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Tornado. "A vida que tanto lutámos para construir foi-se toda no vento"
Luxemburgo 6 min. 10.08.2019

Tornado. "A vida que tanto lutámos para construir foi-se toda no vento"

O telhado de casa dos Furtado voou e com ele uma vida de trabalho.

Tornado. "A vida que tanto lutámos para construir foi-se toda no vento"

O telhado de casa dos Furtado voou e com ele uma vida de trabalho.
Luxemburgo 6 min. 10.08.2019

Tornado. "A vida que tanto lutámos para construir foi-se toda no vento"

A desolação tomou conta das ruas de Pétange, onde famílias inteiras perderam os frutos de uma vida de trabalho. O partido Conservador, ainda assim, decidiu organizar uma festa no centro da vila.

"Sensual, un movimiento sensual." 

No largo da câmara municipal de Pétange as colunas ecoavam esta tarde batida latina. No centro do passeio um grupo de raparigas dançava uma coreografia ensaiada, mas não se pode dizer que houvesse muito público para assistir ao espetáculo. A tragédia estava ainda fresca.  

"Sexy, un movimiento muy sexy"

O Partido Conservador (déi Konservativ), que há semanas anunciara a festa, decidiu mantê-la. "Os lucros reverterão para as vítimas", esclarecia agora uma das organizadoras, junto à quermesse. Não era uma festa grande - havia uma barraquinha de jogos, duas de venda de antiguidades, outra de comes e bebes - mas não deixava de ser estranho ouvir pum-pum-pum e tanta alegria no preciso lugar onde dezenas de pessoas ficaram ontem feridas ou desalojadas na ventania.

"Ahhhh, bombbbaaa"

Uma bomba, sim. Na rua Neuve, a uma centena de metros de ali, o cenário era o de uma povoação depois de um bombardeamento. Soldados, polícias e bombeiros entravam nos edifícios instáveis e destruíam o que restava dos telhados, para que eles não ameaçassem ruir sobre a população que se juntara nas ruas, em silêncio, a observar a calamidade.

Desde ontem que os trabalhos de limpeza decorrem nas ruas afetadas pelo tornado. A intempérie foi dura numa zona de classes trabalhadoras, com muitos imigrantes.
Desde ontem que os trabalhos de limpeza decorrem nas ruas afetadas pelo tornado. A intempérie foi dura numa zona de classes trabalhadoras, com muitos imigrantes.

O  antigo empedrado, liso e direito, parecia agora tomado pelas toupeiras - não tanto pelos buracos no solo, antes pelas escombreiras que nasciam por toda a parte. Nas paredes, as marcas da violência do vento. Vidros e portadas partidos, buracos abertos pela chapa e telha que se espatifaram contra o cimento. No solo, vários carros destruídos - estavam estacionados, sim, mas é como se te tivessem sofrido uma colisão frontal, em excesso de velocidade, na autoestrada.

A meio da rua, uma bandeira portuguesa ficou presa no que resta do telhado de uma casa onde vivia uma mulher italiana de 93 anos. Rosa de Rossi estava sozinha quando tudo aconteceu, agora está em casa do filho a descansar e, segundo ele, "completamente traumatizada." François e a irmã, Planchette, vieram ver o que restava da casa onde viveram todas as suas vidas. Ele tem 60, ela 54.

"A minha mãe chegou de Itália com duas malas na mão, tudo por que ela lutou desapareceu. A sorte foi ela não estar no jardim, ou num banquinho à porta, como costumava fazer. Está viva, mas toda a vida que construíu foi-se no vento", diz o primogénito. "E agora", pergunta Planchette com os olhos rasos de lágrimas, "como é que se diz a uma mulher de 93 anos que é preciso começar de novo?"

Silêncio e depois um estrondo

Apesar de ser uma das comunas mais pequenas do Luxemburgo, Pétange é o quinto maior município em população, com 18.500 habitantes. Tal como a vizinha Bascharage (10.252 habitantes), também afetada pelo tornado, é uma povoação que se desenvolveu no advento da indústria siderúrgica. 

Nas décadas de 1960 e 1970 fixaram-se aqui muitos grupos de imigrantes para trabalharem nas fábricas de Differdange. Hoje, o Sudoeste do país é uma das zonas mais portuguesas do Luxemburgo, com 20 mil habitantes - um quarto da população total. Mas há também uma grande comunidade italiana e cabo-verdiana, que, com o crise da siderurgia, passou a trabalhar na construção civil ou na restauração.

Os bairros afetados pelo maior tornado de que há registo no Luxemburgo são por isso zonas operárias, das classes trabalhadoras, e muitos imigrantes. O facto de o contrato coletivo de trabalho luxemburguês impor férias no setor da construção durante o mês de agosto só reforça a conversa que Leonel da Costa troca com a plateia que se juntou na esplanada do Chez Paula, um café do centro.

