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Se os emigrantes falharem agosto o que será de Portugal?
Opinião Luxemburgo 3 min. 30.07.2022
A fava

Se os emigrantes falharem agosto o que será de Portugal?

Aldeia de Baião.
A fava

Se os emigrantes falharem agosto o que será de Portugal?

Aldeia de Baião.
Foto: Octávio Passos/Lusa
Opinião Luxemburgo 3 min. 30.07.2022
A fava

Se os emigrantes falharem agosto o que será de Portugal?

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Ir 'lá abaixo' é uma circunstância determinante da vida portuguesa. Tantos para os que partem dos países de emigração como para os que os recebem em casa.

Vais lá abaixo? A primeira vez que me fizeram essa pergunta fiquei meio confuso. Lá abaixo pode ser muita coisa. Estar no centro da cidade e ir ao Grund é ir lá abaixo. Descer a casa da Ari ou do Bubu, meus vizinhos do piso térreo, é ir lá abaixo. Ir a Esch-sur-Alzette também. Mas, para um emigrante português no Luxemburgo, a expressão tem um sentido cunhado durante décadas. É ir a Portugal, visitar as raízes.

Nestas férias não vou lá abaixo. Primeiro porque gosto sinceramente de passar o verão no Luxemburgo, quase tanto como sinto difíceis os dias de inverno. Os dias estivais aqui são excecionalmente longos, há festivais e concertos e coisas a acontecer, e a vida corre ligeira, sem filas nem apertões. Segundo, porque em junho passei uma boa temporada em Lisboa – e acredito que esse é o melhor mês para se estar na capital do meu país. Depois, porque sei que tenho pouco ou nenhum descanso quando volto ao meu país de origem – entre jantares com amigos, jantares de família, festas improvisadas e papeladas para tratar, guardo pouco ou nenhum tempo para repouso.¨

A chegada dos emigrantes nas férias é muitas vezes a tábua de salvação do interior de Portugal.

Ir lá abaixo é uma circunstância determinante da vida portuguesa. Tantos para os que partem dos países de emigração como para os que os recebem em casa. Há as coisas celebratórias da época, sim, mas há um fenómeno sociológico mais vasto a acontecer no oitavo mês do ano. 

Os carros que atravessam Vilar Formoso carregados de novidades e regressam com o porta-bagagens cheios de produtos da terra. As aldeias que passam o ano vazias e agora se enchem de vida. A curiosidade pela vida de cá, pela vida de lá, e esta multidão de gente que se sente de ambas as partes – e ao mesmo tempo de parte nenhuma.

Nas aldeias, por esta altura, os mordomos das festas andam atarefados a preparar rifas para a quermesse, a recolher produtos para leilões de angariação de fundos, a perceber o que vão servir aos músicos convidados deste ano – que são cada vez menos os cantores pimba e cada vez mais as bandas dos camiões-palco que resolvem sozinho luz, cor, som e imagem. No país isolado e despovoado está prestes a começar uma festa de arromba.

Fui falando com vários amigos, percebi que são cada vez menos os que vão lá abaixo estas férias. Alguns preferem Espanha, outros vão para o Atlântico francês, alguns para a Turquia, para a Grécia ou Cabo Verde. E a sensação que tenho é que a imagem do querido mês de agosto, cheia de clichés e lugares comuns, está a dissipar-se. E isso não me deixa só triste, deixa-me preocupado.

A chegada dos emigrantes nas férias é muitas vezes a tábua de salvação do interior de Portugal. Cinco anos depois dos incêndios que varreram quase todo o centro do país, a promessa de combater o despovoamento não parece ter avançado um milímetro. As terras que se voltam a encher em agosto são as que passam os restantes 11 meses do ano num profundo isolamento. 

Vem agosto e vêm os emigrantes e lá se arranjam fundos para comprar cadeiras de rodas para os velhotes do lar, ou para construir um elevador para os que têm pouca mobilidade. Do alto da sua urbanidade, Portugal continua a ignorar o território. E sinto que, como eu, há cada vez menos gente a querer ir lá abaixo. Agosto é a alegria de uma boa parte do meu país. Mas é o espelho da sua tragédia, também.

(Grande repórter)

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