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"Tem de haver incentivo económico para as pessoas partilharem o automóvel"
Luxemburgo 7 min. 16.01.2020

"Tem de haver incentivo económico para as pessoas partilharem o automóvel"

"Tem de haver incentivo económico para as pessoas partilharem o automóvel"

Luxemburgo 7 min. 16.01.2020

"Tem de haver incentivo económico para as pessoas partilharem o automóvel"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Em entrevista ao Contacto o economista Vicent Hein, da Funcação Idea, explica como pode o governo convencer os trabalhadores a adotarem o 'carpooling', no percurso casa-trabalho. Não é fácil adotar a prática, mas diminuiria as filas de trânsito.

O economista Vicent Hein domina como poucos a temática do 'carpooling', ou a partilha de viaturas, que o governo luxemburguês quer promover entre os trabalhadores transfronteiriços e residentes. Esta é uma das medidas para combater o trânsito intenso nas horas de ponta no país, e diminuir as emissões de CO2.

O objetivo do 'carpooling' é reduzir o número de viaturas nas estradas, sobretudo aquelas em que o condutor é o único passageiro. De acordo com as estimativas feitas por Vicent Hein, da Fundação Ideia, se o crescimento se mantiver como o de 2017, com um aumento de 20%, em 2025, haverá 73 mil trabalhadores 'autosolistas', ou seja, que viajam sozinhos. Destes, o governo quer transformar 34 mil em passageiros de 'carpooling', estima este economista autor do artigo 'Mobilité durable : convertir 73.000 salariés 'autosolistes' avant 2025?'.

Contudo, não é fácil convencer os automobilistas habituados a viajar sozinhos no percurso entre casa e trabalho a partilharem o seu veículo com outros com percursos próximos, ou a deixarem o seu veículo em casa e irem de boleia. Em entrevista ao Contacto, o economista Vicent Hein explica como o executivo deve promover o 'carpooling' entre os transfronteiriços e os residentes, devendo pensar até em incentivos económicos. Algo que o governo francês está a fazer de "forma muito interessante" e onde o Luxemburgo se poderia inspirar.

É possível mudar mentalidades?

Como podemos mudar as mentalidades e conseguir que 34 mil trabalhadores aceitem partilhar os seus automóveis no percurso entre casa e trabalho?

Claro que há muitos caminhos a serem explorados quando falamos em 'mudar mentalidades', e considero que há quatro fatores fundamentais para que os trabalhadores aceitem partilhar uma viatura. Antes de mais, tem de haver um mínimo de confiança entre as pessoas. Estas têm de pertencer a um grupo "próximo", como vizinhos ou pessoas que trabalham na mesma empresa ou bairro. Por outro lado, tem de existir um incentivo económico para aceitarem partilhar o automóvel no percurso diário entre casa e trabalho. Que torne o 'carpooling' realmente mais interessante do que o 'autosolisme'.

É também importante a existência de infraestruturas para 'carpooling' que proporcionem um incentivo à partilha de automóveis. Por exemplo, será mais fácil aderir se o trabalhador tiver estacionamento garantido na empresa. E se tiver uma "garantia" de regresso a casa se o condutor da sua viatura falhar ou se surgir uma emergência, como uma criança doente, por exemplo. 

Que benefícios fiscais e outras medidas o Governo deve implementar para promover esta forma de mobilidade que reduza o trânsito intenso?

Nos últimos anos a concessão de benefícios tem sido condicionada à motorização dos veículos, sendo a "propriedade do automóvel" a ser subsidiada. No entanto, deverá ser antes "a utilização de um meio de transporte" que merece ser favorecida do ponto de vista da "mobilidade como serviço". E esta vantagem tem de ter em conta toda a gama de mobilidade disponível. Porque se amanhã todos as viaturas forem elétricas mas ainda houver apenas 1,2 passageiros por automóvel, em média a situação do trânsito não irá mudar...

O bom exemplo da lei francesa

França é o país com o maior número de passageiros de 'carpooling' na Europa. Que exemplos o governo luxemburguês pode adotar deste seu vizinho?

