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Tesourada na pandemia

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Tesourada na pandemia

Tesourada na pandemia

Tesourada na pandemia


por Catarina OSÓRIO/ 31.03.2021

Foto: António Pires

São mulheres e homens portugueses e uma franco-italiana. A pandemia tirou-lhes os clientes e pintou-lhes os dias com uma cor mais escura. Eles e elas, cada um à sua maneira, deram-lhe a volta porque "é preciso aprender a viver com o vírus".

A quarta-feira segue normal no salão de Catherine D., em Gasperich, na capital. Há 12 anos que esta francesa gere o cabeleireiro situado no número 205 da route d’Esch. Com três empregados – dois deles portugueses – Catherine Tardelli – já viu anos melhores, mas não se resigna. "Esta semana está ok. A semana passada foi mais calma". O negócio está mais incerto, cada vez mais ditado pelas previsões, desta vez as pandémicas. "Se os casos aumentam temos menos clientes, se diminuem temos mais gente a vir".

Outro fator a pesar é a vida social em suspenso. "Os clientes agora têm medo e se tudo está fechado, não podem ir aos cafés, não podem passar o fim de semana em família para quê ir ao cabeleireiro regularmente?", refere Graça da Silva, empresária portuguesa e cabeleireira no Luxemburgo há mais de 40 anos. "Tinha clientes que vinham duas vezes por semana, agora só vêm uma vez por mês", exemplifica a dona do "LPO Coiffure" na capital, que existe desde 2008.

Ainda que tenha beneficiado de alguma clientela dos países vizinhos – que mantiveram até à pouco tempo cabeleireiros e salões de estética encerrados – Catherine quantifica uma quebra de clientes na ordem dos 15% ao mês. Mas o fluxo varia a par com os hábitos dos clientes que se alteraram por culpa da pandemia. "Há menos gente a vir à hora do almoço porque muitos deles já não estão no escritório", nota. Ou quem não venha de forma tão frequente na preguiça de "estar em casa em calças de fato de treino sem necessidade de se arranjar tanto".

Com a pandemia o salão da cabeleireira francesa, em Gasperich, teve de ser redesenhado: acrílicos entre as bancas para lavar a cabeça, menos cadeiras para sentar os clientes, sinalética no chão para evitar que as pessoas se cruzem, e "tudo desinfetado" sempre que um cliente sai. Clientes só podem estar quatro no máximo ao mesmo tempo, de acordo com as regras governamentais. 

E gel, muito gel desinfetante. Tudo isto sem um aumento dos preços de tabela. Apenas a 'taxa covid-19' de 2,60€ para compensar estes gastos. Catherine D. pode considerar-se uma sortuda. Não precisou de manter nenhum dos colaboradores no desemprego parcial quando os negócios voltaram a abrir em junho de 2020 e após o segundo confinamento em janeiro. Conseguiu encaixar algumas ajudas estatais para compensar os encerramentos forçados, o primeiro entre março e junho de 2020 e o segundo entre dezembro e janeiro de 2021. E conseguiu até lugar para mais um trabalhador: o luso-luxemburguês Dany Martins que está a fazer o apprentissage

O jovem de 17 anos começou a 8 de dezembro e ficará por mais três anos a aprofundar a arte dos cabelos no salão, um estágio obrigatório para quem quer ingressar no mercado de trabalho no setor. Contrariamente a vários colegas, que viram os estágios profissionais adiados ou cancelados devido à pandemia, alerta que chegou a ser dado pela Agência Nacional para a Informação dos Jovens (ANJI), com Dany tudo correu como planeado. Apesar de nem sempre ter contado com o apoio dos pais na escolha da profissão, atirou-se de corpo e alma ao apprentissage, esperando explorar as áreas onde se sente mais confortável. "Quando era pequeno queria ser tatuador, mas aqui no Luxemburgo não é bem uma profissão, é mais um hobby, então escolhi ser cabeleireiro porque era outra área que me interessava muito", conta. Lazer, por enquanto só mesmo na Internet, entre copos virtuais com amigos no Zoom e chamadas telefónicas.

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Vontade de assentar em Portugal
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Juntamente com Dany Martins, Christel Henriques, nascida no Luxemburgo de pais portugueses, formam o 'núcleo português' do salão de Catherine D. A jovem de 37 anos trabalha desde 2009 como cabeleireira neste estabelecimento. Apesar de gostar do que faz, refere que se há coisa que a pandemia reforçou foi o "sonho" de um dia mudar-se de armas e bagagens para Portugal.

Filha de emigrantes da primeira vaga, também eles ainda a viver no Luxemburgo, apesar de Portugal não ser frequentemente tema de conversa à mesa, esta "portuguesa pura2 – como faz questão de referir – diz que um dia vai voltar definitivamente a Peniche, onde todos os anos em agosto se deliciava com a comida, o sol e mar. "Vou voltar para aquilo que é meu", diz entre um largo sorriso. 

O aumento do custo de vida no Luxemburgo, os preços elevados das casas dão alento à ideia e Christel, bem como a liberdade das crianças. "Aqui as crianças não brincam na rua tal como nas aldeias portuguesas", nota. O ano passado a pandemia trocou as voltas à cabeleireira portuguesa. "Não fomos porque tinha medo", sobretudo pela filha com um ano e meio na altura. Este ano ninguém lhe tirará o agosto no mar de Peniche. "Nem que vá a pé".

