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"Sinto-me luxemburguês e sou português. Esta é a minha casa"

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  • “Não estamos aqui de passagem”
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"Sinto-me luxemburguês e sou português. Esta é a minha casa"

"Sinto-me luxemburguês e sou português. Esta é a minha casa"
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"Sinto-me luxemburguês e sou português. Esta é a minha casa"


por Madalena QUEIRÓS/ 09.06.2022

Foto: Steve Eastwood

Paulo Aguiar é vereador em Differdange, a terceira maior cidade do país. Um percurso construído a pulso. Conheça mais um português que dá cartas no poder local no Luxemburgo.

Tinha 17 anos quando chegou ao Luxemburgo e apenas o 9° ano de escolaridade. Hoje, Paulo Aguiar é vereador em Differdange, a terceira maior cidade do país. Um percurso construído a pulso. Recorda que quando chegou “a integração na escola foi difícil, por causa das línguas, o que tornou difícil encontrar um grupo de amigos e fazer parte da comunidade luxemburguesa”.

Hoje com 44 anos sente-se completamente integrado. Tem dupla nacionalidade desde 2019. E aconselha todos a fazer o mesmo caminho. “Sinto-me luxemburguês e sou português e não tenho nenhuma vergonha de o dizer alto e bom som. Vivo no Luxemburgo, casei-me no Luxemburgo, os meus filhos estão aqui na escola, pago impostos no Luxemburgo e quando acabam as férias regresso ao Luxemburgo. Porque é que não hei de ser luxemburguês?”. A ligação a Portugal fica para sempre. “No mês de agosto estou lá batido e se não tiver a minha praia… só ao descer do avião e sentir o cheiro a gasolina nos aviões parece que me sinto outro. Mas eu também sou português, mas estou no Luxemburgo porque é que não hei de ser luxemburguês? Eu faço parte integrante disto!”.

Quando chegou começou por frequentar cursos de francês e inscreveu-se numa escola na Bélgica para continuar a estudar. A paixão pela Animação levou-a a fazer uma formação de animador na Maison des Jeunes em Esch. Ao mesmo tempo trabalhava numa fábrica. Depois teve conhecimento de um programa de ajuda à criação de emprego do Serviço Nacional da Juventude. Esteve um ano no Ponto Informação Jovem em Pétange, “onde conheci um dirigente extraordinário que me incentivou a continuar a minha formação e a aprender o luxemburguês”. No final da formação disse-lhe agora “vai voar”. Um encontro que o levou a formar-se em Educador Especializado em Ciências Sociais.

Foto: Steve Eastwood

No emprego seguinte cruzou-se com Roberto Traversini, que “estava muito metido na política e que depois de ter ouvido o meu percurso me convidou para trabalhar com ele na Comissão de Integração em Differdange, onde desenvolvi muitos projetos”. Mais um encontro com uma personalidade que determinou o seu futuro quando tinha 33 anos. Nesta função começou por desenvolver projetos para a integração, “ouvir as pessoas, perceber onde estavam as dificuldades e em função disso desenvolver projetos para resolver os seus problemas”. Uma das iniciativas foi criar o Wok, “um serviço de apoio às pessoas que chegam do estrangeiro e que têm mais dificuldades em falar, onde se podem desenvolver projetos pessoais e coletivos”. Para além do Serviço de Integração que acolhia e acompanha as pessoas. “Por exemplo quem acabou de chegar e está com dificuldade em escolarizar as suas crianças, tem alguém que o acompanha individualmente na integração”, sublinha Paulo Aguiar.

Depois Roberto Traversini foi eleito burgomestre e continuou a desenvolver projetos como o Festival das Culturas. Nas eleições de 2017, Paulo Aguiar foi eleito o 7° Conselheiro Comunal pelos Verdes. “Não estava nada à espera!”, confessa.

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“Inclusão” em vez de “integração”
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Foto: Steve Eastwood

Prefere falar de “inclusão” a “integração”. Um processo que leva a que as pessoas “se sintam em casa, porque estamos mesmo em casa”, garante. O que “significa estarmos integrados num país onde temos tudo”. “É preciso encontrar soluções para aquilo que nos falta e para isso as pessoas devem comunicar até através de línguas diferentes, mas sem ter receio ou dificuldades”. Mas para a integração “aprender luxemburguês é extremamente importante, porque não podemos esquecer que estamos no Luxemburgo”.

Reconhece que essa “é uma tarefa extremamente difícil”. “Como é que podemos fazer depois de trabalhar oito horas a dez horas por dia, ainda termos a cabeça, mas há que encontrar a melhor solução para nos adaptarmos”, sugere. Porque “se vivemos numa zona mais diversificada, vai ser mais difícil. Se falamos todos os dias português com quem vamos aprender?”, diz. “Para mim foi mais fácil porque sempre trabalhei num ambiente em que se falava luxemburguês”, acrescenta. Mas “para dar esse passo há que encontrar as formas de o fazer, em termos profissionais deveria haver mais maneiras de poderem aprender a língua, o que não é fácil, porque é uma língua extremamente difícil”, reconhece. Por exemplo poderiam desenvolver 'cafés de langues' onde todas as semanas durante uma hora se falam.

Tem pena que nas muitas atividades culturais promovidas na cidade “temos pouca participação da comunidade portuguesa”. Neste momento em termos de projetos transversais “vamos ouvir as pessoas, saber quais as necessidades para podermos montar os projetos”. “Como câmara temos que saber o que precisam as pessoas para responder às necessidades”, diz.


portraits / Foto: Gilles KAYSER
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Com nove mil portugueses em cerca de 29 mil habitantes, na cidade vive-se “o Portugal dos pequeninos”. E há festas para não esquecer as origens. Dia 18 de junho há a festa dos Santos Populares e no mês de julho a festa do imigrante.

