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"Todos os judeus sabiam que Lisboa era um sítio onde se podia respirar"
Luxemburgo 5 min. 20.02.2020

"Todos os judeus sabiam que Lisboa era um sítio onde se podia respirar"

"Todos os judeus sabiam que Lisboa era um sítio onde se podia respirar"

Foto: Sibila Lind
Luxemburgo 5 min. 20.02.2020

"Todos os judeus sabiam que Lisboa era um sítio onde se podia respirar"

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Em novembro de 1940, três comboios saíram do Luxemburgo em direção a Lisboa. Levavam centenas de refugiados judeus que tentavam a todo o custo escapar da Europa pela capital portuguesa. O último comboio, no entanto, nunca passaria de Vilar Formoso. História de quem teve de voltar para trás.

À medida que o comboio se aproximava de Portugal, Raschel Wolf pensava que afinal talvez a sua família tivesse uma oportunidade. “Todos os judeus sabiam que Lisboa era o primeiro sítio onde se podia respirar e nós não éramos exceção.” Tinham embarcado no Luxemburgo a 7 de novembro de 1940, era a terceira comitiva de refugiados que seguia por ferrovia em direção à capital portuguesa. A bordo seguiam 300 pessoas apertadas e assustadas. Entre eles estavam Raschel, os seus pais, a irmã Lea e dois sobrinhos.

A senhora Wolf tem 98 anos, é luxemburguesa e judia. O pai era um negociante polaco que importava lãs de Inglaterra e vendia-as num armazém no número 71 da rua Fort Neipperg, a mãe uma flamenga de Antuérpia que se tinha mudado para o Grão Ducado aos 13 anos. As duas filhas do casal nasceram no bairro da Gare. Raschel vive hoje em Esch sur Alzette.

O meu pai sentou-se à mesa e disse-nos que era uma questão de tempo até o Luxemburgo ser tomado – e por isso tínhamos de abandonar o país.

Raschel Wolf, luxemburguesa judia.

O comboio onde viajou Raschel Wolf é uma das histórias que marcam a exposição “Portugal e Luxemburgo, países de esperança em tempos difíceis”, que abriu esta semana e está patente até 20 de maio na Abadia de Neimenster. Na inauguração estiveram presentes vários sobreviventes – e também ela.

“Na noite em que Hitler invadiu a Polónia, em 1939, o meu pai sentou-se à mesa e disse-nos que era uma questão de tempo até o Luxemburgo ser tomado – e por isso tínhamos de abandonar o país”, conta agora. Tinha na altura 16 anos, mas há mais de um ano que tinha percebido que o vento do antissemitismo soprava pela Europa. “Ficámos uns tempos na Bélgica mas o objetivo era ir para Inglaterra, onde o meu pai tinha negócios. Mas não nos deixaram entrar.”

Uma história de anos terríveis que ainda tem luxemburgueses vivos que a podem testemunhar. Como Raschel Wolf, à esquerda na fotografia debaixo.
Uma história de anos terríveis que ainda tem luxemburgueses vivos que a podem testemunhar. Como Raschel Wolf, à esquerda na fotografia debaixo.
Foto: Anouk Antony

Esconderam-se em Bruxelas, depois em Ostende, e em maio de 1940 seguiram para França, mas foram detidos pelas autoridades alemães. Os nazis já tinham invadido o Luxemburgo e avançavam então a passos largos para Paris. Os Wolf foram deportados para o Grão Ducado, onde não tinham documentos nem liberdade de movimentos. A casa e a roupa marcada com a estrela de David, a loja fechada para sempre.


Contacto, Panorama, Abtei Neumünster, Ausstellung Portugal und Luxemburg, Grossherzog Henri bestaunte die Ausstellung, Foto : ANOUK ANTONY/LUXEMBURGER WORT
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Apesar da perseguição ser intensa, os campos de extermínio só abririam em 1942. Ainda era possível fugir, mas para fugir era preciso ter papéis. Na Europa assistia-se a uma corrida desenfreada por vistos. Os 10 mil que Aristides de Sousa Mendes assinou em Bordéus foram todos passados num único mês: junho de 1940.

