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"Somos fronteiriços, somos carne para canhão"

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"Somos fronteiriços, somos carne para canhão"

"Somos fronteiriços, somos carne para canhão"

"Somos fronteiriços, somos carne para canhão"


por Ricardo J. RODRIGUES/ 22.07.2020

Fotos: António Pires

A segunda vaga de coronavírus chegou ao Luxemburgo, mas é no outro lado da fronteira que se temem os maiores sacrifícios. Viagem pelas aldeias de França, Bélgica e Alemanha, para dar voz aos trabalhadores que se sentem mais expostos. São sobretudo portugueses.

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Fim de linha
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Marisa e António chegaram um mês antes da pandemia. O sonho luxemburguês saiu furado.
Marisa e António chegaram um mês antes da pandemia. O sonho luxemburguês saiu furado.
Foto: António Pinto

“Se houver um segundo confinamento, não tenho remédio senão voltar para Portugal”, lamenta-se Mariana Pinto, 37 anos, lisboeta do bairro da Graça. Chegou em fevereiro, com o companheiro ao lado e uma bebé nos braços. “Vir para o Luxemburgo foi a decisão mais difícil que tomei na vida. Adorávamos viver em Portugal. Adorávamos a luz, o calor, a praia, as pessoas. Mas os salários que recebíamos eram tão baixos que a vida estava a tornar-se insuportável.” 

A gota de água aconteceu quando a creche da filha aumentou de 80 para 200 euros. “Fizemo-nos à estrada a pensar que essa era a única maneira de continuarmos a ter uma vida digna.” 

Os dias de desemprego que a pandemia trouxe passa-os António a produzir música na janela do seu quarto.
Os dias de desemprego que a pandemia trouxe passa-os António a produzir música na janela do seu quarto.
Foto: António Pires

 Instalaram-se em Villerupt, no lado francês da fronteira. Os pais dela tinham chegado oito anos antes, e garantiram-lhes um teto para recomeçar a vida. “Tínhamos os olhos postos no Luxemburgo, como toda a gente que vive aqui”, conta António Albuquerque, o companheiro de Mariana. “A ideia de ficarmos em casa dos meus sogros era temporária, e ao início as coisas corriam bem. Arranjei emprego logo no segundo dia, como empregado de mesa num hotel da capital.”

Ela começou a mandar currículos, em Portugal vendia cosméticos, mas aqui estava disposta a ir para as limpezas ou uma fábrica. “Quando a vida se baralha, não se pode ter manias”, ri-se. Um mês depois de aterrarem, o Luxemburgo decretava o estado de emergência por causa da pandemia de Covid-19. E, de repente, faltou-lhes o chão.

A mãe de Mariana acolheu o casal em casa. Foi a sorte deles.
A mãe de Mariana acolheu o casal em casa. Foi a sorte deles.
Foto: António Pires

 António foi dispensado do hotel, mal contava um mês de casa e por isso não tinha direito a apoios sociais. As respostas aos empregos a que Mariana se candidatara começaram a chegar à caixa de correio, sim, mas eram sempre negativas. “Gastámos todas as poupanças nesses meses. Não fossem os meus pais e teríamos morrido de fome”, conta ela, olhos postos no chão e os dedos a embrulharem-se uns nos outros. Dizem que, durante o confinamento, enviaram ambos centenas de emails, mas quem é que os ia contratar para o que quer que seja quando o mundo inteiro se fechava em casa? “Mesmo agora, as empresas são prudentes em contratar, e dão prioridade a quem já está nos quadros”, diz. António continua desempregado, está a tentar tudo o que pode, “não tenho vergonha de ir para as obras”. 

Gasta o tempo a produzir música no computador, é o seu hobbie. Mariana arranjou biscate num café. Mas estão assustados com a subida dos casos de coronavírus no Luxemburgo. Fala ela: “Se vem um segundo confinamento, vai ser impossível sobreviver aqui. Este sonho que tínhamos, que era dar uma vida digna à nossa filha, está a escapar-se pelos nossos dedos.”

