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Supermercados. Os preços da discórdia
Luxemburgo 6 min. 03.06.2020

Supermercados. Os preços da discórdia

Supermercados. Os preços da discórdia

Luxemburgo 6 min. 03.06.2020

Supermercados. Os preços da discórdia

Álvaro CRUZ
Álvaro CRUZ
A corrida às compras no início da pandemia já faz parte do passado, mas muitos queixam-se do aumento dos preços. Os responsáveis comerciais relativizam a situação e as autoridades reconhecem o fenómeno apelando à moderação nos preços.

 “No início da pandemia, as pessoas estavam mais estressadas e chegavam a ter comportamentos bastante agressivos quando vinham às compras, até parecia que o mundo ia acabar. Mas apesar de as coisas já terem acalmado, há ainda muita gente que continua a comprar produtos em quantidades maiores do que inicialmente seriam necessárias para um agregado familiar normal”, garante Charlotte Bastin, responsável pelo supermercado Proxy / Delhaise de Dudelange.

Para os inquiridos pelo Contacto, os preços de grande parte dos alimentos, subiram com a crise e grande parte deles não voltou a baixar. Pedro Miguel reside em Cessange e costuma frequentar uma conhecida superfície comercial na capital. Afirma que após a crise sanitária, os preços aumentaram de forma significativa e não se conforma: “Normalmente vou às compras ao sábado e mantenho um padrão semanal dentro das necessidades da família. Em relação ao montante que gasto regularmente, posso dizer que durante a fase de confinamento notei um acréscimo de cerca de 100 euros por semana no conjunto das compras que efetuo. A subida em relação aos preços mantém-se apesar de a situação estar praticamente normalizada e isso custa-me a aceitar.”


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Fátima Martins, de Rumelange, foi outra das inquiridas pelo nosso jornal. À saída do supermercado do Grupo Celeste, em Esch-sur-Alzette, confirmou a subida dos preços de grande parte dos principais alimentos.

“Não venho muitas vezes aqui até porque resido em Rumelange e tenho supermercados mais perto da minha casa. No entanto, nota-se que de uma forma geral os preços aumentaram com a pandemia, um pouco por todo o lado. Não são todos os produtos, mas principalmente os de maior necessidade. Encareceram mais nuns supermercados do que outros e, apesar de a situação ter normalizado, a maioria dos preços permanece inalterado”, diz em tom de revolta.

Queixas sobre a subida dos preços na ULC

Guy Goedert, da União Luxemburguesa dos Consumidores (ULC) revelou que a associação tem recebido queixas, mas que em muitos casos, nada pode fazer.

“É verdade que as pessoas se têm queixado da subida do custo de vida de uma forma geral, mas em determinadas situações não é fácil resolver as coisas. Na maioria dos casos, a opção de compra ou não passa pelo cliente, apesar de alguns produtos alimentares terem sofrido subidas consideráveis”, reconhece.

“Emitimos um comunicado no dia 27 de maio, no qual apelamos à moderação no caso do aumento dos preços. Lembramos que muita gente se encontra em desemprego parcial e por isso com menos poder de compra devido à crise sanitária que se instalou nos últimos meses. As superficies comerciais deverão ter conta a fidelização dos clientes em vez de os perder.”

Sílvia Antunes, uma das responsáveis do Grupo Celeste, em Esch-sur-Alzette, garante que o supermercado teve bastante fluxo de público durante o período de confinamento e que, agora, apesar de as coisas estarem mais calmas, as vendas continuam a um bom ritmo. Sobre o alegado aumento dos preços justifica que “como a maioria dos produtos vem de Portugal, os preços são fixados em relação àquilo que pagamos aos fornecedores”, salientando ainda que de uma forma geral “os preços nos nossos estabelecimentos têm-se mantido sem grandes oscilações, embora alguns produtos, devido à sua escassez tivessem aumentado ligeiramente”, reconhece.

Sobem e já não voltam a descer

No Cora, em Foetz, Ana Cardoso empurrava o carrinho de compras, quase repleto de frutas e legumes frescos, produtos que garante terem sido dos que mais subiram durante o período de confinamento.

“Os produtos frescos, sobretudo os legumes, foram os que mais escasseavam inicialmente, juntamente com a carne. Desapareciam rapidamente e a sua reposição era mais demorada. Talvez por isso os preços destes produtos foram dos que mais aumentaram”, diz, lembrando no entanto que esses preços “com exceção de um ou outro produto, nunca mais voltaram a baixar.” Ana recorda também que “as promoções que também são cada vez mais raras”, insistindo que “os clientes é que pagam a crise.”

Sobre a escalada dos preços de grande parte dos produtos, Charlotte Bastin, responsável pelo Delhaise de Dudelange garante que esse aumento se deve essencialmente ao preço ao que é fixado pelos produtores e fornecedores.

“Tivemos um caso específico com o preço do gel e das máscaras em Bettembourg. Na altura em que as recebemos as máscaras e estavamos a colocar os preços, um fiscal do ministério da Saúde chamou-nos à atenção sobre os mesmos que ele considerava serem exorbitantes, mas eu mostrei-lhe a factura que indicava por quanto o fornecedor nos tinha vendido. Não houve propriamente um aproveitar da situação para meter a ’unha’ como muitos pensam. Nós também estamos sujeitos aos preços que nos cobram.”

“Nos nossos estabelecimentos, os preços mudam todas as quintas-feiras. Há uns que sobem ligeiramente e outros que descem também. Para além das promoções habituais, de uma forma geral, os preços têm-se mantido estáveis”, garante.

Para Eric Ciarrone, responsável pelo Match de Dudelange, “por vezes fala-se demais sem se saber. Nos nossos estabelecimentos todos se mobilizaram para poder responder às necessidades dos clientes e, modestia à parte, acho que cumprimos de forma especial o nosso dever. E não foi por isso que os preços aumentaram, a maioria manteve-se. Na fase mais complicada do confinamento, conseguimos sempre estar mais perto dos nossos clientes e fazer-lhes chegar aquilo que eles necessitavam para que se acalmassem e não se deixassem dominar pelo stress”, regozijou-se. “Demos prioridade aos produtores luxemburgueses sem que isso refletisse num aumento significativos dos preços.”

Carne e Frescos entre os que mais subiram

Contrastanto com estas declarações, Eugénia Gouveia disse ao Contacto que “está tudo mais caro”. “Desde que a corrida aos bens essenciais começou no início da crise, os preços so sobem. Agora, alguns até estabilizaram, mas muitos deles não voltaram a descer”, garante.

Por seu turno, Nicolas Henckes, membro da Confederação Luxemburguesa do Comércio, diz que não registou grandes reclamações, justificando que o aumento dos preços de alguns produtos ficou a dever-se “à menor produção de certos países e nas datas de entregas”. Por outro lado lembrou que “os camiões quando vêm entregar a mercadoria vêm cheios e devem partir cheios com outras mercadorias, mas vão vazios. Daí o aumento dos preços de alguns produtos”, justificou.

No entanto, e segundo o Indice dos preços de consumo nacional elaborado pelo STATEC, pode verificar-se que nos últimos meses produtos como a carne, legumes frescos, fruta, mercearias, leite e bebidas de uma forma geral tiveram uma subida dos preços, em alguns deles considerável, contrastando com uma baixa no peixe, café, chá, açucar, chocolate e produtos derivados.

Opiniões que não encontram um acordo na diferença entre quem compra e quem vende. 

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