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“Ser negro no Luxemburgo”. A Conferência que chocou a ministra da Integração
Luxemburgo 2 4 min. 21.11.2019 Do nosso arquivo online

“Ser negro no Luxemburgo”. A Conferência que chocou a ministra da Integração

“Ser negro no Luxemburgo”. A Conferência que chocou a ministra da Integração

Foto: Imagem utilizada para promover o debate
Luxemburgo 2 4 min. 21.11.2019 Do nosso arquivo online

“Ser negro no Luxemburgo”. A Conferência que chocou a ministra da Integração

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
O Luxemburgo está no pódio dos países mais racistas da Europa. A conclusão da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia está na origem da primeira conferência sobre o tema no Grão-ducado. A ministra da Família e da Integração desvaloriza. A única oradora negra da mesa fala num estado de negação preocupante.

“Perdi o meu cartão de identificação". O testemunho é real. Faz parte da coletânea que a investigadora Mirlene da Fonsenca, luxemburguesa de origem cabo-verdiana, levou a debate na conferência "Ser negro no Luxemburgo", promovida pela Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI). "Deve estar a falar da autorização de residência", respondeu a funcionária dos serviços luxemburgueses que, por duas vezes recusou aceitar, que uma negra tivesse direito a mais no país onde perto de 170 nacionalidades convivem no centro da Europa.

Foto: ASTI

Negação de Estado

Estas e outras histórias chocaram a ministra da Família e da Integração, Corinne Cahen, a governante que não compreende "como é que em pleno século XXI se discrimina alguém pelo físico" e desvalorizou o estudo da Agência dos Direitos Fundamentais (FRA) que coloca o Luxemburgo no 2° lugar dos países com mais alta perceção de racismo contra a comunidade negra, em comparação com os outros 12 analisados no inquérito.

Confrontada com os casos apresentados pela plateia, Cahen desconversou. Invocou o trabalho do Centro para o Tratamento Igualitário e até o inquérito do Observatório da Discriminação que só desde 2012 e 2014 começou a fazer referência "à etnia ou à cor de pele" quando o assunto é o racismo e a xenofobia.

Numa das intervenções, aconselhou os que se sentem discriminados a trabalhar atitudes de empoderamento. Incrédulo, o autor do estudo, o irlandês Michael O’Flaherty, reduziu a proposta à ideia de que “não se pode pedir a um negro que passa fome uma atitude desse género”.

Certo é que 52% dos negros inquiridos no Luxemburgo pela FRA diz ter sido vítima de racismo no país nos últimos cinco anos. Uma percentagem muito acima dos 30% da média europeia e que só fica abaixo dos 63% registados na Finlândia. No Grão-ducado, a maioria dos casos de racismo acontece no local de trabalho ou na escola. O acesso à habitação é outra das dificuldades de integração da comunidade que diz também, sentir na pele, discriminação e violência policial.

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Brancos Costumes

Composto maioritariamente por brancos, o painel escolhido para dar voz aos desafios com que os negros se deparam num dos países mais ricos da Europa foi escolhido “para não maquilhar uma realidade que não existe” e “pôr as pessoas a questionar”, com explicou ao Contacto o dirigente da ASTI, Sérgio Ferreira.

Além do moderador, só Antónia Ganeto da associação Finkapé falou do assunto na primeira pessoa. Brancos, nem o autor do estudo nem o presidente da Comissão Europeia contra o Racismo e Intolerância (ECRI), Paul Lehners, minorizaram o racismo à experiência pessoal como aconteceu com a ministra. De resto, ambos mantiveram uma postura crítica em relação ao tratamento que a governante quis dar à questão.

De origem cabo-verdiana, Antónia, há mais de três décadas em terras de Grão-duque, diz que “quando estamos no nosso mundo e não somos confrontados com a discriminação, temos tendência para entrar numa realidade paralela” e alerta para o estado de negação que “perpetua e agrava” o racismo que Jean Paul Lehners considera “estrutural em vez de aberto e direto”.

O presidente ECRI vinca que há muito a fazer para solucionar os comportamentos xenófobos. Além do reforço do Centro para a Igualdade de Tratamento insiste que a polícia tem de ser educada para “não perpetuar crimes de ódio”. Numa proposta mais ambiciosa, Lehners quer a Declaração dos Direitos do Homem ensinada “da cresche à universidade” porque, defende, “se há uma violação destes direitos, é preciso saber o artigo que foi violado”.

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“Dedo na ferida”

Confrontado com este estudo, o embaixador de Cabo Verde no Luxemburgo, Carlos Semedo diz que, “apesar dos casos singulares, não se pode generalizar”. Espera uma resposta célere das autoridades luxemburguesas, mas prefere falar da “boa integração dos cabo-verdianos”. Diz-se confiante e que, “em abono da verdade”, tem o feedback que a comunidade que representa “é muito amada e muito estimada” no Luxemburgo.

Mais à frente encontrámos Lino Varela. O marketeer que também trabalha diretamente na integração dos cabo-verdianos com associações sediadas no Luxemburgo desvaloriza o facto de ter visto maioritariamente brancos a discutir o racismo que assume já ter sentido na pele. Lamenta a ausência de soluções do debate, apesar de considerar “de extrema importância que se fale no assunto e se ponha o dedo na ferida”. Cita Nelson Mandela para explicar que mudança deve começar pela Educação. “Em casa e na escola”, sublinha. “Mas principalmente em casa porque, apesar de não sermos obrigados a gostar uns dos outros”, começa, “não temos de pensar que temos mais direitos porque somos de uma cor, de um partido político ou de uma determina religão. É importante pensar e compreender que não temos mais ou menos direitos que o outro por sermos diferentes”. 


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