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“Não estamos aqui de passagem”
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Foto: Steve Eastwood

“Pouco interesse” é a razão que aponta para a baixa participação política dos imigrantes portuguesas nas eleições comunais. “Lembro que os meus familiares diziam na altura: “Este país não nos pertence e não temos nada que estar aqui a votar. E infelizmente essa ainda é a opinião de muita gente hoje em dia”, sublinha Paulo Aguiar. Uma ideia completamente errada. “Porque antes ainda se podia pensar vamos ficar aqui até à reforma e depois vamos embora. Mas hoje em dia acabamos por ficar, porque os nossos filhos ficam e os nossos netos também ficam”. 


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O que significa que “não estamos aqui de passagem”. Por isso “a nossa participação deveria ser ativa, construtiva”. Depois há outra questão é que o voto dos estrangeiros é voluntário, enquanto que os “luxemburgueses são obrigados a votar”. Mas os estrangeiros que se inscreverem depois são obrigados a votar o que pode ser desmobilizador. Para aumentar a participação dos portugueses é preciso “avançar com campanhas de sensibilização que é o que vamos fazer”. Porque essa obrigação implica que “se não vierem votar têm uma penalização e direito a prisão, é o que está escrito na lei”.

Numa cidade em que mais de metade da população é estrangeira, os números para as eleições de 2023 “indicam que temos 10.509 eleitores luxemburgueses e 1609 eleitores estrangeiros, o que é muito pouco. Quanto a eleitores potenciais atualmente temos 4986, se se mantiver a obrigatoriedade de cinco anos obrigatórios de residência para um estrangeiro votar. Mas se a Câmara dos Deputados levantar a obrigação dos cinco anos de residência, o número de eleitores potenciais não luxemburgueses chega aos 11.113, o que é equivalente aos eleitores luxemburgueses”.

Foto: Steve Eastwood

Neste momento “estamos a trabalhar para ter representantes do povo e para mim é extremamente importante que as pessoas tenham a consciência que vão eleger uma pessoa que os vai representar”. “E o que mais me incomoda são as pessoas que criticam e têm todo o direito de criticar, mas depois não participam”, desabafa.

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O vereador das soluções
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Foto: Steve Eastwood

Reconhece que os portugueses têm imensos problemas de integração. “A questão da língua, a questão da escola, porque existem muitos pais que não acompanham os filhos na escola por dificuldades na língua, ou porque trabalham”. Mas aconselha a todos os pais que não consigam acompanhar os miúdos a “procurar alguém que os apoie e não deixar que eles estejam entregues a si mesmos”. Situações que continuam a acontecer. “Criei um serviço de juventude para os apoiar e acompanhar. Temos quatro casas de apoio a Jovens em Differdange que desenvolvem projetos de apoio educativo destas crianças o que é fenomenal, porque em Esch só há uma”. 

Outro dos problemas é a “precariedade no emprego que também gera problemas de integração. Depois “há problemas financeiros, de emprego e sociais”. “Há muitos portugueses aqui que estão numa situação mais precária, têm dificuldades financeiras” e têm mais dificuldade em conseguir habitação. Paulo Aguiar sublinha que estão a trabalhar nas soluções.


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“Aqui na Câmara acabamos de construir um bloco de 80 apartamentos e cerca de 32 foram vendidos a um preço mais baixo e agora vamos alugar os restantes” sem olhar à nacionalidade das pessoas. Depois aconselha: “se as pessoas se sentem discriminadas devem apresentar queixas”. Mas em termos profissionais “nunca senti essa discriminação”. “Se me falarem em discriminação entre mulheres e homens, aí ainda há muito trabalho a fazer. 

E a igualdade de género é uma das prioridades e “temos que continuar a fazer campanhas para os adultos, mas temos que começar com os mais pequenos na escola e aí é que tem que se começar a jogar a igualdade de oportunidades. E depois há que sensibilizar os homens para a questão da igualdade das oportunidades. “Como sensibilizar o género masculino senão estão incluídos nos debates, nas discussões e nas festas”, salienta. “Por exemplo na polícia ainda só temos 15% de mulheres, como e que é possível, quais são os entraves?”. O problema é que “muitos homens não têm consciência que existe essa “discriminação de género”.

Paulo Aguiar está sempre pronto a ajudar e o seu telemóvel não para de tocar enquanto falamos. Do outro lado da linha podem estar os mais diversos pedidos.

E o futuro? “Tenho a ambição de continuar a trabalhar para a população de Differdange e pela integração e para que as pessoas se sintam em casa, porque estamos em casa”, sublinha. E quem não se sente em casa tem que perceber porque não se sente em casa e quais as dificuldades.


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“Se é um problema de língua? Temos cursos que são feitos à noite. Têm problemas de fazer à noite? Vamos tentar arranjar uma solução. Querem fazer desporto? Temos uma cidade com mais de 40 associações desportivas. E a melhor forma de integração é o desporto. Porque quando lá chego tanto falo luxemburguês, como o francês, como o inglês e se for preciso ainda aprendo croata. Porque as pessoas só querem é fazer desporto juntos”, salienta.

Outro exemplo de integração é o Festival das Culturas, “porque o que nos reúne como povos é comer e beber e ouvir música”. Mas não tem dúvidas que “os portugueses deveriam ser mais participativos”. O desporto e a cultura são, na sua opinião, as principais formas de integração.

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