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Tapas Bar. “Se continuarmos de portas fechadas e sem apoios, não consigo pagar contas de fevereiro”
Luxemburgo 4 min. 22.01.2021 Do nosso arquivo online

Tapas Bar. “Se continuarmos de portas fechadas e sem apoios, não consigo pagar contas de fevereiro”

Tapas Bar. “Se continuarmos de portas fechadas e sem apoios, não consigo pagar contas de fevereiro”

Luxemburgo 4 min. 22.01.2021 Do nosso arquivo online

Tapas Bar. “Se continuarmos de portas fechadas e sem apoios, não consigo pagar contas de fevereiro”

Ana Patrícia CARDOSO
Ana Patrícia CARDOSO
António Castanho abriu o restaurante Tapas Bar, em Esch-sur-Alzette, e o negócio seguia de feição até março de 2020, quando a pandemia da covid-19 o obrigou a encerrar, pela primeira vez. Quase um ano depois, sem perspetivas para voltar ao normal, o português não desiste de lutar mas começa a preparar-se para o pior.

Comer no Tapas Bar é voltar, por momentos, a uma mesa farta portuguesa onde não faltam as migas à alentejana, as codornizes, os carapaus fritos com arroz, o leitão, o bitoque e por aí fora. Inaugurado em 2018, o restaurante do bejense António Castanho, 44 anos, começava a dar passos largos para se tornar mais uma referência de encontro da comunidade portuguesa no Luxemburgo, mas a pandemia do novo coronavírus trocou-lhe as voltas. 


Em absoluto desespero, os restaurantes levantam a voz
Organizam-se vigílias, marcam-se manifestações, as campanhas em nome da reabertura de restaurantes, cafés e bares tomam conta das redes sociais. A última semana ficou marcada pelos protestos do setor da restauração no Luxemburgo. Histórias de quem se diz na luta pela sobrevivência.

“Começava a ter a clientela fixa e não só os portugueses, mas espanhóis, italianos, luxemburgueses e até famílias que vinham de propósito da Holanda para comer aqui”. A razão do sucesso pode explicar-se por duas coisas que definem bem um português: boa comida e o gosto pelo convívio. 

“No Luxemburgo, não existe o hábito de ir beber uma cerveja e comer uns petiscos, por isso, quando as pessoas nos conhecem e percebem que podem vir aqui e conversar uns com os outros, querem voltar”, diz António, que percorreu um caminho longo de trabalho no Luxemburgo antes de ter o seu negócio.

Deixou Beja em 2011, no auge da crise económica, em busca de uma vida melhor para a família. Veio sozinho, trabalhou na construção e criou as condições para trazer a mulher, Sónia, e as duas filhas, Maria, 17 anos, e Madalena, 13 anos. Fixaram-se no Luxemburgo como muitos emigrantes – à custa de muito trabalho. 

Sónia, professora de formação, dedicou-se às limpezas porque “a língua não ajuda no processo de integração” e há uma família para cuidar. O objetivo de António, que já tinha trabalhado na restauração, era abrir um espaço onde todos pudessem trabalhar e chamar de ‘seu’. Com um amigo, que já tinha outro espaço, formou sociedade e abriu o Tapas. 

Tapas Bar
Tapas Bar

2018 foi o ano de abertura, 2019 começou a ganhar freguesia e 2020 seria o ano para começar a ver o lucro do investimento. Mas não foi isso que aconteceu. Fecharam pela primeira vez em março e, como a maioria, acharam que era por pouco tempo. “As primeiras duas semanas, confesso, até souberam bem, deu para descansar. Mas, às tantas, percebes que não vais abrir tão cedo e, em maio, bateu o desespero de não ter data para voltar a abrir”. 

Ainda contaram com a ajuda do Governo mas, como foi apenas cinco mil euros para dividir pelos negócios do sócio, o que lhes coube “pagou uma renda”. O resto está a colocar do próprio bolso porque “a caixa registadora está fechada e não entra dinheiro e o correio está cheio de contas”, diz o bejense.

Segunda vaga devastou negócio

Voltaram a servir em junho, o período do verão foi positivo e não pensavam voltar a fechar. Mas surge a segunda vaga e desde 25 de novembro que estão parados. 

O takeaway não compensa e o fim de ano foi prova disso. “Fora as mariscadas para as datas especiais, não servi mais do que dez refeições em dezembro. É um massacre estar a cozinhar o dia todo, gastar dinheiro e saem duas doses”. António só quer voltar ao trabalho. “Fizeram-nos investir em material desinfetante, temos tudo preparado e não nos deixam abrir”.

Na semana passada, o Governo anunciou que todos os setores de atividade iriam abrir à exceção da Horesca, pelo menos até 31 de janeiro. Isto significa mais um mês perdido e António tem uma certeza: “se continuarmos de portas fechadas e sem apoios, não consigo pagar as contas de fevereiro e vou ter de me endividar”.

O setor continua a exigir o regresso dos apoios semelhantes aos do primeiro confinamento, mas não há novidades, por enquanto. Em relação ao desemprego parcial, que tem garantido os salários dos quatro trabalhadores do restaurante, chega a ser pago com um mês de atraso. A situação é preocupante mas parar não é opção. 

“Não posso desistir, não posso voltar. Acredito que, quando tudo isto passar, é mais fácil recuperar aqui no Luxemburgo. Em Portugal, estão ainda piores”. Mas conhece quem já tenha regressado. “A comunidade portuguesa está assustada. Famílias inteiras voltaram”, diz António, que só pensa voltar ao Alentejo quando as filhas tiverem o futuro assegurado. 

“Daqui a 10 anos, talvez. Viemos para cá para lhes dar um futuro melhor, é uma vida difícil, de muito trabalho. São os momentos de convívio no restaurante, entre uma brincadeira e uma guitarra, que nos dão vida e força para continuar. Quase parece casa”.  

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