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"Se não tivesse encontrado casa para dividir, o mais certo era estar na rua"

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"Se não tivesse encontrado casa para dividir, o mais certo era estar na rua"

"Se não tivesse encontrado casa para dividir, o mais certo era estar na rua"
Luxemburgo

"Se não tivesse encontrado casa para dividir, o mais certo era estar na rua"


por Ricardo J. RODRIGUES/ 25.11.2022

Diogo Almeida e Kotka Dialó no apartamento que partilham em Nierderkorn.Foto: Daniel Fragoso/Black Magic Tea

São estudantes universitários, trabalhadores em início de carreira, refugiados que esgotaram o prazo nos campos de acolhimento – mas não conseguem encontrar quartos a preços suportáveis para construírem as suas vidas. No meio da maior crise de habitação do país, muitas comunas tentam impedir o co-aluguer de casas. Histórias de sufoco e salvação em apartamentos partilhados.

Lamira Bangoura tem 27 anos, é guineense e estuda na Universidade do Luxemburgo.
Lamira Bangoura tem 27 anos, é guineense e estuda na Universidade do Luxemburgo.
Foto: Daniel Fragoso/Black Magic Tea


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O sufoco é sempre o início da história
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Lamira Bangoura chegou a um ponto em que quase desistiu de tudo. Há dois anos chegou ao Luxemburgo. Tinha acabado de fazer 25, na bagagem trazia um bacharelato feito na Letónia, e agora tinha a certeza de que a vida ia continuar a avançar ligeira. “Nasci na Guiné-Conakri, sou filho de um contabilista e de uma comerciante que se esforçaram muito para que eu pudesse vir estudar na Europa”, conta agora numa tarde fria de sábado em Dudelange. “Quando lhes liguei a contar que tinha entrado no mestrado de Estudos Parlamentares na universidade do Luxemburgo, eles explodiram de alegria. Mas, no dia em que cheguei, percebi que ia ser muito difícil sobreviver ficar aqui. E a única coisa que eu conseguia pensar era: como é que lhes vou contar que o sonho falhou?”

A inscrição no curso no Grão-Ducado tinha sido feita pela internet, a partir do Báltico – e uma das coisas que verdadeiramente lhe agradou foi o baixo preço das propinas. “Vi que havia residências para os estudantes da universidade e enviei um email a pedir colocação. Pensei que não deveria ter grandes problemas, afinal eu era um aluno internacional e é para acolher pessoas nesta situação que estes dormitórios normalmente servem”, conta. O valor não era barato: 450 euros por mês, mas havia de arranjar um jeito de amanhar-se. “Apanhei o avião para Bruxelas e o comboio para aqui. Quando estava mesmo a chegar à gare do Luxemburgo, recebi um email a dizer que não havia vaga para mim. Fiquei gelado, sem saber o que fazer.”

 Lembra-se de ter andado duas horas às voltas no cais, a pensar no que haveria de fazer à vida. Aproveitou a internet gratuita da estação e pôs-se a procurar soluções. “A melhor coisa que consegui arranjar foi um quarto num AirBnB ali perto, no bairro da Gare. Custava-me 70 euros por noite, mas pensei que podia ficar uns dias ali, inscrever-na na faculdade e encontrar uma solução em pouco tempo. Não podia estar mais enganado”, e, ao lembrar-se do desespero desses dias, deixa cair os ombros – como se revivesse toda aquela aflição uma e outra vez.

Visitou dezenas de quartos e estúdios. E, não só os preços eram muito mais altos do que ele seria alguma vez capaz de pagar, como lhe pediam o impossível. “Em quase todas as casas os proprietários pediam-me um CDI [contrato de trabalho por tempo indeterminado]. Eu explicava-lhes que era estudante, mostrava-lhes a inscrição na universidade, mas ninguém aceitava fazer um aluguer com as condições que eu tinha para apresentar. E, com isto, o tempo foi passando e eu fui entrando em desespero”, lembra.