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"Tive de vender o meu salão em Esch"
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Graça da Silva, também cabeleireira no Grão-Ducado, não teve a mesma sorte de Catherine. Com dois salões abertos no início da pandemia, um na capital e o outro em Esch-sur-Alzette, poucos meses após o início do desconfinamento no país, a empresária viu-se obrigada a vender um dos espaços. O de Esch, "que até tinha mais clientela". Apesar dos apoios estatais e do regime de desemprego parcial, o negócio não resistiu e fechou portas a 11 de janeiro. "Foi uma catástrofe. Nos primeiros dias [após o primeiro desconfinamento] foi uma enchente, chegávamos a trabalhar dez horas por dia. Depois foi sempre a diminuir, de tal forma que ao fim de quatro meses tinha uma descida de 60% na faturação", descreve. A venda – com a qual perdeu "muito dinheiro"– foi um mal necessário que a obrigou a repensar os 43 anos de carreira dedicados aos cabelos. "Com as coisas a acalmar decidi que era altura de pedir a pré-reforma", conta.

Depois de 43 anos dedicados por inteiro aos cabelos, empresária decidiu entrar na pré-reforma.
Depois de 43 anos dedicados por inteiro aos cabelos, empresária decidiu entrar na pré-reforma.
Foto: António Pires

Apesar de lamentar a perda de emprego dos quatro funcionários do salão de Esch, considera que a pandemia foi um mal necessário para reorganizar as finanças, abrandar o ritmo e cuidar mais de si própria. Mas as tesouras não as guarda para já. A pré-reforma permite-lhe dedicar dez horas por semana no máximo aos seus clientes, algo que quer continuar a fazer.


Com 9 anos "vim para o Luxemburgo a pé". A vida que cabe num corte de cabelo
Em 1971 partiu de Portugal para o Luxemburgo a pé em busca do pai. De Paris seguiu de táxi para o "novo mundo". Graça da Silva acabou por ficar até hoje no Grão-Ducado onde foi construindo e reconstruindo uma carreira e uma vida, sempre ligadas aos cabelos.

De três salões dos quais já foi proprietária, resta agora o da capital, na rue Chimay, gerido pelo seu braço-direito de há anos. Mesmo gozando de uma localização privilegiada – em pleno centro histórico – o "LPO Coiffure" é um reflexo de uma capital pós-pandemia, sem gente e mais tristonha. Até quando? Graça da Silva acredita que "nada será como dantes".

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Sem emprego e sem subsídio durante quatro meses
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A pandemia também foi amarga para Bruno Severino, de 33 anos. O barbeiro português, imigrante no Grão-Ducado há 12 anos, perdeu o emprego em plena crise da covid-19. O salão onde trabalhava, na Gare, o "Barber Shop" não resistiu à quebra de 50%, sobretudo na "clientela de escritório" que começou a estar em teletrabalho. "Pagávamos 9 mil euros de aluguer, era um bom salão, com bar e bilhar", descreve. O patrão, também português, "teve de ir para Portugal2 conta Bruno. "Não teve direito ao subsídio de desemprego porque era independente e com uma renda de casa de 1.500 euros" tornou a estadia no Grão-Ducado impossível. 

A contar com o patrão, seis pessoas no total ficaram sem emprego com o encerramento do "Barber Shop", a 29 de outubro, data retida na memória de Bruno Severino. Mas, tal como para o patrão, o português, que trabalhava na barbearia na Gare há quatro anos e meio, também não teve vida fácil. O processo de insolvência da barbearia só estaria resolvido meses depois, o que atrasou a atribuição dos subsídios de desemprego parcial. 

Mas o barbeiro e a família conseguiram "viver à justa" durante quatro meses, "de outubro a janeiro" sem salários. Dinheiro que só caiu na conta em fevereiro deste ano. "Nunca podemos estar na cave em caso de emergência, foi assim que fui ensinado", refere. E numa altura em que as histórias da falhanços são mais usuais do que os sucessos, o português de Almada prepara-se para criar o seu próprio projeto profissional. "Felizmente para mim, infelizmente para outros, estou à procura de um espaço para abrir um salão na Gare", conta sem hesitações.

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"É preciso aprender a viver com o vírus"
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Com uma percentagem de vacinação ainda baixa e a ameaça das novas variantes no Luxemburgo, Catherine, a proprietária do salão em Gasperich, mentalizou-se que 2021 poderá não ser muito diferente de 2020. Mas não é tempo de lamurias. "É preciso aprender a viver com o vírus. É preciso ser prudente mas não ter medo", considera a empresária. Para os cabeleireiros, tal como em todos os negócios, "é preciso trabalhar e adaptar-se a esta nova realidade".

Diferente dos restaurantes que puderam adaptar-se ao takeaway, Catherine considera que a mais valia dos cabeleireiros será sempre a de "proporcionar um espaço de relaxamento, de pausa e de bem-estar" fora do conforto dos lares, que se tornaram mais atrativos para muitos na pandemia. Um estado de espírito procurado pelos clientes "cada vez mais saturados" da situação atual. A empresária espera que a abertura dos restaurantes e cafés traga mais clientes ao cabeleireiro, ansiosos de mais encontros sociais. Aliados à aguardada diminuição do teletrabalho, são pequenos fatores que, todos juntos, vão trazer mais vida, barulho dos secadores e cheiro a laca aos cabeleireiros do Luxemburgo. 

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