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Se o Luxemburgo é pacato, então atira-lhe punk

Se o Luxemburgo é pacato, então atira-lhe punk

Se o Luxemburgo é pacato, então atira-lhe punk

Se o Luxemburgo é pacato, então atira-lhe punk


por Ricardo J. RODRIGUES/ 28.02.2020

Foto: Sibila Lind

Jonathan estava habituado ao barulho pesado da cena underground no Peru. Quando chegou ao Luxemburgo não suportou os dias calmos do Grão-Ducado e partiu em busca de animação. Até que entendeu que a vida seria bem melhor se trouxesse um pouco de punk para a Europa Central.

Foi por causa de uma cassete dos Ramones que a vida deu uma volta. “Eu devia ter uns 12 anos e lembro-me que era sábado à tarde”, diz Jonathan Diez, hoje com 30. “Nunca tinha ouvido nada tão bom na vida, e depois comecei a descobrir os Sex Pistols, os Clash, os Blink-182. Aos 15 tive a primeira banda de punk, aos 18 a segunda, aos 20 anos formou com colegas da faculdade os La Bestia – que angariaria um relativo sucesso no Peru.

Na Lima onde cresceu, o punk estava tudo menos morto. A verdade é que Johnny – é assim que gosta de ser tratado – sempre foi um pouco antissistema. “Sou filho de um pai militar, passei a infância a ouvir falar do Sendero Luminoso, da ditadura de direita, e nisto fiz-me uma pessoa antissistema.” A música era uma parte disso, a outra era a literatura. “Gosto de escrever. Na escrita e no som gosto de desafiar os outros. Acho que é também por isso que tentei fazê-lo comigo mesmo.”

O problema é que eu sentia que os luxemburgueses viviam em letargia, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, sem grande alegria ou entusiasmo. Isto não era para mim.

Cresceu na capital peruana, e ainda hoje lhe fazem falta o barulho dos carros e o cheiro da fruta nas ruas. Estudou jornalismo, mas as melhores memórias são as dos ensaios com a banda: “juntávamos todos uns trocos para alugar um estúdio e ficávamos horas naquilo. Assim que entrei na universidade comecei a trabalhar numa revista alternativa de esquerda – não pagavam bem mas permitiu-me viajar pelo país e juntar dinheiro e comprar uma bateria. Até que, aos 21, decidi mudar de vida.”

Tinha estudado no Colégio Alemão, por isso dominava um pouco a língua. Um professor falou-lhe de uns cursos de humanísticas na universidade de Munique e ele achou que mudar para a Europa era um plano dos diabos. “Fiz logo um curso intensivo de alemão, mesmo que ainda não tivesse recebido resposta à candidatura. A 21 de outubro de 2001 cheguei a Munique e fiquei pasmado com o facto dos comboios passarem mesmo à hora certa. Parecia-me muito civilizado, mas também um pouco triste.”

Fez o curso em dois anos e voltou a Lima. Só que a vida peruana tardava em compor-se. Ao fim de um par de anos ganhava pouco, estava cansado dos mesmos circuitos e acabara de terminar a relação com a namorada. “A minha irmã vivia em Itália e decidi ir ter com ela, mas não nos demos muito bem. Um amigo da universidade estava no Luxemburgo a trabalhar como cozinheiro e resolvi ir ter com ele.”

Foto: Sibila Lind

Em janeiro de 2017, pisou pela primeira vez o Luxemburgo. Nas primeiras semanas estoirou o dinheiro que trazia em festas e saídas. Depois arranjou posto de empregado de mesa num restaurante peruano em Dudelange, e as coisas começaram a estabilizar. “O problema é que eu sentia que os luxemburgueses viviam em letargia, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, sem grande alegria ou entusiasmo. Isto não era para mim.” Com o dinheiro que tinha poupado, rumou a Madrid no final desse verão – “e que festa foram os meses seguintes, caramba.” Inscreveu-se num curso de escrita criativa, dava aulas de alemão para pagar as despesas, “mas ganhava pouco e passava demasiadas dificuldades.”

Ainda permaneceu um ano em Espanha, mas teve de render-se às evidências: ia voltar para o Luxemburgo e tentar construir um mínimo de estabilidade. Em setembro de 2018, conseguiu lugar num instituto de línguas na capital, a ensinar espanhol e alemão. Mudou-se para Dudelange, juntou-se com a namorada e alugaram casa. Em junho de 2019, quando bebia uma cerveja num bar, um rapaz luxemburguês virou-se para ele e perguntou-lhe: “Olha lá, tu não eras dos Los Bestia?” Era Pascal, um melómano apaixonado por punk, que o convidou para baterista numa banda, os Weakonstruction.

Agora podia gritar bem alto contra a vida pacata do Luxemburgo, ao mesmo tempo que se organizava e organizava o seu conforto. “E foi aí que percebi que era aqui que tinha de estar. Tão cedo não saio do Luxemburgo.”