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Todos os sonhos do mundo

Todos os sonhos do mundo

Cartoon: Florin Balaban/Contacto
Editorial Luxemburgo 2 min. 14.06.2018

Todos os sonhos do mundo

Paulo Jorge PEREIRA
Paulo Jorge PEREIRA
Uma petição sem pés nem cabeça que é rejeitada e a escolha de um português, filho de imigrantes no Grão-Ducado, para representar o Luxemburgo na Bienal de Veneza em 2019 representam motivos de enorme satisfação.

Nem só de erros ou de remédios ’in extremis’, conforme aconteceu no caso da imigrante portuguesa que acabou por não ter de pagar a choruda conta do hospital, se fazem as histórias luxemburguesas com portugueses no meio. Desta vez, em contextos diferentes, Portugal tem razões para uma enorme satisfação em momentos diferentes.

Quando se anuncia que Marco Godinho, filho de imigrantes no Grão-Ducado e com dupla nacionalidade, é o escolhido para representar o Luxemburgo na Bienal de Veneza do próximo ano, isso significa várias coisas. Por um lado, o reconhecimento da qualidade do seu trabalho artístico que, como o próprio afirmou, envolve “uma certa ideia poética e política sobre imigração”. Além disso, escolher alguém nascido em Salvaterra de Magos e que chegou ao Grão-Ducado com nove anos é também uma forma de mostrar como a integração pode, desde que apoiada de forma devida, processar-se da melhor maneira. E, se acaso fosse necessário, uma vez mais se demonstra que, desde que não existam preconceitos, ser filho de uma costureira e de um operário da construção, como de uma médica e de ou engenheiro ou de uma empregada doméstica e de um cozinheiro ou de uma professora e de um fiscalista, deve ser igual para a concessão de oportunidades seja a quem for.

Como na obra que Marco Godinho realizou a propósito do poema “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, aqui se comprova como é possível concretizar um dos versos desse poema: “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”. E, em altura de realização de mais uma edição da Primavera dos Poetas, nada melhor do que ver premiado o trabalho de Marco Godinho, cuja componente poética nunca é esquecida.

Outra boa notícia chegou do Parlamento luxemburguês, que rejeitou uma petição em que se procurava impedir empregadores de exigir a língua portuguesa para um posto de trabalho no país. Os deputados consideraram o óbvio, ou seja, que excluir um idioma era um exemplo de discriminação.

No fundo, a conclusão foi a mesma de muitos portugueses que, ao tomarem conhecimento do teor da petição, se insurgiram nas redes sociais contra a sua eventual aprovação. Como conta a jornalista Paula Telo Alves, os duelos entre petições e contra-petições não são de agora e devem continuar.

Mas talvez fosse interessante perceber uma realidade: ao mesmo tempo que se adotam medidas para a defesa do luxemburguês, era importante entender que o português, um dos idiomas mais falados do mundo e utilizado pela mais numerosa comunidade estrangeira e pelos lusófonos que vivem no Grão-Ducado, também precisa que lhe reconheçam o devido valor no Luxemburgo. E não que o desprezem em entidades de atendimento público, contrariando discursos oficiais dos governantes. Falar é fácil; fazer respeitar aquilo que se diz é bem mais complicado.

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