostavam de mim e ainda me falam bem”, mas depois perdeu o trabalho. Percebeu que o tráfico de droga lhe garantia uma boa maquia e fez disto a sua vida. Apesar de ser o motivo das várias prisões, quando saía voltava ao ativo.

“Ia à Holanda buscar um quilo de heroína, apanhava o comboio ou ia de carro. Em casa transformava o quilo em dois e vendia.

António viu alguns amigos morrerem “com a minha droga”, uma amiga “minha consumiu o que lhe vendi e depois enforcou-se”. “Penso que isso fez de mim um assassino, matei pessoas e carrego essa culpa”, afirma consternado.

Atirado para a rua em coma

E também quase “se matou” a si próprio.  “Tinha um problema grave no coração, na válvula mitral, e quase morri. Fui atirado para a rua, inconsciente, pelos fulanos da casa e se não fosse um senhor que me viu e chamou a ambulância tinha morrido ali”.

No hospital foi operado de urgência e, naquele dia, na sala de operações, chegou a ser dado como morto. “O coração parou, entrei em morte clínica, os médicos não me conseguiram recuperar e deram-me como morto. Estavam já a passar a certidão de óbito e a enfermeira a desligar as máquinas quando a do coração começou a apitar de novo. Estava vivo”, conta. O quadro clínico complicou-se devido “ao consumo” e a válvula rebentou. “Levaram-me para Bruxelas para nova cirurgia”. Como doente teve direito a ajudas do estado, a uma casa e tinha tudo para endireitar a vida. Não foi capaz. E continuou. “Cheguei a viver dois anos na rua, a comer dos caixotes do lixo, só pensava em consumir”. Em 2005, começou a traficar. 

Em 2017, numa fuga à polícia noite dentro, espetou um ferro no tornozelo que lhe viria a provocar uma infeção tal que quase lhe causou a morte. Conseguiu despistar a polícia, mas ia ficando sem perna. “Tenho uma bactéria [a Staphylococcus aureus] que me causa enormes feridas pois vai comendo a pele”.  Foi pelo medo de lhe “amputarem a perna, e de tão cansado que estava desta vida, que decidi parar. Não sei como tive forças para pedir ajuda. Quando o fiz estava novamente com uma grave infeção”.

O medo de morrer numa valeta

Viajou para Portugal para dar entrada na "Viver Mais", mas antes teve de ser hospitalizado em Braga, onde lhe colocaram “excertos de pele na perna”. Na comunidade continuou o tratamento. “Uma enfermeira vinha cá fazer-me os tratamentos, foi um processo muito longo e quando sair terei de ser operado outra vez”. Para António, a "Viver Mais" salvou-lhe “a perna e a vida”. “A diretora do centro tornou-se uma segunda mãe para mim, por toda a atenção que me deu, os tratamentos, cuida de nós como uma mãe”, diz António.

 “Se não parasse ia morrer sozinho, atirado para uma valeta, na rua. Não quero isso”. Do seu lado, tem de novo a família, que vive em Portugal e voltou a acreditar nele.

6

Eles são a nova família
Copiar o link

 

Raquel Lagos Cruz, Eduardo Tavares, Paula Martins, Salomé Mendes e João Paulo Barros
Raquel Lagos Cruz, Eduardo Tavares, Paula Martins, Salomé Mendes e João Paulo Barros

O momento da despedida dos novos recuperados da comunidade "Viver Mais" vai sendo feito gradualmente ao longo de todo o tratamento. Como explica a psicóloga do centro, Raquel Lagos Cruz, ali o “tratamento é feito com base na terapia 'cognitivo comportamental e humanista'”. Através de “atividades psicoterapêuticas e socioterapêuticas promove-se uma vida saudável em abstinência de consumos de drogas e de comportamentos prejudicais à saúde física, mental”. O programa, explica Alexandre Couto é reforçado pelo 'método Minnesota', o dos 12 passos dos Alcoólicos e Narcóticos Anónimos.

