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Suspeito da morte de Ana Lopes ameaça ex-namorada: "Tu é que merecias o que aconteceu"
Luxemburgo 10 min. 02.12.2020 Do nosso arquivo online

Suspeito da morte de Ana Lopes ameaça ex-namorada: "Tu é que merecias o que aconteceu"

Suspeito da morte de Ana Lopes ameaça ex-namorada: "Tu é que merecias o que aconteceu"

Foto: Alain Piron
Luxemburgo 10 min. 02.12.2020 Do nosso arquivo online

Suspeito da morte de Ana Lopes ameaça ex-namorada: "Tu é que merecias o que aconteceu"

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Acusado de matar e deitar fogo ao corpo da mãe do filho, Marco Silva promete agora arruinar a vida da namorada que se seguiu a Ana Lopes. O Contacto teve acesso às mensagens intimidatórias. Há três anos “a ser olhada de lado” por ter apoiado o companheiro, a “ex” não avisou a polícia. Acredita em Deus e nos tribunais.

“Eu sinceramente não lhe desejo mal nenhum, mas acredito que se ele sair em liberdade vem atrás de mim”. Apesar de ter terminado o relacionamento de mais de três anos, que começou seis meses antes da detenção do alegado assassino de Ana Lopes, a última namorada do português não perde uma sessão do julgamento que decorre desde o início do mês no Tribunal da Comarca do Luxemburgo.

As peças, diz, começam a encaixar. De incongruência em incongruência, os relatos dos ataques de ciúmes e as mensagens que Marco Silva enviava a Ana Lopes, lidas em viva voz na audiência, fizeram curto circuito. “Comigo foi igual”, suspira a mulher que, sem querer revelar a identidade com medo das consequências, começou a questionar a tese da inocência do emigrante português de 32 anos que arrisca prisão perpétua no Grão-Ducado, acusado de matar e fazer desaparecer o corpo da mãe do filho na fronteira francesa, e Roussy-le-Village, onde as autoridades foram dar com as cinzas que restaram do carro e da vítima.

“Inferno”

“Eu acreditava nele porque antes dele ir lá para dentro nunca me fez mal nenhum, antes pelo contrário. Mostrou-se sempre um verdadeiro príncipe, mas passado uns tempos, foi um inferno mesmo. Sempre a ligar-me da prisão para saber onde estava e com quem. Fartava-se de mandar mensagens de manhã à noite, foi um inferno”, descreve a última companheira de Marco Silva. “Eu psicologicamente estava a ficar louca da minha cabeça de tantas mensagens e de tantos telefonemas por dia porque se eu não atendesse era logo porque estava com outros homens e andava na cama com eles. Eu não aguentei mais a pressão”.

Na hora H, nem “os três anos a ser olhada de lado” serviram de atenuante à revolta de Marco Silva. Nas mensagens a que o Contacto teve acesso, o arguido do processo que continua a dividir a comunidade portuguesa no Luxemburgo desdobra-se em ameaças: “Tu quando segues a tua cabeça só sai merda, a merda toda que aconteceu por não me ouvires. Tu és uma psicopata. Tu é que merecias o que aconteceu à Ana. Tu não percebes o que fizeste. Tu não percebes o que me fizeste. Fazeres-me isto agora, onde estou”.

A ex-companheira não é o único alvo. “Enfim laisse tomber. A ele vou-lhe fazer a folha e tu voila”, também se lê nas mensagens trocadas nas redes sociais na sequência do fim do relacionamento. Tal como a última namorada do principal suspeito do homicídio de Ana Lopes, o amigo a quem se dirigem as advertências não apresentou queixa às autoridades. Embora admita que corre perigo, a também portuguesa entrega o destino à justiça de Deus e dos homens. “Não tenho medo, se tudo isto for verdade, porque pode não ser, ele vai pagar pelo mal que fez. O Marco precisa, e só espero que tenha, ajuda porque ele está doente. É doente pelas namoradas que tem”.

