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Tempestade perfeita
Editorial Luxemburgo 2 min. 30.10.2019

Tempestade perfeita

Tempestade perfeita

Foto: AFP
Editorial Luxemburgo 2 min. 30.10.2019

Tempestade perfeita

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
As mudanças constroem-se na explosão, e decidem a sua direção no meio do clamor. Este confronto é o campo da luta política. O extraordinário que poderá acontecer está a nascer. E nada garante que seja bom. Está em disputa.

O recentemente falecido crítico Harold Bloom, autor do reputado “Cânone Ocidental”, defendia que os clássicos são uma espécie de linguagem comum que nos permite entender e comunicar, tendo um papel semelhante à matemática nas ciências ditas naturais. Estes livros extraordinários forneciam uma espécie de código para entender o humano. Por isso, o crítico tinha colocado a si próprio o desafio de perceber se há razões que explicam o aparecimento de pessoas que fazem essas obras geniais.

 A intenção desta espécie de anatomia do génio está clara nas palavras do autor: “Chamamos-lhe ‘apaixonar-se’. O próprio verbo deve ser considerado uma advertência. Encontrar o extraordinário num livro – quer seja a Bíblia, quer em Platão, em Shakespeare, em Dante ou em Proust – é um benefício quase sem custos. O génio na sua expressão escrita é o verdadeiro uso da literatura para a vida.” 

Bloom nega que o génio seja expressão do espírito de uma época e que estas condições de transcendência estejam encerradas nas grilhetas de uma qualquer relação social. Para ele, o génio não se explica no corrente mas na possibilidade de atingir o excepcional. 

 De alguma forma tudo o que é um procedimento de verdade, citando o conhecido filósofo francês Alain Badiou, seja na política, no amor, na ciência ou na arte, são irredutíveis às explicações; ou, melhor dizendo, não se explicam os acontecimentos extraordinários pelas condições sociais em que surgiram. 

 A onda de revoltas que sacode o mundo, e sobretudo, por enquanto, os países da América Latina mostra muitas coisas, mas não permite prever um desfecho. É óbvioque o crescimento das desigualdades no mundo, a partir do final dos anos 80 do século passado, socavou os alicerces da democracia e das suas formas de legitimação. Há uma evidente crise da política pela sua incapacidade de resolver o facto da riqueza crescer ao ritmo do aumento das desigualdades sociais. 

 O processo de globalização económica e de financeirização da economia levou a uma destruição de grande parte dos laços sociais existentes e da pouca rede que segurava a maior parte dos cidadãos do mundo de uma qualquer contigência. Por isso as revoltas tornaram-se mais violentas e aparentemente menos ligadas a qualquer programa político alternativo. 

 O facto de não conhecermos o resultado da tempestade perfeita de revoltas globais, que a exemplo dos anos de 1968, e 1848, parece poder vir a cobrir o planeta, não significa que não haja várias mudanças potenciais possíveis neste clamor. Mas as mudanças constroem-se na explosão, e decidem a sua direção no meio do clamor. Este confronto é o campo da luta política. O extraordinário que poderá acontecer está a nascer. E nada garante que seja bom. Está em disputa. 

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