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Testemunho. “Desde quando é que deixamos um negro ir para o ensino clássico?”
Luxemburgo 6 min. 21.11.2019 Do nosso arquivo online

Testemunho. “Desde quando é que deixamos um negro ir para o ensino clássico?”

Testemunho. “Desde quando é que deixamos um negro ir para o ensino clássico?”

Foto: Sibila Lind
Luxemburgo 6 min. 21.11.2019 Do nosso arquivo online

Testemunho. “Desde quando é que deixamos um negro ir para o ensino clássico?”

Sibila LIND
Sibila LIND
Desde pequena que Mirlene Fonseca Monteiro se começou a questionar se ser negra era um problema. Na primária, as crianças gozavam com a sua cor de pele e, nos últimos anos do ensino clássico, era a única negra na turma. Agora, está a desenvolver uma tese de mestrado sobre a comunidade cabo-verdiana do Luxemburgo.

“Desde quando é que deixamos um negro ir para o ensino clássico?”. Quando Mirlene leu a frase diante da plateia ouviu-se um coro de espanto. Foi uma das intervenientes do debate "Being Black in Luxembourg" - "Ser Negro no Luxemburgo", que decorreu na passada quarta-feira no Cercle Cité, na capital do Luxemburgo.

Aquelas palavras ficaram suspensas no meio da sala onde cerca de 170 pessoas escutavam atentamente os testemunhos recolhidos pela jovem luxemburguesa de 25 anos, filha de imigrantes cabo-verdianos, para a sua tese de mestrado. Um dos testemunhos que Mirlene apresentou durante o debate era o de uma jovem negra, de 24 anos, que quando estava na primária teve uma professora a incentivá-la a seguir o ensino clássico e outra que se manifestou contra essa decisão.


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"Eu tive medo de ir para o clássico. Não queria", confessa Mirlene, sentada numa mesa de café, no dia a seguir ao debate. "Porque só os mais inteligentes, os melhores, é que iam para lá. E eu tinha medo de não ser boa o suficente". Foi uma professora que insistiu com a sua mãe e que incentivou Mirlene a seguir a via mais vocacionada para quem quer ir para a universidade. "A professora sabia que eu tinha dificuldades com o alemão e disse-me: 'Se tens medo porque vais ter problemas com o alemão, há aulas extra que podes fazer. Mas vais para o clássico'".

Eu tive medo de ir para o clássico. Porque só os mais inteligentes, os melhores, é que iam para lá. E eu tinha medo de não ser boa o suficente.

No início do liceu, Mirlene tinha apenas uma colega negra na turma, mas a poucos anos de terminar o liceu era a única. Na entrega do diploma só havia uma família negra: a sua. Mirlene diz ter tido sorte com os professores, que sempre a apoiaram, excluíndo um que "não gostava de estrangeiros". "Quando uma colega portuguesa reclamou com o professor da nota que ele lhe deu numa composição, ele virou-se para ela e disse: 'Se não estás contente, vai ter com os teus amigos ao ensino modelar e aprende a cozinhar'. Isso passou-se com a minha colega. Mas eu também sentia que a forma como ele falava comigo era diferente da forma como falava com os alunos luxemburgueses", explica Mirlene.


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Diz que o papel do professor na vida dos alunos é muito importante, pois uma criança interioriza tudo o que lhe dizem, seja de uma figura modelo como dos colegas à sua volta. "Na primária, um rapaz dizia-me muitas vezes: 'Tu és da cor do cócó'. E isso marcou-me. Fez-me sentir que a minha cor incomodava os outros e que não era bom ser negro", conta. "E a verdade é que não é preciso ouvir esse comentário muitas vezes. Uma vez é suficiente para uma pessoa se questionar se é um problema ser negro".