Ao fim de 15 dias a viver no AirBnB da Gare, as suas reservas monetárias tinham-se esgotado. “Foi nessa altura que pensei que tudo tinha falhado, que me ia tornar sem-abrigo como tanta gente que eu via no bairro onde estava a viver”, lembra-se – e volta a emocionar-se. Tinha um amigo a viver em Bruxelas, e pediu-lhe para ir lá passar uns dias e decidir o que fazer. Acabou por ficar duas semanas, em que pôs todas as hipóteses. Talvez pudesse ficar a viver numa tenda para fazer o curso, os trabalhos haveria de cumpri-los na biblioteca da universidade, e podia tomar banho nas instalações de Belval. Ou talvez pudesse voltar à Letónia, porque o visto ainda não tinha caducado. Teria de desistir dos estudos, sim, mas pelo menos poderia tentar encontrar um trabalho e sobreviver. Talvez fosse melhor ligar aos pais e anunciar o fim do sonho, regressar à Guiné e esquecer os planos que os Bangoura tinham feito tantas vezes para ele em torno da mesa do jantar.

Sentia-se derrotado, sim, mas continuou à procura. “Eu tenho um objetivo, que é um dia regressar ao meu país com conhecimento e experiência que me ajudem a democratizar verdadeiramente as instuições guineenses, e atrás disso virá desenvolvimento, económico e humano”, diz. “Eu tinha de tentar tudo antes de desistir desta ideia, percebes? Durante duas semanas escavaquei toda a internet à procura de um teto, mas nada. E, quando estava quase a desistir, tive uma golpada de sorte.”

Foi no Facebook Adds que deu com um anúncio que propunha o aluguer de um quarto numa casa partilhada por 380 euros. “Ao início custou-me a acreditar que esta história pudesse ser verdade, pensei que poderia ser um esquema para me roubarem o dinheiro que eu já não tinha. Mas depois percebi que existia esta associação que alugava casas inteiras e depois dividia o valor total entre os inquilinos que alugavam os quartos. Inscrevi-me, fui parar a uma casa em Obscheid e demorava duas horas a chegar à escola, mas tudo bem. Em junho deste ano, mudei-me para esta casa em Dudelange, que partilho com mais cinco pessoas, e as coisas estão a endireitar-se”, e abre um sorriso quando diz isto.

Bangoura é bom aluno, conseguiu não perder um único ano com tanta insegurança, agora também trabalha a tempo parcial na Associação Luxemburguesa para o Diálogo Intercultural, como animador cultural. Sente que, a partir do momento em que descobriu o seu teto, tornou a subir a escada com que ele e a família tinham sonhado tantos anos antes em África. Às vezes pergunta-se quanta gente não desiste do Luxemburgo porque não consegue abrigo. “Se não tivesse encontrado casa para dividir, o mais certo era estar na rua”, afiança. E depois apressa as despedidas, que esta semana é a sua vez de limpar as áreas comuns da casa.

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Um sistema cruel
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Uma reunião do comité de gestão do projeto WG
Uma reunião do comité de gestão do projeto WG
Foto: Matic Zorman

Na noite da última quinta-feira, o comité de gestão do programa WG reuniu para perceber o estado de conservação das casas que tem a seu cargo. O nome do projeto é um acrónimo de Wohn Gemeinschaft, que em português significa qualquer coisa como “vida comunitária”, e integra uma associação chamada Life, que promove projetos sociais alternativos de habitação e mobilidade no Luxemburgo. “Temos neste momento 180 pessoas a viver nas nossas casas e apartamentos em regime de co-aluguer”, explica Gary Diederich, que uma boa parte do país conhece como porta-voz do partido déi Lénk (A Esquerda) – mas que também é o coordenador deste grupo. “E temos uma lista de espera de 540, o que dá bem para ter uma ideia da procura por habitação que hoje enfrentamos no país.”

