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Toda a sorte que faltou a João Coimbra
Luxemburgo 3 7 min. 14.10.2019

Toda a sorte que faltou a João Coimbra

Toda a sorte que faltou a João Coimbra

Foto: Tiago Figueiredo
Luxemburgo 3 7 min. 14.10.2019

Toda a sorte que faltou a João Coimbra

No jogo de estreia, a grande promessa do Benfica não chegou a tocar na bola. Quando encontrou espaço no Estoril, lesionou-se e acabou nas ligas inferiores. “Fiquei careca muito cedo, toda a gente achou que eu estava velho antes de tempo.” O rapaz que trocou o curso de medicina pelo futebol joga uma última cartada no Luxemburgo. segunda, 14, estreia o filme "Sonho sem prolongamento - a história de João Coimbra" no site do jornal Contacto.

Reportagem de Ricardo J. Rodrigues e Tiago Figueiredo

Esta história pode começar a 30 de abril de 2006. Foi esse o dia em que João Coimbra se estreou na equipa principal do Benfica. Tinha 19 anos e era o único jogador jovem que o clube via subir ao plantel sénior em anos (o último com aquela idade tinha sido o guarda-redes Moreira, cinco anos antes). O Benfica jogava em casa com o Vitória de Setúbal, era o penúltimo jogo da época e já não havia grandes esperanças de alcançar mais do que o terceiro lugar no campeonato. Aos 89 minutos, o treinador Ronald Koeman chamou-o para render Miccoli. Chegara o seu momento.

Na estreia pelo Benfica, rendendo Miccoli.
Na estreia pelo Benfica, rendendo Miccoli.
Foto: DR

“Todo eu tremia”, conta agora na sua casa, um apartamento numa aldeia francesa às portas do Luxemburgo. O árbitro haveria de conceder quatro minutos de descontos. Na época inaugural pelos séniores, Coimbra não teria mais do que esses cinco minutos de relvado. “Não cheguei a tocar na bola. Quando finalmente me passaram o árbitro apitou para o fim do jogo.” Ri-se da ironia, mas depois reconsidera: “Talvez fosse melhor assim, estava tão nervoso que provavelmente ia dar burrada.” Na época seguinte, faria 17 partidas. Depois seria emprestado e foi aí que as coisas começaram a mudar.

Mas esta história também pode começar a 29 de setembro de 2019, o último domingo. O Mondorf-les-bains recebeu nesse dia o Jeunesse d’Esch em jogo da sétima jornada do campeonato luxemburguês, a BGL. Coimbra partia animado para o jogo, até porque a equipa da casa, onde milita desde a época passada, teve um bom arranque na Liga – três vitórias, dois empates, uma derrota. “Se compararmos com a I Liga, diria que o Mondorf é o equivalente ao Portimonense, um clube de meio da tabela que subiu há meia dúzia de anos e luta pela permanência. Só com uma pequena diferença: aqui o campeonato é amador”.

Daniel Soares, o líder da claque Angry Goats, conta que Coimbra lhe confidenciou que queria marcar um golo hoje, apesar de não ser um artilheiro nato. “É uma grande oportunidade para nos impormos diante de um dos favoritos”, diz o rapaz, “e o Coimbra é o nosso ás de trunfo.” Confidencia que ainda hoje o impressiona ter uma antiga promessa do Benfica no plantel do Mondorf e a sua visão de jogo merecia muito melhor do que BGL. “Francamente não percebo como não tem espaço no principal campeonato português. Mas pronto, sorte a nossa, para mim tê-lo aqui é um sonho realizado. Quando eu era miúdo e jogava Championship Manager [atualmente Football Manager] ia sempre comprar o Coimbra porque era um dos jovens mais promissores e as estatísticas dele subiam à medida que o ia pondo em campo.”

O confronto começa morno, pelo menos até aos últimos minutos da primeira parte. Um pouco contra a corrente, o Jeunesse d’Esch marca à beira do intervalo, de canto. Coimbra entra bravo na segunda parte e, aos 63 minutos, isola-se frente ao guarda-redes adversário. Remata à figura, foi quase. O Mondorf assume o comando e, seis minutos depois, repõe a igualdade. Mas a Jeunesse marca o 2-1 aos 77 minutos graças a uma falha defensiva do Mondorf.

Está um jogo aberto e Coimbra a tentar assistências atrás de assistências. Seis minutos depois há empate com um autogolo do clube de Esch-sur-Alzette. As contas parecem arrumadas quando um novo canto estabelece o 3-2 para a equipa visitante aos 89 minutos. Quando árbitro apita para o fim da partida, Coimbra está inconsolável. “Perder assim é uma frustração. Nós a jogarmos e eles a marcarem. Estivemos quase”, diz abanando a cabeça.

Aquele primeiro jogo pelo Benfica e esta última partida pelo Mondorf são na verdade duas faces da mesma moeda. Ambos mostram tudo o que podia ter acontecido mas nunca aconteceu. Quando, aos 19 anos, João Coimbra chegou ao topo do futebol português, tudo parecia indicar que o futebol nacional ia ganhar uma nova estrela. Quando, aos 33, imprimiu uma profissionalíssima garra a um jogo de futebol de um campeonato amador, todos os sinais pareciam apontar uma vitória robusta. Só que não.


Vídeo. O sonho sem prolongamento - a história de João Coimbra
Foi uma grande promessa do Benfica. O azar do João foi ter nascido dez anos mais cedo do que merecia. Naquela altura ninguém estava preparado para acarinhar um jovem atirado às feras numa arena impaciente com os sucessivos desaires da sua equipa.