Em França, o 'carpooling' funciona bastante bem em longas distâncias com a aplicação móvel BlaBlaCar, que foi democratizada nos últimos anos. Mas ainda representa apenas 3% das viagens entre casa e trabalho. Em distâncias curtas, as dificuldades organizacionais ligadas ao 'carpooling' muitas vezes superam os aspetos económicos. Por outro lado, a nova lei sobre a orientação da mobilidade,  votada em França no final de 2019, inclui disposições muito interessantes para promover o 'carpooling'. O Luxemburgo poderia inspirar-se nela.

Quais são essas disposições da lei francesa?

Em primeiro lugar, será possível aos empregadores (privados e públicos) pagar um bónus até 400 euros por ano, sem contribuições para a segurança social ou impostos, aos empregados que venham trabalhar de bicicleta ou de carro. Este bónus passa a estar incluído no da ajuda paga pelas empresas aos utentes dos transportes públicos (obrigatória em França), o que permite aos trabalhadores permanecerem flexíveis na sua escolha de transporte público (por exemplo, um trabalhador que vai de bicicleta no verão pode ir de comboio no inverno e não é penalizado).


Quer deixar de passar horas nas filas de trânsito? Por que não partilhar o carro?
A partilha de automóvel pelos trabalhadores é uma das apostas do governo para diminuir o tráfego. E vão ser criadas faixas rodoviárias próprias para estas viaturas. O Ministério da Mobilidade explicou ao Contacto. que autoestradas vão ter estas vias para o 'carpooling'.

Também existem benefícios a nível regional? 

Sim, o segundo avanço é que os municípios e regiões que assim o desejarem poderão subsidiar os condutores e passageiros sem serem tributados. Em Nantes, por exemplo, existe um novo serviço de 'carpooling' que funciona mesmo com um transporte público, e onde os passageiros pagam o preço de um bilhete de elétrico ou metro de superfície. Os condutores são pagos à viagem pela região. Também aqui podem fazer o percurso casa-trabalho.

Finalmente, se forem introduzidos incentivos fiscais, deve ser considerada a criação de um sistema de "certificação" das viagens efetuadas, caso contrário, as declarações de imposto de renda e as auditorias fiscais podem ser muito complicadas de gerir. A lei francesa também prevê isso e algumas aplicações de partilha de carros oferecem soluções técnicas para isso. Será necessário um esforço de informatização.

Na sua opinião, as empresas possuem um papel importante na promoção desta medida?

Acredito que os empregadores podem desempenhar um papel muito maior na mobilidade. Para que os funcionários decidam partilhar o automóvel, tem de haver, como já referi, confiança entre as pessoas, e podem ser colegas de trabalho. Uma empresa pode, por exemplo, verificar as horas de chegada e saída, em média, dos seus funcionários e verificar as suas moradas. E promover a partilha. Também, como já disse, disponibilizar as viaturas da empresa para garantir o regresso dos funcionários em caso de circunstâncias imprevistas. Se para além destes benefícios a empresa ainda puder dar um bónus livre de impostos a quem aderir ao 'carpooling', eu acredito que isso pode realmente surtir o efeito desejado e levar os trabalhadores a deixar as suas viaturas em casa, e ir à boleia com colegas ou aceitarem dar boleia.

A importância das faixas próprias

A criação de faixas próprias nas estradas para 'carpooling' é uma das medidas importantes na promoção desta forma de transporte?

Parece-me lógico: se você faz o esforço de adoptar o 'carpooling', de manhã e à noite, e depois ficar preso em engarrafamentos como os outros automobilistas que não fizeram esse esforço, muito rapidamente vai largar as suas boas resoluções... Por outro lado, se você pode conduzir a 80km/h numa faixa própria para 'carpooling', quando os outros automobilistas que viajam sozinhos só conseguem percorrer uma média de 12km/h, estou convencido de que a sua motivação será elevada.

Alguns investigadores acreditam que podem existir efeitos "paradoxais" a estas medidas no futuro. Por exemplo, se o 'carpooling' se generalizar em grande escala, o tráfego pode tornar-se complicado e os trabalhadores poderão ser encorajados a regressar aos seus automóveis e fazer o percurso casa-trabalho, sozinhos. Ou serem encorajados a optar pelo elétrico ou metro de superfície, comboio ou bicicleta (que ainda são mais amigos do ambiente) em vez do 'carpooling'. Mas dadas as previsões de crescimento do emprego e o nível de saturação das infraestruturas no Luxemburgo, penso que ainda temos margem de manobra antes de vermos este tipo de fenómeno acontecer!

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