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A periferia da periferia
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Villerupt, em França.
Foto: António Pires

Se o sul do Luxemburgo é um pequeno Portugal, as zonas de fronteira – por onde todos os dias entram 200 mil pessoas para trabalhar no país – são outro. Quando Sandra Reis chegou a Villerupt, em 1978, só viviam aqui quatro famílias portuguesas. Hoje, mais de dois mil dos dez mil habitantes da vila francesa vêm do sudoeste da Europa. Há bandeiras das quinas penduradas nas janelas, carros decorados com autocolantes da seleção nacional de futebol, cafés onde se tiram bicas e pastéis de nata, uma churrasqueira, duas mercearias onde se compra e vende saudade, até uma sapataria especializada - com o nome sugestivo de Tuga Shoes. E depois há a padaria Angelisa, que vende pão, bolos e charcutaria de Mirandela.

Sandra e Alberto Reis, os donos da casa, explicam assim o aperto que o coronavírus trouxe à emigração portuguesa: “As listas de dívidas estão a aumentar, há cada vez mais gente que nos pede para vender a fiado e pagar no fim do mês”, diz o homem. Ela acrescenta: “Foi na última década que se começou a notar uma chegada massiva de portugueses, todos eles a trabalhar no Luxemburgo mas a instalarem-se aqui por causa das rendas baratas.” 

É então aqui que chegam desaguam os mais vulneráveis, os que não têm contrato, os biscateiros, os trabalhadores sazonais. “Quando houve o confinamento, muita gente meteu-se nos carros e seguiu para Portugal, porque aqui não tinha nenhum rendimento e ao menos lá tinham algum apoio familiar”, conta Sandra. “E agora há outra vez situações muito dramáticas, porque quando as empresas de contrução reabriram muita gente não conseguiu voltar porque a fronteira com Espanha estava fechada e perdeu o emprego. Faltaram e foram despedidos com justa causa.”

Alberto e Sandra Reis.
Alberto e Sandra Reis.
Foto: António Pires

É essa a multidão que ocupa as mesas da esplanada durante o dia de sexta-feira. Sandra nota que há mais gente sem trabalho, e está preocupada. “Mesmo que o Luxemburgo garanta alguns direitos aos trabalhadores fronteiriços, sabemos que somos mais invisíveis, é mais fácil sermos esquecidos. Vimos isso durante o primeiro confinamento. E, se agora vier o segundo, isto cai como um castelo de cartas. Se as coisas começarem a correr mal, aqui vão correr pior.”

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Linha da frente
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A estação de comboio de Athus, na Bélgica, onde centenas de trabalhadores embarcam diariamente para trabalhar no Luxemburgo.
A estação de comboio de Athus, na Bélgica, onde centenas de trabalhadores embarcam diariamente para trabalhar no Luxemburgo.
Foto: António Pires

Beto está revoltado. Não quer dar rosto nem nome completo para não alimentar o estigma. Português de Almada, parou este domingo para beber uma mini no café Margem Sul, no vilarejo belga de Athus, e deu corda ao lamento. “A minha mulher está infetada. Tivemos de isolá-la num quarto em casa”, comenta para quem quiser ouvir. 

“E o que me chateia é dizerem-lhe que, depois de 15 dias de quarentena, pode voltar ao trabalho sem sequer precisar de fazer um teste. Então como é que eu sei que ela já não tem o bicho? Que não o pega a mim, ou ao nosso filho, ou aos colegas de trabalho?” Funga o nariz e abana a cabeça: “Somos fronteiriços, somos carne para canhão.”

Beto lamenta a sorte dos fronteiriços no café Margem Sul, Athus, Bélgica.
Beto lamenta a sorte dos fronteiriços no café Margem Sul, Athus, Bélgica.
Foto: António Pires

A mulher de Beto trabalha nas limpezas de um hospital da capital. “Quando os transportes públicos foram reduzidos, nós, os que tivemos de continuar a trabalhar, não tínhamos remédio senão andar encavalitados uns nos outros no comboio.” Ri-se dos discursos que tem ouvido na televisão, do consenso político que se gerou para aplaudir os que estão na linha da frente. 

