Escolha as suas informações

"Se os estrangeiros pudessem votar, os problemas na educação eram resolvidos mais depressa"
Luxemburgo 8 min. 08.02.2017

"Se os estrangeiros pudessem votar, os problemas na educação eram resolvidos mais depressa"

O professor Jean-Jacques Weber, especialista em educação, é autor do livro "Language Racism"

"Se os estrangeiros pudessem votar, os problemas na educação eram resolvidos mais depressa"

O professor Jean-Jacques Weber, especialista em educação, é autor do livro "Language Racism"
Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 8 min. 08.02.2017

"Se os estrangeiros pudessem votar, os problemas na educação eram resolvidos mais depressa"

Apontar o dedo a quem não fala uma língua pode ser uma forma camuflada de racismo? O professor Jean-Jacques Weber defende que sim. O docente da Universidade do Luxemburgo é o autor do livro “Language Racism” (“O racismo da linguagem”), uma denúncia da xenofobia que não ousa dizer o seu nome.

Apontar o dedo a quem não fala uma língua pode ser uma forma camuflada de racismo? O professor Jean-Jacques Weber defende que sim. O docente da Universidade do Luxemburgo é o autor do livro “Language Racism” (“O racismo da linguagem”), uma denúncia da xenofobia que não ousa dizer o seu nome. Publicado em 2015 pela editora britânica Palgrave Macmillan, o livro tem poucas referências ao Luxemburgo e passou despercebido no país. Nesta entrevista, o professor aponta casos de discriminação linguística no Grão-Ducado, a começar pela educação.

No seu livro denuncia uma forma encoberta de racismo. De que modo se manifesta?

Exprime-se por questões relacionadas com a língua. As pessoas falam cada vez menos de raça: em vez disso, recorrem a outros elementos culturais, como a religião ou a língua. Vemo-lo na sociedade luxemburguesa, com a discussão sobre as línguas, que frequentemente esconde ideologias nacionalistas.

Podemos ver nas petições sobre a língua luxemburguesa uma forma de xenofobia?

Sim, absolutamente. A discussão sobre as línguas tem pelo menos um século, com a chegada dos italianos. Já nessa altura havia um campo nacionalista que insistia na importância do luxemburguês e outro que defendia o trilinguismo. Encontramos a mesma discussão nas petições: há uma petição que insiste no luxemburguês, mostrando tendências nacionalistas, com o discurso de que é uma língua em perigo que é preciso defender. E uma pessoa pergunta-se: trata-se de defender a língua, ou de se defender de pessoas que falam outros idiomas, nomeadamente francês? O que me incomoda é o facto de se ter posto duas línguas em confronto: é uma batalha entre o luxemburguês e o francês, que se tornou a língua a combater. E aqui há uma tendência racista e xenófoba, porque a maioria dos estrangeiros e fronteiriços fala francês. O mais interessante nestas discussões é que nunca se fala no alemão. É tabu.

Porquê?

Nesta discussão sobre as línguas, o que me parece importante é o impacto na escola: é preciso que o sistema educativo garanta hipóteses de sucesso a todas as crianças. Por enquanto, é um falhanço, e porquê? Por causa do alemão. Mas não podemos falar disto, porque os luxemburgueses, que são o grupo dominante, não têm dificuldades com o alemão. Eu próprio, quando entrei na escola primária, nos anos 60, falava luxemburguês em casa, e quando fui escolarizado em alemão não tive problemas, porque era como aprender uma variante, como o suíço-alemão. A lógica era que, se falamos luxemburguês em casa (na altura considerado um dialeto), depois na escola aprendíamos alemão. Isto não mudou.

Os alunos continuam a aprender a ler e a escrever em alemão.

Sim, mas isto deixou de funcionar. É um sistema que foi concebido no final do séc. XIX para os alunos que falavam luxemburguês em casa. Mas agora, nas salas de aula, tudo mudou: há uma heterogeneidade do ponto de vista linguístico. Há crianças que falam outras línguas em casa, mas não falam luxemburguês. Alguns aprendem luxemburguês nas creches e no pré-escolar, mas de repente, quando chegam à primária, têm de aprender a escrever em alemão – uma língua que não está presente nem em casa, nem na sociedade.

Das três línguas oficiais, é a menos falada no mercado de trabalho.

E, no entanto, é nesta língua que se ensina as crianças a ler e escrever e em que são ensinadas as matérias mais importantes. Isto não pode funcionar. Os alunos portugueses, que falam português em casa e muitas vezes também francês e luxemburguês, não falam alemão. O alemão é completamente novo para eles, e de repente, quando chegam à escola, têm de aprender a ler e a escrever nesta língua. Sabemos deste problema desde que os portugueses começaram a chegar ao país, nos anos 70, e apesar disso nada foi feito. É o insucesso escolar pré-programado, e não há vontade política para mudar.

Acha que a alfabetização devia ser feita em luxemburguês?

Porque não? Se desde os anos 80 se insiste que o luxemburguês é uma língua independente do alemão, a razão de ser para recorrer a ele como idioma de alfabetização desaparece. A alfabetização pode ser feita em luxemburguês, ou, porque não, em várias línguas, como na Escola Internacional de Differdange. O que é certo é que o sistema assim não funciona.

No livro, defende que o racismo não é só cognitivo, também pode ser institucional. Esta ideologia em relação às línguas tem outras implicações na sociedade? Por exemplo, a lei da nacionalidade exige conhecimentos de luxemburguês, quando há três idiomas oficiais.