Se tivesse nascido dez anos depois a sorte seria outra”

Casa-trabalho-treino. É a primeira vez na carreira que João Coimbra soma um emprego ao futebol para conseguir pagar as contas. Trabalha na Ortopedia Felden, onde recebe e cataloga encomendas, próteses e meias de compressão, além de atender o público. “Foi o diretor desportivo do Mondorf, dono destas lojas, que me arranjou este emprego.” No futebol luxemburguês os salários são baixos e é frequente os clubes arranjarem trabalho aos jogadores. “Mas claro que este modelo tem um preço. Todos os dias há alguém que chega atrasado, ou que chega estoirado, ou que falha o treino. O futebol luxemburguês está a crescer, mas precisa de profissionalizar-se.”

Carla, a sua mulher, está grávida do terceiro filho. Agora meteu baixa, mas assim que chegou ao Luxemburgo começou a fazer limpezas. “Do trabalho nunca tive medo”, diz ela. “Mas sei que para ele isto é duro. Acorda às seis da manhã e só regressa a casa às nove da noite.” Dias antes, durante a viagem entre a capital e o campo de treinos do Mondorf, o jogador haveria de confessar que o futuro o preocupa. “Por mim jogava mais quatro ou cinco anos mas sei que as coisas não são assim. E sei que tenho de planear o que vai acontecer quando isto acabar. A verdade é que, aos 19 anos, quando jogava na equipa principal do Benfica, ganhava mais do que eu e a minha mulher hoje juntos.”

Casa-trabalho-treinos. É a primeira vez que João Coimbra cumpre outra atividade além do futebol.
Casa-trabalho-treinos. É a primeira vez que João Coimbra cumpre outra atividade além do futebol.
Foto: Tiago Figueiredo

Era miúdo mas tinha algum tino – a sua história não é por isso a do costume, a de alguém que ganhou tudo e depois esbanjou tudo. “Eu atingi o meu sonho de miúdo, que era jogar pelo Benfica. O que não consegui foi manter-me lá. Culpo-me a mim próprio por isso, mas também sinto que, se tivesse nascido dez anos depois, a sorte seria outra.” Hoje, vê os clubes apostarem como nunca nos jogadores jovens. “Há por exemplo psicólogos que os ajudam a crescer e a aguentar a pressão. Na minha altura havia dois psicólogos no Benfica, sim, mas apesar de eu ser o novo miúdo no palco dos crescidos, nunca falaram comigo.”

Quando jogava na Luz, chamavam-lhe Doutor. Tinha sido capitão da seleção que ganhara o Europeu de sub-17 e com isso ganhou o estatuto de atleta de alta competição. “Eu era bom aluno e tinha média 17, por isso candidatei-me a Medicina e entrei. Queria seguir fisioterapia.” Completou três anos de curso, já se esqueceu da maioria das coisas que aprendeu. “Continuo a pagar as propinas mas sei que vai ser difícil voltar às aulas com três crianças para alimentar. Desisti porque preferi o futebol à Medicina. Sempre tinha sido o meu sonho. E, mesmo que nem tudo corresse como eu queria, não me arrependo de ir atrás daquilo que gostava.”

Coimbra trabalha na Ortopedia felden, no centro da capital luxemburguesa.
Coimbra trabalha na Ortopedia felden, no centro da capital luxemburguesa.

Depois de duas épocas na equipa principal das águias foi emprestado ao Nacional da Madeira, mas deu-se mal com o treinador. Na época seguinte saiu para o Marítimo e acabou vendido ao Estoril, que então militava na II Divisão. “Subimos e eu senti que agora é que era, tinha uma nova oportunidade. Só que depois lesionei-me no joelho e tive de parar. Quando regressei, tive uma recaída e fui operado.” Aqueles cinco anos nos canarinhos, ainda assim, trazem-lhe memórias felizes. A época de 2014/15 fê-la na Académica de Viseu, da II Liga. “Não era o que queria mas pelo menos jogava.”

No início da temporada seguinte, Coimbra viu-se sem propostas e embarcou para o estrangeiro. Esteve uma parte da época no Rapid de Bucareste, da Roménia, e outra no Kerala Blasters, da Índia. “Hoje penso que esse foi um enorme erro. Os jogadores europeus só costumam ir para os campeonatos asiáticos no fim da carreira e eu tinha 29 anos. Mas, como fiquei careca muito cedo, toda a gente achou que eu estava velho antes de tempo.”

No balneário do Mondorf, antes do jogo com a Jeunesse d'Esch
No balneário do Mondorf, antes do jogo com a Jeunesse d'Esch
Foto. Tiago Figueiredo

O regresso revelar-se-ia por isso complicado. Coimbra, a promessa benfiquista, não arranjou posto senão no Campeonato Nacional de Séniores, primeiro na União de Leiria, depois no Trofense. Era um profissional entre amadores. “Não tenho vergonha, porque jogava e isso era tudo o que eu queria.” Daí apareceu o convite para o Mondorf-les-bains, em 2018/19. O convite trazia emprego associado e, aqui, podia pelo menos continuar a cumprir a paixão. “Tenho saudades de casa, por isso não sei quanto tempo vou ficar aqui. Só sei que o futuro passa por Portugal.” No futebol? “Eu gostava. Mas a vida já me ensinou a não fazer demasiados planos.”

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