O projeto WG nasceu em 2019 e administra 30 casas e 14 apartamentos em todo o país. “Aquilo que fazemos é contactar os proprietários que estão dispostos a alugar as suas casas e celebrarmos com eles um contrato em que garantimos o pagamento certo todos os meses e a manutenção dos espaços”, explica Diederich. “Depois, alugamos os quartos disponíveis em cada unidade a preços que se situam idealmente entre os 300 e os 600 euros, consoante o número de metros quadrados.” O valor inclui todas as taxas.

O coordenador do projeto, Gary Diederich
O coordenador do projeto, Gary Diederich
Foto: Matic Zorman

Quando começaram, não tinham mais de duas casas para oferecer, mas depois perceberam que havia um trabalho urgente para fazer no mercado da habitação. “A maioria dos proprietários recusa-se a alugar a mesma casa a várias pessoas, com receio de que estraguem as estruturas ou abandonem as instalações passado pouco tempo. Nós oferecemos garantias e com isso temos conseguido furar um bocadinho um mercado que é praticamente inexistente. Mas ele é francamente necessário para uma grande fatia da população”, explica.

O maior grupo que o projeto WG acolhe são jovens trabalhadores entre os 27 e os 35 anos. Sete por cento têm nacionalidade luxemburguesa, o que prova que este não é apenas um problema dos estrangeiros que residem no país. “Também temos 35 pessoas com menos de 27 anos, que na maior parte dos casos são estudantes na universidade e não têm lugar nos dormitórios nem conseguem arranjar alojamento de outra forma. E depois temos 50 pessoas a quem o estado deu o estatuto de refugiado e que não conseguem que nenhum senhorio lhes alugue uma casa. Sem uma morada, também não conseguem celebrar um contrato. É um ciclo vicioso que retira as oportunidades a quem quer construir a vida”, diz o coordenador da associação.

Se ao início, o grande trabalho do WG foi convencer os senhorios, hoje o esforço maior é o de convencer os municípios a aceitarem o registo destes cidadãos. “Em Bascharage, por exemplo, temos casas que podem albergar duas famílias e a comuna não aceita que elas se mudem para ali em regime de coabitação”, atira Natalie Reuland, outra das gestoras da Life. “Isto é particularmente estranho porque a comissão de ação social da autarquia nos convidou a explicar o nosso projeto e as garantias que oferecemos. Por um lado, parecem querer investir nesta ideia de solidariedade, por outro, impedem que ela seja efectiva.”

Natalie Reuland, do projeto WG.
Natalie Reuland, do projeto WG.
Foto: Matic Zorman

 Em 2020, os entraves ao co-aluguer de casas levaram dezenas de pessoas às ruas de Esch-sur-Alzette para protestar. O município anunciara que queria reservar-se ao direito de inspeção das casas que fossem arrendadas em regime de co-aluguer. O objetivo, dizia a autarquia, era impedir os abusos que estavam a tomar conta do mercado habitacional – e impedir situações em que uma casa declarada unifamiliar no PAG (Plano de Ordenamento do Território) fosse ocupada por vários inquilinos, ou que houvesse um cidadão a celebrar o contrato e depois subalugar quartos a vários outros. “Numa cidade universitária isto não fazia qualquer sentido e a comuna acabou por recuar. Mas a intenção mostra bem este paradoxo luxemburguês de querer tornar a habitação inacessível quando esse é precisamente o maior problema do país”, diz Gary Diederich.

A 14 de outubro deste ano, o ministério de Estado enviou ao Parlamento um projeto-lei que veio pela primeira vez tentar regular o sistema de co-aluguer no país. O documento tenta alterar o regime estabelecido pela lei 7642 do código civil, datada de 21 de setembro de 2006. O projeto estabelece um teto máximo para as habitações em regime de arrendamento – mas tem sido contestado por vários partidos por admitir valores demasiado altos, sobretudo em caso de obras de reparação nos apartamentos. Mas há algo que é uma novidade: a possibilidade de celebrar acordos de co-aluguer, caso os senhorios e inquilinos estejam de acordo com a ideia.

