Escolha as suas informações

Thierno Diallo. Apostar na grande região para combater o desemprego
Luxemburgo 3 4 min. 01.01.2021

Thierno Diallo. Apostar na grande região para combater o desemprego

Thierno Diallo. Apostar na grande região para combater o desemprego

Foto: António Pires
Luxemburgo 3 4 min. 01.01.2021

Thierno Diallo. Apostar na grande região para combater o desemprego

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Desde pequeno que a família o ensinou a partilhar a riqueza. Aposta no empreendedorismo social para combater a crise. Estudou na Mauritânia e França e apaixonou-se pelo Luxemburgo.

Descobriu o Grão-Ducado em 2003 e foi uma paixão à primeira vista, em 2004 já estava a viver cá. Para trás ficaram a infância e os estudos na Mauritânia e a continuação da sua formação em França.

“Em 2001 fui tirar o master de empreendedorismo em Metz. Estive dois anos sem visitar o Gão-Ducado. Amigos meus vinham cá de férias, mas eu nunca cá vim. Quando em 2003 vim pela primeira vez, fiquei encantando era calmo, bonito. E pensei: ’é o sítio onde quero viver’. A minha integração foi muito fácil. Estudei em França, em boas universidades, mas nunca pensei viver lá. Queria voltar para a Mauritânia e o Luxemburgo fez-me ficar na Europa.”

Afirma que nunca sentiu o racismo entre os seus pares. Sempre se esforçou para se integrar nos países em que vivia. “Logo que cheguei a França em 2000, procurei logo ter amigos franceses. Mas na rua, as experiências pouco agradáveis, com gente ignorante, acontecem em todo o lado.”

Thierno Dialó tem várias licenciaturas, mestrados e pós-graduações. Tirou a licenciatura em Economia na Mauritânia e depois foi estudar para Universidade de Paris X, Nanterre, Economia Política. A Economia não foi a sua primeira paixão.

“Inicialmente quis estudar agronomia, seguir as pisadas do meu pai, mas esta escolha foi pouco a pouco, apesar o meu pai ser engenheiro agrónomo, sempre se interessou por empresas, tinha uma mercearia solidária, para vender bens de primeira necessidade a populações rurais mais necessitadas. No meu país há um enorme desemprego entre os jovens, por isso, pensei ir para economia de modo a poder incutir algum espírito empreendor às pessoas da minha geração de forma a que criem o próprio emprego.

Apesar de ser socialista não considera que há uma contradição entre o seu discurso do empreendorismo como solução e as suas convicções políticas. “A economia deve estar ao serviço das pessoas e não as pessoas serem escravas da economia. O presente está a dar-me razão, hoje fala-se muito mais de uma economia social e sustentável que no tempo em que eu comecei a estudar.”

Garante que essas preocupações sociais sempre nortearam a sua vida e os seus estudos. “Venho de uma grande família, somos 15 irmãos, mais os meios irmãos. Vivia numa grande casa, onde muitas das crianças que vinham o estudar no liceu e que não tinham família na cidade, iam viver connosco. Partilhávamos comida e espaço. A ideia de partilha era natural. Na Universidade de Economia , onde fui presidente da Associação de Estudantes, ajudávamos os estudantes mais desfavorecidos e fazíamos ações sociais. Em França, a minha primeira adesão foi à União dos Estudantes Comunistas. Mas quando deixei Paris para Metz, numa pós-graduação muito profissional e intensa, deixei de ter tempo para a política. Tinha que trabalhar para pagar os estudos.” Mas no Grão-Ducado voltou a ter tempo para uma intervenção cidadã. “Um dia encontrei o Sosthène Lembella, o atual presidente do CLAE, que me convidou para um grupo de trabalho para discutir questões de imigração ligado ao LSAP, SPIC (Socialistas Para a Integração e a Cidadania)”.

Vê o próximo ano com apreensão. Sublinha que o Luxemburgo não é uma ilha, e que se devia apostar num trabalho a nível da grande região, envolvendo o Grão-Ducado, França, Bélgica e Alemanha.

“A serenidade e a paz social vão levar um golpe, porque não vivemos isolados e se a crise vai atingir fortemente os países vizinhos, também acabará por nos afetar. O desespero social, o desemprego e o crescimento da pobreza vão dar um sério golpe em muitos países e por contágio ao Grão-Ducado.”

São necessárias medidas. “É preciso uma concertação maior da grande região, para se poder traçar estratégias comuns de combate ao desemprego e outros. O problema de habitação vai agravar-se, é estrutural. Não é só um problema dos estrangeiros, afeta mesmo as famílias luxemburguesas. Com muita gente a vir para o país, um número que deve aumentar com a crise nos outros países, o número de casas construidas anualmente é muito insuficiente. Esta situação exige uma concertação e planificação de trabalho, habitação e transportes ao nível da grande região.”

Considera que o aumento do desemprego não vai ser igual em todos os setores. “A maioria dos luxemburgueses trabalha num setor defendido, a Função Pública, e outro setor relativamente defendido, é o setor financeiro, se não houver crise financeira apenas será marginalmente afetado pela digitalização. Mas há outros setores, como o comércio e muitas empresas privadas que podem ser abaladas pela crise e fazer crescer bastante o desemprego.”

“Mesmo no Luxemburgo esta crise pode colocar em causa a paz social e precarizar a vida da parte imigrante da população e a parte daqueles que são transfronteiriços. E também se vai agravar a situação nos países em vias de desenvolvimento, em que a covid-19 vai demorar mais tempo a ser tratada, aumentando assim a pressão migratória para a Europa. Deve haver um esforço de criação de emprego concertado e de se conseguir investir em grandes trabalhos: na construção e renovação de infra-estruturas, ambiente etc... que permitam combater o desemprego”, defende.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Há milhares de portugueses que trabalham no Luxemburgo com contratos temporários na construção civil - a maioria vive do lado francês da fronteira. Quando a pandemia chegou, centenas viram-se de um dia para o outro sem emprego nem qualquer tipo de apoio. Muitos furaram o confinamento e voltaram a Portugal. Esta é história dos que ficaram e tentam aguentar.