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Suíça. Emigrante português morre após ter sido baleado pela polícia
Luxemburgo 5 min. 17.12.2019 Do nosso arquivo online

Suíça. Emigrante português morre após ter sido baleado pela polícia

Suíça. Emigrante português morre após ter sido baleado pela polícia

Luxemburgo 5 min. 17.12.2019 Do nosso arquivo online

Suíça. Emigrante português morre após ter sido baleado pela polícia

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Agente disparou contra Dionísio Cunha que estava armado e minutos antes tinha baleado a sua mulher. Especialistas falam ao Contacto sobre violência doméstica neste país.

O português Dionísio Cunha faleceu esta terça-feira de manhã, dia 17 dezembro, num hospital em Genebra, Suíça, não tendo sobrevivido aos ferimentos causados pela bala disparada por um agente da polícia.

Também a mulher de Dionísio Cunha, baleada pelo marido em casa, se encontra hospitalizada em estado muito grave, noticia o Correio da Manhã.

 Os agentes foram chamados a casa do emigrante e da mulher, no bairro das Acacias, em Genebra, às 8h20 de segunda-feira, pelos vizinhos do casal português.  

De acordo com o comunicado do Ministério Público (MP) de Genebra, os vizinhos ouviram os gritos de socorro da mulher do emigrante e alertaram a polícia que chegou “imediatamente ao local”.

À porta do apartamento foram recebidos por Dionísio Cunha. “Os dois policias enfrentaram um homem na pose de uma arma de fogo. Um polícia disparou a sua arma de serviço”, descreve o MP sublinhando que o português se encontrava em “estado grave”.

Dentro do apartamento, os polícias encontraram a mulher no chão ferida que minutos antes “tinha sido baleada pelo marido”.   

Filhos não estavam em casa

O casal tem dois filhos mas estes estavam fora de casa na altura da tragédia.

Dionísio Cunha era natural de Vila Praia de Âncora e a mulher de Castelo de Neiva, em Viana do Castelo, Minho.

Já no ano passado um emigrante português matou a mulher e o filho a tiro em Payerne, no cantão de Vaud. Segundo o site Portugueses na Suíça, este casal  “costumava desentender-se” e já estaria separado.

Já este ano, um outro português foi julgado em Lausanne por aterrorizar, agredir e violar a mulher.

Polícia chamada 27 vezes por dia

Em 2018, no Luxemburgo a polícia foi chamada a intervir duas vezes por dia em casos de violência doméstica. 

Na Suíça, foram contabilizadas 27 intervenções diárias por este tipo de violência, segundo os dados nacionais suíços divulgados ao Contacto por João Pedro Gaspar, investigador da Universidade de Coimbra que participou nas jornadas sobre Violência Doméstica dedicadas à comunidade portuguesa na Suíça. 

Este evento decorreu em Zurique e Lausanne, em setembro, e foi organizado pela associação Change Mind - Global Aid e contou com a presença secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro e membros de algumas associações lusas no país.

De acordo com os dados nacionais suíços no ano passado faleceram 27 vítimas de violência doméstica e houve “52 tentativas de homicídio”. Na Suíça, "um em cada três homicídios" foram de violência doméstica, revelam as estatísticas.

"Neste país os dados são tratados a nível nacional não existindo números por nacionalidades de imigrantes para não se criar estigmas nas comunidades", justifica ao Contacto Nuno Domingos, presidente da Associação de Apoio à Comunidade Portuguesa (AACP) neste país.

Suíça sem legislação específica 

Neste país a legislação ainda não contempla a tipificação de violência doméstica, vinca João Pedro Gaspar que além de investigador na área de psicologia cognitiva é também fundador e coordenador da Plataforma de Apoio a Jovens "Ex" acolhidos (PAJE), que em crianças e adolescentes foram retirados às famílias sem competências para cuidar deles, nomeadamente vítimas de violência doméstica.

Por isso, na Suíça os atos destes agressores são julgados por outros crimes previstos no código penal.

A falta de legislação própria para os casos de violência doméstica é um dos entraves ao combate desta problemática no país, sublinha por seu turno o presidente da AACP . 

"O país não tem também leis específicas de proteção para estas vítimas", vinca Nuno Domingos, cuja associação presta apoio às vítimas portuguesas de violência doméstica, em todo o país, nomeadamente apoio psicológico e de elaboração dos casos a apresentar aos tribunais, como por exemplo dos relatórios necessários.

Convite à agressão

"Sem esta legislação específica o agressor sente-se à vontade, é um convite, porque não há uma lei que penalize e pode encontrar uma série de contornos para justificar o ato da agressão", explica este responsável.

Atualmente, a AACP dá apoio a cinco vítimas de violência doméstica mas o número está a crescer. Isto numa comunidade composta por 276 mil portugueses.

Portuguesas cansadas de sofrer

"As mulheres da comunidade estão cansadas de sofrer e agora dizem basta. Perderam a vergonha, porque sabem que há outras vítimas que procuram apoio e elas também o fazem", salienta Nuno Domingos.

Os psicólogos desta associação estão a prestar apoio a uma família inteira, à mãe vítima de violência por parte do pai, a este agressor e aos dois filhos que sempre viram o progenitor agredir a mãe. "Foi o agressor, o pai que quis ter apoio", conta este responsável. 

Há uma outra vítima que após anos e anos de sofrimento ganhou coragem para pedir ajuda: "Uma portuguesa que sofreu de violência doméstica por parte do marido e dos filhos menores. Eram agressões verbais e físicas constantes. Os filhos imitavam o pai e tinham o seu consentimento para maltratar a mãe. Um horror".

Mudar a lei e repetir jornadas

Nuno Domingo vinca que perante o aumento de casos da violência doméstica no país e da pressão de associações como a AACP e mesmo instituições suíças o governo está já a trabalhar para mudar a legislação e tipificar a violência doméstica. Contudo, esta será uma alteração que ainda irá demorar, dado que, neste país, as leis só entram em vigor dois anos depois de serem aprovadas.

Para João Pedro Gaspar o balanço das jornadas contra a violência doméstica realizadas na Suíça foi bastante positivo e deveriam ser "repetidas noutras comunidades portuguesas" de modo a alertar e sensibilizar os portugueses para este problema tão grave e dar coragem às vítimas para pedir ajuda.

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