Relatos da violência

Chamadas a testemunhar em tribunal, as amigas da emigrante portuguesa que desapareceu na noite de 15 para 16 de janeiro de 2017 no bairro de Bonnevoie, na capital, traçaram um retrato semelhante do alegado homicida. Contaram que as ameaças, incluindo de morte, terão acompanhado a relação de cinco anos que ficou marcada pelas “idas e voltas” do casal que há altura do crime tinha um filho de dois anos.

Sob juramento, uma das duas amigas de Ana Lopes relatou inclusivamente que o arguido lhe tinha dado a entender, indiretamente, que poderia ser queimada e abandonada na floresta. Apesar de nunca ter presenciado um espancamento, a testemunha que ainda diz ter sido agredida por Marco Silva garantiu que o homem terá agarrado a amiga pela garganta e que a violência não terá abrandado nem durante a gravidez.

“O Marco ainda tem uma mentalidade antiga, quando está com uma pessoa é para sempre”, parte à defesa a namorada que se seguiu à portuguesa de 25 anos. “O Marco quer uma mulher para fazer família e não gosta que a mulher dele ande na noite. Ela era muito nova e como é perfeitamente normal gostava de sair com as amigas, mas ele não aceitava”, contextualiza. “Eu estava disposta até a perdoar o passado se ele fosse sincero comigo porque ele é uma ótima pessoa, até. A única coisa que estraga é que ele tem duas personalidades. É boa pessoa, mas fica cego e ganha ódio às pessoas. Somos todos humanos e se Deus perdoou os piores inimigos quem somos nós para julgar? Foi por isso que estive sempre ao lado dele, mas se ele neste tempo todo não mudou é porque não vale a pena”.

Para sempre

Face ao quadro de violência e ao cruzamento dos testemunhos que foram dos familiares e amigos aos peritos que recolheram e analisaram as provas no local onde o carro da vitima foi consumido pelas chamas, o Ministério Público pediu prisão perpétua para o único e principal suspeito do homicídio de Ana Lopes por considerar que o crime “foi deliberadamente planeado”.

Fora os vestígios de ADN masculino detetados numa fita adesiva posteriormente encontrada durante as buscas que as autoridades fizeram à garagem de um elemento da família do acusado, não há provas suficientemente fortes para condenar o português à pena máxima prevista no Código de Processo Penal do Grão-Ducado.

Contra os pedidos de absolvição da defesa do português, o Ministério Público não vê qualquer atenuante capaz de reduzir a condenação que o tribunal lê no início do ano que vem, a 12 de janeiro.

Na opinião do procurador, Marco Silva matou a ex-companheira três vezes. A primeira quando lhe tirou efetivamente a vida, a segunda quando deitou fogo ao carro que abandonou na fronteira francesa e a terceira quando tentou denegrir a imagem de Ana Catarina. “Ele simplesmente não quer deixar-lhe nada”, concluiu.

É que apesar de ter falado na ex-namorado como uma “rapariga cinco estrelas”, Marco acusa a vítima de estar “envolvida num negócio de droga”. Acusa inclusivamente as amigas de Ana Catarina de “andarem na mesma vida”, apesar da maioria das testemunhas terem afirmado que a jovem tinha deixado de usar drogas quando engravidou.

Contra todas as testemunhas próximas da vítima, tanto Marco como a família garantem que a jovem teria um esconderijo para guardar os estupefacientes perto da fronteira franco-luxemburguesa e que o verdadeiro autor do crime só poderá tratar-se de alguém que circulasse no meio. O suspeito garante mesmo que a vítima lhe terá confessado que estaria a atravessar dias complicados e temeria pela própria vida. Nem o juiz nem o Ministério Público conferem credibilidade à sequela.

Tese da absolvição

Sem apresentar um fio condutor para os relatos que diz provarem a sua inocência, Marco Silva já contou várias versões do crime às autoridades e ao tribunal. Seguro de si, continua a dizer-se inocente e vítima de uma investigação que só tem como objetivo incriminá-lo pela morte de Ana Lopes. Dois dias depois das autoridades francesas terem encontrado os restos mortais da jovem, o português disse à polícia que tinha viajado para a Alemanha. Agora, nas horas que se advinham de terror para a vítima, o principal suspeito garante que estaria ocupado a passear um dos três cães da família.