“As cozinheiras, as mulheres de limpeza, os funcionários de supermercado, os homens das obras, como eu, foram essenciais para manter o Luxemburgo a andar quando estava tudo fechado em casa. Mas agora eu pergunto se alguma coisa mudou por isso? Temos mais salários? Temos mais direitos? Mais segurança? Não, nada.”

Foto: António Pires

A oito quilómetros dali, já em território luxemburguês, os sinos tocam a rebate para chamar os fiéis para a missa. Todos os domingos, o padre Rui Pedro dá a eucaristia em português na igreja de Rodange, onde em média um terço do rebanho vive do outro lado da fronteira. Hoje, a celebração presta homenagem às vítimas da Covid-19. 

“Tenho a impressão de que a nossa comunidade se portou muito bem durante esta pandemia, que as pessoas em geral cumpriram as regras”, diz o sacerdote. “Mas temos de ver que estas são classes trabalhadoras, são os que estão mais expostos ao risco, e por isso têm uma forte incidência no contágio. A insinuação de que a culpa desta segunda vaga é dos portugueses ou dos cabo-verdianos que não se sabem comportar é injusta e estigmatizante.” 

E atira uma pergunta: “Há cafés portugueses onde se desrespeitaram as regras? Há sim senhor. Mas não há cafés luxemburgueses onde acontece repetidamente a mesma coisa?”

Daí a nada, o padre Rui há de repetir as recomendações de segurança, pedir aos fiéis que se inscrevam atempadamente para a missa, porque é preciso respeitar novas normas e agora não cabe toda a gente. 

“Vivemos um tempo difícil, em que temos de articular o respeito pelo próximo sem cedermos ao fantasma do medo. E é também por isso que é importante falar com esta gente que vive nas margens, com os que estão expostos. Há gente aqui que perdeu familiares e não pôde ir sequer ao funeral. É preciso fazer-lhes sentir que são importantes. Não apontar-lhes o dedo.”

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Outra margem
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Rui Melo, em Echternacherbrück.
Rui Melo, em Echternacherbrück.
Foto: António Pires

O verão já corre a meio gás em Echternacherbrück, povoação alemã separada da cidade luxemburguesa de Echternach pelo rio Sûre. “Aqui o turismo é uma atividade importante e o parque de campismo já está cheio de holandeses e belgas, mas nada que se compare com os anos anteriores”, diz de trás do balcão do Saint Liberius um português de Vieira do Minho chamado Rui Melo.

É simultaneamente um bar, um restaurante e uma discoteca – que foi renovada antes da pandemia e ainda não abriu portas. No piso superior há uma série de quartos alugados a trabalhadores da construção civil, sobretudo portugueses e romenos. “Se isto torna a piorar”, diz ele também, “toda a gente diz que se vai embora de vez. E depois, quem é que fica para trabalhar no Luxemburgo?”

Foto: António Pires

Também deste lado a povoação vive quase exclusivamente para o Grão-Ducado. “São homens das obras e mulheres que trabalham em lares”, diz Rui Melo. “Quando a fronteira foi fechada durante o estado de emergência, a economia dos dois lados caiu, porque as pessoas faziam as compras de casa de um lado, punham gasolina no outro, e, mesmo que não ganhassem muito, lá iam compondo as coisas.” Os fronteiriços, opina ele, estão no fundo da cadeia, são os mais pobres, que precisam de engenho para remediar as faltas.

A maioria dos seus conterrâneos vai abdicar este ano das férias em Portugal. “Preferem esperar para ver o que acontece.” Diz que o receio maior é agora o outono, quando a gripe sazonal e a Covid-19 se juntarem no tempo. “É se calhar nessa altura que vamos ter os autocarros cheios para Portugal, sabe? Quando as coisas estiverem piores é que vamos ter os emigrantes a viajar de um lado para o outro. Mas o que é que eles podem fazer? Se vier um segundo confinamento, se vier um novo fecho de fronteiras, ninguém sabe como sobreviver. Não é só pagar a casa, as contas, a comida. É que fica tudo sem ar para respirar.”  

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