Para Natalie Reuland, o projeto traz uma vantagem séria: permite as inscrições individuais dos cidadãos na comuna e admite que os seus rendimentos sejam contabilizados individualmente, ao contrário do que acontece hoje. “Se eu estiver numa situação aflitiva e pedir apoios sociais, os rendimentos que passam a contar são os meus e não os de toda a gente que vive na minha casa”, explica. Mas também há um problema na nova lei. “Se um dos inquilinos abandonar a casa, são os outros que têm de assegurar a sua parte da renda. Isto dilata a situação em que vivemos hoje, em que os proprietários não correm risco algum. Se algo correr mal, é sempre aos inquilinos que cabe resolver o problema, mesmo que não tenham quaisquer responsabilidades”, opina. O sistema, diz ela, não avança por nenhum caminho de humanidade. “E a habitação, importa não esquecer, é um direito humano básico”, remata.

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Habitação ou morte
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Cenas da vida partilhada
Cenas da vida partilhada
Foto: Daniel Fragoso/Black Magic Tea

Na casa de Dudelange onde vive o estudante guineense Lamira Bangoura moram outros seis inquilinos: dois cabo-verdianos, uma portuguesa e dois sírios. Um deles chama-se Youssef Hassan, tem 44 anos e está aqui há seis. “Saí de Damasco em 2015, quando a guerra começou a ser guerra a sério”, conta agora à frente da porta de casa, onde vai fazendo pequenas reparações num carro que conseguiu comprar há meses – e a quem se entrega com uma paixão de primeiro namoro. Tem estatuto de refugiado aprovado pelo estado luxemburguês desde 2016, mas para ele encontrar casa foi todo um novo combate.

A sua salvação veio de um golpe de sorte. “Eu tinha ajudado um amigo militar a fugir do país e um dia as tropas vão a minha casa para me prender”, começa a contar, enquanto vai limpando as mãos sujas de óleo a um trapo envelhecido. A mãe ligou-lhe para que se pusesse ao fresco, e ele não hesitou nem um segundo. Entrou no carro e, uma hora depois, chegou ao Líbano. “Daí apanhei um avião para Istambul e fui até Ezmir, onde cruzei o Mediterrâneo num barco apinhado de gente”, recorda. As palavras são poucas e duras, prefere não explorar demasiado os sentimentos desses dias – ainda doem, afinal de contas.

Entrou pelas ilhas gregas, depois foram 15 dias a subir a Europa como conseguia – a pé, de autocarro, de comboio. “Só me voltei a sentir humano quando cheguei à Áustria”, conta. Um dos seus irmãos morava no Luxemburgo, e por isso voltou a fazer-se à estrada. Tinha receio de se sentir estranho num país em que não dominava nenhuma das línguas oficiais. Mas depois reconsiderou – ou se integrava ou mudava de rota. “Eu estava sozinho, podia arriscar. Muitos não têm a mesma sorte.”

Hassan passou um mês no centro de acolhimento, antes de o irmão lhe dar um quarto para dormir. Esperou oito meses até ver o seu estatuto de refugiado aprovado, tempo que lhe garantiu a possibilidade de aprender francês e tentar a sorte no Grão-Ducado. E depois começou nova aventura: encontrar um teto para si. “Tentei a sorte nos quartos por cima dos cafés, mas pediam-me centenas de euros por um habitáculo partilhado, pediam-me meses de caução, e eu não tinha dinheiro para isso”, lembra. Enquanto esperava pelo estatuto oficial de asilo, não podia segundo a lei exercer qualquer trabalho. “E toda a agente me pedia um contrato de trabalho, que eu não tinha. Mas depois também não podia celebrar contrato com ninguém por não ter morada. Era um pesadelo.”