Foto: Sibila Lind

Uma pessoa negra também pode ser luxemburguesa

"Quando somos cabo-verdianos no Luxemburgo podemos encontrar dificuldades ou passar por situações desagradáveis", diz Mirlene. "E isso pode influenciar a nossa vida". A escola é um dos lugares onde os negros começam a ser alvo de discriminação, mas é apenas o princípio. Mesmo na procura de casa ou trabalho, o racismo acontece. "Os cabo-verdianos acham que não têm espaço no Estado. Já me disseram muitas vezes: 'Não é normal um negro trabalhar para o Estado'. E eu cresci com essa ideia, que me foi dita tanto por pessoas brancas como pessoas negras. E isso é que é assustador. Porque começamos a acreditar realmente na ideia de que não podemos trabalhar para o Estado. Mas claro que podemos, temos é de fazer por isso. Até se tornar normal".

A geração dos meus pais e as anteriores contribuíram para que o Luxemburgo fosse aquilo que é agora. Custa-me mais quando alguém trata os meus pais como forasteiros do que quando me tratam a mim.

A cor da pele é determinante na procura de emprego e de habitação, e os números não deixam margem para dúvidas. A exclusão é constante, todos os dias as pessoas negras são confrontadas com o facto de não pertencerem à comunidade luxemburguesa. "Lembro-me der ser pequena e de estar com a minha mãe na comuna e ela começar a discutir com uma senhora. No final, a minha mãe tirou o cartão de identidade e mostrou. E depois ficou tudo calmo. A senhora achava que a minha mãe não tinha documentos", explica Mirlene. "A geração dos meus pais e as anteriores contribuíram para que o Luxemburgo fosse aquilo que é agora. Custa-me mais quando alguém trata os meus pais como forasteiros do que quando me tratam a mim."

Quase todos os dias lhe põem em causa a capacidade de dominar todas as línguas oficiais do país. "Ainda há dias aconteceu com a senhora da caixa de uma padaria. Admirou-se por eu falar luxemburguês. E isso acontece o tempo todo. O tempo todo", exaspera. "Temos de guardar as nossas raízes, mas não temos de escolher entre ser uma coisa ou outra. Somos luxemburgueses e cabo-verdianos, e isso é fixe, porque somos uma só pessoa mas que representa várias coisas".


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Marie Dasylva nasceu em Paris, filha de imigrantes guineenses. Desde pequena que foi olhada de forma diferente por ser negra. Em 2017, Marie criou a sua própria agência – Nkali Works – para ajudar mulheres que são vítimas de assédio e discriminação. No sábado, a consultora pessoal veio ao Luxemburgo para dar um workshop sobre como lidar com comportamentos racistas e sexismo no trabalho.

Mirlene está no segundo ano do mestrado em Engenharia e Ações Sociais, em Bruxelas, e deverá terminar a tese em junho. Já fez 22 entrevistas a filhos de imigrantes cabo-verdianos que nasceram no Luxemburgo. Depois de recolhidos os testemunhos, vai agora fazer uma pesquisa para saber o que existe no Luxemburgo, a nível de associações e projetos que atuem contra a discriminação racial e que contribuam para o "bem-estar da sociedade". Já deu um passo nesse sentido, sendo uma das quatro mulheres cabo-verdianas a fundar, em setembro deste ano, o coletivo Finkapé, que se vai focar "na presença de uma população de origem africana na sociedade luxemburguesa".

Temos de guardar as nossas raízes, mas não temos de escolher entre ser uma coisa ou outra. Somos luxemburgueses e cabo-verdianos, e isso é fixe, porque somos uma só pessoa mas que representa várias coisas.

"Todos sabemos que é uma grande oportunidade viver no Luxemburgo e reconhecemos isso. Mas é preciso é que o país evolua a nível da mentalidade, para que todos se possam sentir luxemburgueses. A comunicação é o pior problema", diz Mirlene. "Não podemos esquecer a história do Luxemburgo. Os negros nem sempre estiveram aqui. O Luxemburgo pertenceu a França, à Bélgica, e agora que é independente, tem medo de perder aquilo pelo qual lutou, a sua identidade, a sua cultura. E é aí que é preciso comunicar. Para dizer: 'Não, a identidade luxemburguesa não vai desaparecer. Nós queremos que ela subsista. Mas para isso temos de fazê-lo juntos'". 


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