A política, quando confrontada com estes movimentos, como o da petição a favor do luxemburguês, tenta dar resposta aos medos das pessoas e fortalecer o idioma. Com isto, na lei da nacionalidade tomou-se a decisão de determinar que só o luxemburguês será tido em conta. A ASTI [Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes] defendeu uma posição mais aberta, sem sucesso.

E na educação?

A questão que se põe é como reformar um regime de ensino que não funciona. Quando fizemos um estudo sobre as línguas, há sete anos, entrevistámos famílias portuguesas, e concluímos que eram todas extremamente multilingues. Além de português, falavam francês e muitos também luxemburguês, mas em nenhuma destas famílias se falava alemão. O ensino devia ser construído em função dos conhecimentos que as crianças trazem. Escolher o alemão como língua principal é a pior opção para os alunos que em casa falam línguas romanófonas, não só os portugueses, mas também os espanhóis, franceses, italianos e os que falam crioulo cabo-verdiano. É isto que é preciso mudar. Não defendo que o alemão seja eliminado, mas a função que desempenha atualmente é a principal barreira para os estrangeiros, é um método de exclusão. São estas questões que deviam ser discutidas, e não o uso do luxemburguês e do francês.

Por que é que o sistema não muda?

Posso contar uma história relacionada com a minha experiência. Nos anos 70, dei aulas numa escola profissional em Bonnevoie, e tive dos alunos mais inteligentes de toda a minha carreira, muitos de origem portuguesa. Eu perguntava-lhes: “Vocês gostam tanto de línguas, são tão inteligentes, por que é que estão aqui?”. E a resposta era sempre a mesma: “Por causa do alemão”. Não tinham sido aceites no liceu clássico. Isto foi no final dos anos 70. Conhecíamos o problema, sabíamos que o sistema não funcionava, e a situação não mudou nestes anos todos, tirando pequenas mudanças, como a Escola Internacional de Differdange. É chocante. Eu imaginava que as coisas teriam mudado nos anos 80, mas não. Suponho que, como estas pessoas não têm direito de voto, não havia interesse político em ouvi-los. Nesta escola profissional, os professores escreveram relatórios ao Ministério da Educação que devem ter acabado na gaveta. Houve imensas reformas na educação, mas a reforma da língua de instrução só começou em 2016, com a abertura da escola de Differdange.

É uma boa iniciativa?

É uma boa iniciativa, mas se continuar a ser uma escola à parte, não vai servir para grande coisa, além de ajudar a centena de alunos inscritos. Para mim este é o modelo que devia servir para todas as escolas no Luxemburgo. Esta flexibilidade devia existir em todo o país.

O ministro da Educação apresentou recentemente o projeto das creches bilingues, em francês e luxemburguês. É uma boa ideia?

É uma excelente ideia e é um reflexo da nossa sociedade. Uns falam mais luxemburguês, outros mais francês, mas são as duas línguas mais presentes na nossa sociedade. É óptimo habituar as crianças muito cedo a estas línguas. Mas há sempre um “mas”: o que é que vai acontecer a seguir? Preparamos as crianças em francês e luxemburguês, e depois, no primeiro ano da primária, dão de caras com o alemão. Não é possível! É preciso continuidade, uma visão de conjunto. Não se pode manter um sistema educativo que não funciona, que para mim se tornou quase racista, no sentido lato do termo.

Falou da importância do direito de voto para os estrangeiros. O “não” esmagador no referendo também pode ser visto como uma forma de xenofobia que não ousa assumir-se?

Sim, absolutamente. Qualquer discurso racista começa com “eu não sou racista, mas...”. E no referendo houve casos assim. Uma leitora escreveu uma carta ao Wort em que dizia: “Não somos racistas, só não queremos dar o direito de voto aos estrangeiros porque não queremos que o francês se torne mais forte. Foi um voto contra a língua francesa e não contra os estrangeiros”. Infelizmente, tudo isto está ligado. Penso que foi um erro político fazer um referendo sobre esta questão, que era tão importante. Se os estrangeiros tivessem obtido o direito de voto nas legislativas, estes problemas, como a educação, seriam resolvidos muito mais depressa. Felizmente, com a dupla nacionalidade, há cada vez mais pessoas a poder votar, mas o processo é muito mais lento.

[...]

Paula Telo Alves

Leia a entrevista na íntegra nesta edição do Contacto.


Notícias relacionadas

Ministro da Educação: "Há três anos que propomos às autoridades portuguesas que reorientem o português para o pré-escolar"
É a primeira vez que o ministro da Educação do Luxemburgo fala sobre o fim dos cursos integrados em Esch-sur-Alzette, e a mensagem é clara. O ministro quer que os cursos integrados no ensino primário sejam substituídos por intervenções apenas no pré-escolar. Uma proposta que se aplicaria a todo o país e que representaria o fim dos cursos integrados de língua e cultura portuguesa no ensino primário luxemburguês.
Lição n°5: Escola Internacional deDifferdange recebe primeiros alunos
A Escola Internacional de Differdange (EIDD) começa a funcionar na segunda-feira, dia 12 de Setembro. Os alunos das primeiras nove turmas chegam este mês e, gradualmente, virão os restantes 1.400 até 2018, ano em que a escola deverá estar definitivamente concluída. Para este primeiro ano lectivo foram contratados 18 professores.
Os portugueses são a segunda nacionalidade mais representada na nova escola, com 25 alunos entre os 110 inscritos. Apesar disso, por falta de interesse na língua portuguesa, a escola arranca sem aulas de português no primário