A solução veio pela internet, quando viu um anúncio que dava a possibilidade de co-aluguer a preços acessíveis. “Estou aqui há seis anos, gostava de um dia poder sair e viver sozinho, mas sei que é impossível. É praticamente impossível encontrar um lugar neste país que custe menos de mil euros – e nem sequer estou a falar de um estúdio. Mas, pronto, pelo menos hoje tenho um teto. Consegui arranjar emprego por causa disso, ganho o ordenado mínimo, mas consigo fazer a minha vida”, diz abrindo os braços. Nem todos têm a mesma sorte.

Os refugiados são um dos grupos que enfrentam maiores problemas na hora de encontrar habitação. “Os campos estão cheios de gente que não encontra uma solução nem um sítio para onde ir”, diz Natalie Reuland. “Muitos acabam por ir parar às ruas.” Apesar de não existir uma contabilidade oficial do número de sem-abrigo no país, a associação Médicos do Mundo fala de um aumento generalizado da população que vive nas ruas. No relatório que publicou em julho deste ano, a organização revelava ter atendido 1.391 pacientes sem acesso a cuidados de saúde em 2021 – quase o dobro do ano anterior (771). Destes, 65 por cento não auferia de qualquer salário e 60 por cento não possuía a nacionalidade europeia.

Há casos verdadeiramente trágicos na luta pela habitação. “Temos muitos problemas por causa dos reagrupamentos familiares”, diz Natalie Reuland. “Os homens entram na Europa por um país, as mulheres e os filhos por outro. A junção da família é aprovada mas ficam a viver em lugares diferentes”, explica. Ao cabo de uns meses, os pais da família abandonam os campos de refugiados e tentam encontrar trabalho e casa para juntar toda a gente debaixo do mesmo teto. “Temos cada vez pedidos deste género no projeto WG”, diz a gestora da associação Life. “Havia este senhor da Eritreia que nos fez chegar um pedido, mas não tínhamos onde alojá-lo. Ele ficou a viver nas ruas e um dia não aguentou mais. Chegou-nos há uns tempos a notícia de que tinha cometido suicídio. É chocante. A luta pela habitação pode levar o ser humano ao desespero.”

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O tempo sem fim
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Fica em Niederkorn uma das primeiras casas que o projeto WG abriu no Luxemburgo. É um edifício antigo, com sete quartos e duas casas de banho. A vida comunitária, aqui, centra-se na cozinha, onde todos acabam por vir desaguar no final do dia de trabalho. As prateleiras dos frigoríficos e os armários foram divididos, há dois para cada inquilino. No final das refeições, toda a gente tem de lavar a loiça que sujou. Os turnos de limpeza nas áreas comuns são repartidos semanalmente – a principal preocupação é manter impecáveis as zonas de refeição e as casas de banho.

Diogo de Almeida tem 21 anos, é natural de Viana do Castelo, no norte de Portugal, mas passou a maior parte da infância aqui e, quando chegou aos 17 anos, viu-se sem sítio onde viver. “A minha mãe voltou a Portugal e eu ainda fiquei um tempo a viver em casa de amigos, mas claro que isso era uma situação provisória. Depois, como era menor, acabei por entrar num projeto de autonomização da Cruz Vermelha.” Esteve primeiro numa casa e depois num estúdio a aprender com outros jovens como gerir o dinheiro, manter uma casa, viver sozinho. Pelo meio, tinha aulas na escola técnica como assistente de vendas.

Aos 19 anos sentiu que estava preparado para se fazer à vida. Encontrou emprego como vendedor numa loja, o diabo era encontrar uma casa onde pudesse ficar. “Tinha andado a preparar-me durante anos para este momento, mas teto nem vê-lo”, lamenta. Um amigo falou-lhe do projeto WG e essa foi a sua safa. “Hoje faço trabalhos de canalização e estou bem, estou seguro no emprego. Mas, ao fim de dois anos, também quero ter o meu espaço”, revela. “Já é tempo de construir uma vida sozinho.”