O objetivo final é a reinserção familiar, social e laboral. O mesmo objetivo da Impuls. A estadia na Viver Mais é dividida em duas fases. A primeira, na casa primária, onde os residentes chegam e são vigiados 24 horas por dia, e uma segunda fase, a 'Half Way', outra residência para onde se mudam aqueles que já estão prontos para assumir responsabilidades de uma vida independente, como se “vivessem sozinhos”. António já vive na casa 'Half-way' há seis meses e John também já esteve lá uns tempos, mas “fez asneira” e voltou para a casa principal.

Contudo, todos eles almoçam e jantam juntos. “Aos fins de semana, vamos tomar café lá fora ou vamos ao cinema, todos juntos”, conta o life coach Alexandre Couto.

Impuls quer apoiar mais jovens e adultos

De volta ao Luxemburgo, os regressados à vida continuam a frequentar as sessões da Associação Impuls, que os auxilia em tudo no processo de reinserção.

A Impuls intervém nos três tipos de prevenção das dependências, a primária, com campanhas em escolas, secundária, através de tratamentos em ambulatório e terciária, o de terapêuticas de longa duração, com internamento. “Maioritariamente as situações são ultrapassadas em contexto de prevenção ou ambulatório, contudo, o número de casos em que um tratamento estacionário surge como resposta inevitável, tem vindo a crescer, especialmente entre os jovens adultos”, explica Paula Martins.

A procura é tal que esta associação precisa de reforçar os seus especialistas, constituídos atualmente apenas por uma educadora Paula Martins e duas psicólogas Salomé Mendes e Nora Vitali, a colaboradora financeira Jessica Bintz e a responsável pelo projeto, a psicóloga Susana Ribeiro, e por isso espera ganhar um financiamento do estado. “Atualmente temos 20 pessoas em lista de espera, mas os processos estão parados por causa do estado de emergência devido à pandemia”, explica o direitor da Impuls, René Meneghetti. Os tratamentos são pagos pelo Estado, sendo a Impuls a intermediária do processo.

“Espero que para o ano o Estado nos apoie, para conseguirmos apoiar mais pessoas que desejam tratar-se, pois conhecem os nossos resultados”, vinca este psicólogo.

Os outros tratamentos da Impuls

O Projeto Option da Impuls é a última alternativa de tratamento quando as anteriores não resultam ou não são adequadas. Esta associação intervém nos três tipos de prevenção, a primária, indo às escolas, a secundária, com os tratamentos ambulatórios, e terciária. O projeto Option faz parte integrante da terciária, quando é necessário um tratamento a longo prazo.

Além dos dois centros para adultos e da Impuls há apenas mais uma associação que também tem internamento no estrangeiro. “Mas não os acompanha em todo o processo. Envia-os simplesmente e pronto”, diz o diretor da Impuls.

“Nós apoiamo-los em tudo. Há muitos jovens, sobretudo portugueses, a viver na rua, nós tiramo-los de lá, levamo-los ao médico e tratamos dos processos com a Caixa Nacional de Saúde. Quando esta dá a autorização, levamo-los para os centros em Portugal, Itália ou Holanda. E depois do regresso continuamos a apoiá-los”, vinca.

A cooperação com os centros portugueses tem sido “excelente”: “Queremos realizar mais parcerias em Portugal”. Outro dos objetivos da Impuls é criar uma comunidade terapêutica no Luxemburgo para jovens em regime de internamento. “Não há nada no país para eles, só tratamentos ambulatórios e por isso queremos abrir aqui o nosso centro”, argumenta este diretor, salientado que a população toxicodependente no país tem aumentado todos os anos. E todos têm direito a endireitar a vida.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

António Gamito, novo embaixador de Portugal: "Votar nas comunais já é um passo importante"
Recém-chegado ao Grão-Ducado, mas com muita experiência internacional, António Gamito não considera que o voto nas legislativas para os estrangeiros seja um tema do momento. Quanto à questão da indexação salarial para os funcionários, refere que vai “tentar resolver com Lisboa”. E, além da proximidade que pretende manter com a comunidade portuguesa, vem preparado para reforçar o relacionamento bilateral.