"Estava a maioria da gente de férias. E se calhar foi a melhor coisa que podia ter acontecido, porque se estivesse cá tudo não havia só desalojados e feridos. Também havia mortos. O vento vinha tão forte, tão forte, tão forte que não se ia embora sem levar vidas."

Giovanni Carpini restaura as placas do seu hotel, em que os turistas já cancelaram as visitas. Há impacto económico com este tornado. Mas também há grandes provas de humanidade.
Giovanni Carpini restaura as placas do seu hotel, em que os turistas já cancelaram as visitas. Há impacto económico com este tornado. Mas também há grandes provas de humanidade.

Houve perigo, sim, mas por exemplo os Furtado só se aperceberam dele quando o vento amainou. Elisabete, 47, tinha chegado exausta do trabalho - é funcionária hospitalar e os meses de verão significam o dobro do esforço. Estranhou que o dia se pusesse escuro de repente e, quando tentou abrir a porta de casa para ver o que se passava, não conseguiu empurrá-la.

"O vento era tão forte que eu não tinha forças para abri-la. Mas sabe o que é mais estranho? É que estava tudo em silêncio. Depois ouvi um grande estrondo, deviam ser as chapas dos telhados ou os caixotes do lixo a voar." Chamou os filhos, que estavam no quarto, para junto dela.

"Aquilo não durou mais de dois minutos. Quando acabou, liguei à família para para ver se estava toda a gente bem." Estava. Mas enquanto conversava com o irmão entrou na cozinha - e aí estarreceu. O telhado da casa jazia em escombros no que antes era o seu quintal. Agora, o seu irmão vai inspecionando os destroços e encontrado os pedaços da vida que os Furtado tentaram construir fora de Cabo Verde. Há roupas e móveis e brinquedos no meio do entulho. Uma boa parte da vida daquela família está agora perdida, no meio do pó.

Luz na tempestade

Pelas ruas de Pétange circula agora um assistente social pelo meio dos serviços de Proteção Civil. Fala com cada morador, verifica se alguém precisa de assistência ou casa, quem não tem familiares por perto é alojado num hotel - o primeiro socorro acontece de forma exemplar.

Mas o homem também ouve as preocupações dos que perderam um pedaço de vida no vento: nestas alturas exigem-se-lhe competências de psicólogo. Com tanta construção de edifícios novos no Luxemburgo, que empresas quererão agora dar prioridades a estas casas?

Há 100 famílias desalojadas pelo tornado de 9 de agosto, mas há uma coisa que ninguém se cansa de repetir: ninguém morreu. "Agora temos de juntar a comunidade toda e reconstruir o que houver para reconstruir", diz Paulo Valério, 42. A sua casa perdeu umas telhas, levou uns socos do entulho que andou a voar perdido, mas a sua preocupação agora já não é ele. São os vizinhos.

Paulo mora em Bascharage, mas calhou estar num café em Pétange quando o ar começou a rodopiar. "Corri para dentro do café porque a coisa estava a ficar preta, mas depois vi lá fora uma menina numa bicicleta e tornei a sair. Não tinha mais de oito anos e, se ficasse ali, o vento levava-a.

Paulo Valério correu a esconder-se num café. Quando viu uma criança na rua com uma bicicleta, voltou para a tempestade.
Paulo Valério correu a esconder-se num café. Quando viu uma criança na rua com uma bicicleta, voltou para a tempestade.

Os dias de tragédia estão cheios de histórias assim, gente que se arrisca pelos outros e por uma certa dignidade humana. François e Planchette, por exemplo, ainda não sabem muito bem quem foram os vizinhos que tiraram a mãe nonagenária de casa segundos antes do teto desabar. Só sabem que lhes têm uma dívida eterna.

Giovanni Carpini, o dono de um estabelecimento hoteleiro em Bascharage, viu esta manhã um sinal disso mesmo. Ele é italiano, tem 60 anos e vários restaurantes no Luxemburgo. Aqui tem uma pizaria e também 25 quartos, 15 dos quais ocupados por operários fabris portugueses. "Os outros são para turistas, que vão e vêm para visitar a região."

Quando chegou esta manhã à aldeia, o homem lamentava a pouca sorte. A esplanada voara, a placa com o menu precisava de arranjo, uma dezena de clientes tinham telefonado a cancelar as reservas nos quartos para as férias de verão. "Mas nisto olho e vejo um luxemburguês passar por mim com uma enxada. Era um homem muito velho e movia-se com alguma dificuldade. Quando perguntei onde ia disse-me que ia ajudar alguém que precisasse. E a compaixão daquele velho impressionou-me tanto que eu fiquei ali mudo,  já não consegui dizer mais nada."

Reportagem de Ricardo J. Rodrigues

 

 


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