Tem andado nos últimos meses à procura da autonomia, mas é difícil encontrá-la. “Aqui pago 325 por mês, já com as taxas. Fora não consigo encontrar um quarto por menos de 900, isso é certo. Eu ganho o ordenado mínimo, assim nunca mais conseguir sair daqui”, e ri-se. A solução, como muitos dos seus colegas de trabalho, é sair do Luxemburgo. “Vi uma casa para lá de Longwy, que custa 700 euros. Estou a pensar ir para lá. Vou demorar três horas por dia em transportes, mas é a única solução que encontro.”

 

Enquanto Diogo vai lavando a loiça, Korka Dialó começa a preparar o jantar. Tem 27 anos e é originário da Costa do Marfim, está a tirar um mestrado na universidade do Luxemburgo em Análise de Dados, e também ele não vê outra solução que não seja ficar ali. “Há pessoas a estudar em Belval e a viver para lá de Nancy, todos os dias demoram mais de duas horas a chegar à faculdade e outras tantas a voltar. “As condições aqui não são ideais, por isso acabo por passar o maior tempo possível na universidade, onde me posso sentar numa cadeira a escrever no computador, enquanto aqui só tenho uma cama”, exemplifica. Mas também sabe que há de ficar mais tempo. “Mesmo que encontre logo emprego no fim do curso, como é que eu vou começar uma vida profissional a pagar um preço exorbitante por uma casa? É impossível, não apenas para mim, e não apenas por ser africano. Podia ser português ou luxemburguês que a história seria a mesma. Se não fores proprietário, estás tramado.”

Se esta casa em Niederkorn está velha, há outra novinha em folha em Dippach que abriu portas em outubro – e Nadia Oushimimana é uma das quatro ocupantes. Ruandesa, tem 28 anos e uma formação em saúde pública. Chegou em 2018 com contrato para tomar conta das crianças de uma família canadiana-irlandesa e a primeira coisa que se lembra é de ter ido ao Auchan de Kirchberg logo depois de o avião ter aterrado no Findel. “Impressionou-me ver aquele supermercado com prateleiras tão cheias, era completamente diferente daquilo que eu estava habituada a ver em Kigali”, conta.

Ficou uns anos com as crianças, mas o seu sonho sempre foi trabalhar na área da saúde. “Em fevereiro de 2020 tive a equivalência da universidade daqui para trabalhar na minha área. Arranjei posto de trabalho numa casa de cuidados continuados de saúde e o sonho começou a tornar-se realidade”, diz. “Pelo menos era isso que pensava até ir procurar casa.” Lá vem a história do costume. “Pediam-me cauções de três meses. Pediam-me contrato definitivo mesmo sabendo que o período de experiência é obrigatório por lei. Tentaram enganar-me com apartamentos falsos. Eu vivi tudo até chegar aqui.”

Korka na sua casa em Niederkorn
Korka na sua casa em Niederkorn
Foto: Daniel Fragoso/Black Magic Tea

Oushimimana conseguiu vaga nas listas do projeto WG e agora está numa casa novinha em folha, onde paga 575 por um quarto grande. Juntamente com os demais companheiros de habitação, andam a falar como vão decorar as paredes. Querem todos comprar uma televisão para a sala, pendurar uns quadros, encher de almofadas o sofá. “Sabemos todos que vai ser difícil, para qualquer um de nós, um dia sair daqui. Para alugar uma casa sozinho tens de provar que és capaz de comprar tudo o que existe nas prateleiras cheias de um supermercado, mesmo que não precises daqueles produtos para nada. E se calhar nem isso chega.” Nisto, a rapariga escangalha-se a rir.

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