De acordo com o seu último depoimento, na noite em que Ana Lopes foi raptada por volta da 1 hora da manhã em Bonnevoie, Marco só se ausentou de casa por duas vezes. Para provar a sua versão dos factos, assegura que na mesma noite em que o carro da vítima ardeu nos arredores de Roussy-le-Village, foi captado pelas câmaras de segurança do café onde a ex-companheira também foi vista. “Na câmara CCTV, fui visto a passar pelo Pepper’s Cafe às 22h48, depois vi um filme de 123 minutos com a minha irmã, ao mesmo tempo que a minha mãe ligava. À 1h17 da manhã, a minha mãe telefonou-me, provavelmente só para apagar a televisão. Mas de qualquer forma, não tinha o telefone comigo”, garantiu ao tribunal na última audiência.

De facto, graças aos dados de geolocalização percebe-se que o telemóvel do arguido estava a 300 metros da sua casa, esquecido no carro que ali ficou estacionado durante a noite. Além de não compreender como é que, saindo duas vezes de casa, o suspeito nunca se tenha lembrado de ir buscar o dispositivo, o juiz viu-se obrigado a recorrer ao primeiro depoimento de Marco Silva perante o juiz de instrução criminal que lhe decretou a prisão preventiva para evidenciar a contradição. “Tenho a certeza que tinha o telemóvel comigo toda a noite”, disse, na altura.

Alibi

À exceção de alguns amigos, familiares e vizinhos do bairro mais português da capital, poucos acreditam na inocência do arguido. Os pais confirmam a última versão do filho. Confrontada com as recordações daquela noite, a mãe garante que Marco terá chegado por volta das 22h e saído novamente às 3h e às 6h da manhã para passear um dos cães da família, enquanto ela passeava os outros dois. Afiança ainda que nas duas ocasiões não terá levado a chave de casa e terá enviado uma mensagem ao suspeito para lhe abrir a porta.

Certo é que nenhuma das mensagens consta dos registos. “Há mais de 11 mil mensagens no seu telemóvel, algumas das quais remontam aos anos de 2014 e 2015. E, curiosamente, faltam as duas mensagens mais recentes”, confrontou o juiz que também levantou dúvidas sobre os hábitos de sono do português que continua a afirmar a injustiça a que está a ser sujeito. No mesmo sentido, os irmãos questionam a validade do processo e das acusações que recaem no único arguido. Apesar de assumir que estaria a dormir, a irmã confirmou que os passeios noturnos com os cães eram normais e frequentes.

Rasto do crime

Não há vestígios evidentes de ADN do principal suspeito no local do crime. Além do sangue da vítima, os investigadores encontraram um saco de fast-food e várias braçadeiras de plástico no interior do veículo. No saco de comida, as autoridades identificaram o ADN não de Marco Silva, mas sim de um de um amigo de Ana Lopes, retirado do leque de suspeitos logo no início do processo, depois do interrogatório. e das buscas domiciliárias. Segundo um dos peritos que foi arrolado como testemunha, os vestígios encontrados podem ser explicados por uma transferência indireta – através da mão da vítima – já que ambos teriam estado juntos um quarto de hora antes de Ana Lopes ter sido agredida e seguido viagem no próprio carro para aquele que seria o seu destino final.

De resto, o único vestígio que liga o arguido ao caso é uma amostra que tanto pode pertencer a Marco Silva ou a um elemento masculino da sua família. “Pode ser apenas uma transferência de ADN. Caso contrário, o montante recuperado deveria ter sido maior”, defende-se o português. “Eu até daria a minha vida para mostrar que isto não corresponde a um contacto direto”, insistiu o arguido, no banco dos réus.

Embora não se consiga demonstrar que Marco Silva esteve naquele local, àquela hora, há um rolo de fita adesiva a incriminar um elemento masculino da sua família, já que as perícias encontraram vestígios de ADN no adesivo encontrado junto ao carro da vítima. Além disso, tanto a fita como as braçadeiras de plástico que as autoridades francesas recolheram são da mesma marca das que foram apreendidas numa oficina de um elemento da família do suspeito. 

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