“Em setembro o governador nazi deu ordem de expulsão aos dois mil judeus que viviam no Luxemburgo”, diz Margarida Ramalho, historiadora, diretora do Museu de Vilar Formoso e curadora da exposição. “Dois terços deles eram judeus alemães que tinham fugido da Alemanha nos anos anteriores.” Simcha Medioni, cuja mãe e avó embarcariam no mesmo comboio que Raschel, contou que a sua família empenhou todas as poupanças para subornar o cônsul de Cuba em Antuérpia e conseguir fugir.

“Os dois primeiros comboios de judeus que saíram para Lisboa em Novembro chegaram ao destino sem problemas”, conta Margarida Ramalho. Centenas de judeus vindos do Luxemburgo instalavam-se agora no Estoril, na Praia das Maçãs e nas Caldas da Rainha, à espera dos barcos que os levassem para o outro lado do Atlântico. E não só para os Estados Unidos. A América Latina, o Caribe e até Cabo Verde acolheram vagas inteiras de refugiados.


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No terceiro comboio, no entanto, viajava um enorme problema. “Vários agentes da Gestapo, uniformizados e armados, faziam escolta a essa composição. Quando chegaram a Vilar Formoso, as autoridades portuguesas não os deixaram passar”, diz a curadora da exposição. “Na verdade, não podiam. A entrada de agentes estrangeiros armados punha em causa a neutralidade de Portugal na guerra.”

“Ficámos dez dias na estação de Vilar Formoso”, conta Raschel. “Cada família viajava num compartimento mínimo, era insuportavelmente apertado. Mas só nos deixavam sair dez minutos por dia para o cais, ao início da manhã.” Um dia houve um incêndio numa das carruagens, ateado por uma mãe que tentava aquecer o biberão do seu bebé com um pequeno fogareiro a gás. “Foi um pânico enorme, mas nem nessa altura nos deixaram sair.” Uma passageira chamada Pef Greif não aguenta a pressão e sofre um ataque cardíaco letal.


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Ao mesmo tempo que as tensões entre a PIDE e a Gestapo subiam de tom, os mantimentos que as famílias tinham trazido para Lisboa esgotavam-se. “As pessoas das redondezas tinham pena de nós e traziam-nos pão e café”, conta Raschel abrindo a palma da mão esquerda. “Está a ver este corte? Bem, talvez já não consiga ver por causa das rugas. É a marca de um corte que fiz nesses dias. Havia um rapaz que me vinha entregar o pão pela janela e era sempre eu que o cortava igualmente para todos. Quando espetei a faca, percebi que nunca chegaríamos a Lisboa.”

De facto, dez dias depois de chegar a Vilar Formoso, o comboio faria marcha atrás até Baiona, em França. Muitos dos passageiros rumaram a campos de refugiados, alguns esconderam-se e outros arranjaram maneira de sair. A família Wolf acabaria por arranjar maneira de atravessar França, embarcar para Casablanca e daí tomar o paquete Serpa Pinto até aos Estados Unidos. Raschel viveria em Nova Iorque até ao final da guerra, voltando depois ao Luxemburgo e instalando-se em Esch até hoje.

A mãe e avó de Simcha Medioni, na foto, estiveram escondidas em Marselha, França, durante o extermínio dos judeus pela Alemanha nazi.
A mãe e avó de Simcha Medioni, na foto, estiveram escondidas em Marselha, França, durante o extermínio dos judeus pela Alemanha nazi.
Foto: Sibila Lind

A mãe e avó de Simcha Medioni passariam todo o conflito escondidas numa casa no bairro alemão de Marselha. Outros dois sobreviventes que estiveram na inauguração da exposição na Abadia de Neimenster, Germaine Goldberg e Marcel Solomon, conseguiriam atravessar os Alpes e chegar à Suíça. Uma mulher chamada Erika Thuna seria resgatada com vida em Auschwitz do meio de uma pilha de cadáveres pelos soldados soviéticos. Daqueles 300 passageiros, no entanto, 50 perderiam a vida em campos de concentração nazis. “Uns anos depois da guerra terminar fui a Lisboa e, sabe, tínhamos razão naquela altura”, diz Raschel Wolf. “É um sítio onde se pode respirar.”

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