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Steve Maia Caniço tem de se "tornar um símbolo"
Luxemburgo 4 min. 01.08.2019 Do nosso arquivo online

Steve Maia Caniço tem de se "tornar um símbolo"

Steve Maia Caniço tem de se "tornar um símbolo"

Luxemburgo 4 min. 01.08.2019 Do nosso arquivo online

Steve Maia Caniço tem de se "tornar um símbolo"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
"Ouvi os gritos e o barulho das pessoas a cair ao rio", conta uma das pessoas que fez queixa da violência policial que causou a morte do luso-descendente.

Revolta. Esta é a palavra que melhor define o que os amigos de Steve Maia Caniço e os festivaleiros que estavam presentes, naquela noite trágica em Nantes, e as muitas centenas de ativistas sentem após a divulgação dos resultados do inquérito da polícia das polícias francesa sobre as consequências da intervenção policial no concerto que levou à morte do luso-descendente, de 24 anos.

Não há indícios de que tivesse havido “relação entre a intervenção das forças policiais e a queda das [14] pessoas ao rio”, conclui o documento da Inspeção Geral da Polícia francesa (IGPN).

“Houve ligação sim”, garante Romain G. que também lá estava na festa, nessa mesma madrugada de 21 para 22 de junho e foi apresentar queixa numa esquadra logo a seguir aos graves incidentes. Uma queixa “por a carga policial ter posto em perigo a vida das pessoas que ali estavam”.

 Esta queixa até aparece no relatório do IGPN, mas sem ter dado em nada, pois lê-se no documento que o IGPN tentou posteriormente conctatar o queixoso, para este testemunhar, mas não conseguiu. Mentira, garante esta testemunha.

  "Ficámos rodeados de fumo e sufocados”  

Este fotógrafo, de 33 anos, quer que a verdade seja contada. Quer que fique registado que a carga policial provocou a queda das pessoas ao rio. E a morte de Steve Maia Caniço.

Ao Le Monde recorda como tudo aconteceu: Quando a polícia começou a tentar dispersar os festivaleiros uma onda de fumo caiu aos pés de Romain G. que estava com a namorada e a irmã mais nova desta a assistir ao concerto. 

“Ficámos rodeados de fumo, sufocámos imediatamente e percebi que era gás lacrimogénio. Encolhi-me próximo do chão. As pessoas corriam sem direção. Procurei a minha namorada e consegui vislumbrar o seu vestido verde a dirigir-se para o rio Loire. Apanhei-a a menos de meio metro do rio”, descreve. 

E continua: “Foi terrível. Na altura, cruzámo-nos com muita gente e eu desatei a gritar: Não avancem! Aqui é o Loire! Não pude fazer nada. Só ouvi os gritos e o barulho das pessoas a cair ao rio".

"A verdade tem de aparecer"

Fazer a queixa junto das autoridades não foi fácil. A polícia lá lhe disse depois que a queixa dele seguiu para o Procurador da República para se juntar às restantes 89 feitas por outras pessoas da festa. Resultou numa queixa coletiva.

Segundo a polícia, esta tentou contactar Romain G. por email para ouvir o seu testemunho para o relatório, mas não obteve resposta. “Nunca recebi esse email, senão tinha ido dar o meu testemunho. Era estúpido fazer uma queixa e depois não recusar a dar o meu testemunho”, vinca ao Le Monde. 

“Como cidadão estou indignado. Mas irei até ao fim com os meus direitos e deveres. A verdade tem de aparecer. Pelo Steve e pela sua família”, garante este francês de Nantes.

Manifestação para dia 3 de agosto

Para Romain G. e tantos outros festivaleiros, amigos de Steve e ativistas este "encobrimento" dos policias com a "conivência" do governo como há jovens que contam numa reportagem do jornal Mediapart aumentou a sua raiva e vontade de reagir. Por isso, estão a convocar nas redes sociais uma enorme manifestação para o próximo sábado, dia 3 de agosto. E mais não adiantam.

“Em memória de Steve Maia Caniço, e contra toda a violência policial”, anuncia Stephanie que esteve na festa, numa reportagem do Mediapart.

“É preciso que Steve se torne um símbolo para que isto nunca mais volte a acontecer”, avança Kim Dj, na mesma reportagem realizada junto dos manifestantes, que por estes dias continuam a ir colocar flores e se concentrar nas margens do Loire, em Nantes. Em tributo ao luso-descendente.

“Estas conclusões do relatório só podem ser para gozar connosco”, diz furioso Pierre, um amigo de Steve Maia Caniço que estava com ele na trágica noite, também ao mesmo site.

 “Desta vez as autoridades transformaram a cólera em ódio”, acrescenta este amigo.

Pierre estava com Steve no festival em Nantes, na noite em que a polícia decidiu acabar com a música e expulsar o público com disparos de gás lacrimogénio e balas de borracha. Altura em que deixou de ver Steve que caiu ao rio Loire para fugir à intervenção policial como outras 14 pessoas. Só que Steve Maia Caniço não sabia nadar. E morreu afogado.

Porquê esta violência? Porquê um morto?

Para a presidente da câmara de Nantes, a socialista Johanna Rolland, o governo está a caminhar na direção errada. “Constato que após cinco semanas de inquérito, o IGPN não está ainda preparado para clarificar o que se passou na noite de 21 para 22 de junho, em Nantes. É, pelo menos, problemático e inquietante”, escreveu esta autarca no Twitter, citada pelo jornal Nantes.

Já para Goulven Boudic,  politólogo da Universidade de Nantes esta autarca já devia ter clarificado “a sua posição sobre a controversa intervenção policial”. Segundo declara Goulven Boudic ao jornal Nantes, “pouco importa se ela é ou não juridicamente responsável”, mas o debate irá ser feito em redor destas questões: “Porquê esta intervenção policial? Porquê esta violência? E porquê um morto?”