Escolha as suas informações

"Se não és bom a alemão e tens Pereira no apelido, vais diretamente para o técnico"
Luxemburgo 3 min. 07.10.2020 Do nosso arquivo online

"Se não és bom a alemão e tens Pereira no apelido, vais diretamente para o técnico"

"Se não és bom a alemão e tens Pereira no apelido, vais diretamente para o técnico"

Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 3 min. 07.10.2020 Do nosso arquivo online

"Se não és bom a alemão e tens Pereira no apelido, vais diretamente para o técnico"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Para o dirigente Carlos Pato, o apelido do aluno ainda influencia a tomada de decisão dos professores. Um estudo científico mostra que apenas 67% das decisões dos docentes em relação aos portugueses foram corretas. A autora do estudo explica.

“Se não és bom a alemão e tens Pereira no apelido, vais diretamente para o técnico, ou outra via, não és encaminhado para o ensino clássico”, diz ao Contacto Carlos Pato, secretário-geral do Sindicato dos Professores no Estrangeiro e professor há 48 anos, atualmente a lecionar na Universidade do Luxemburgo. 

Para este dirigente a discriminação dos professores para com os alunos com apelidos portugueses e de outras nacionalidades imigrantes ainda continua a existir, achando que como não dominam corretamente o alemão não conseguirão concluir com sucesso o ensino clássico. “Não faz sentido ser um professor a decidir o futuro escolar e de vida de um aluno de 13 ou 14 anos”, vinca Carlos Pato (na foto). O correto seria “existir um exame no final do fundamental” para avaliar se o aluno iria para o clássico, técnico ou modular. 

Embora esta decisão seja tomada pelo docente em conjunto com os pais do aluno, Carlos Pato alerta que os pais até podem não concordar, mas aceitam o que dita o professor “por medo de represálias” sobre os filhos. "Mesmo professores experientes podem ser influenciados involuntariamente por atitudes preconcebidas sobre a etnia dos alunos", realça um estudo da Universidade do Luxemburgo, realizado em 2016, sobre a decisão dos professores na transição do aluno para o ensino clássico ou técnico.


A dura batalha dos alunos portugueses numa escola que não os compreende
Porque continuam os alunos portugueses a sentirem-se "incompreendidos"? E os professores a decidir o seu futuro, baseados em noções "preconcebidas"? As respostas e as novas medidas do Ministério da Educação para combater o abandono escolar.

Capacidades subestimadas 

“Os estudantes luxemburgueses foram corretamente avaliados em 90% dos casos, enquanto que para os estudantes portugueses apenas 67% das decisões foram corretas, tendo as suas capacidades académicas sido subestimadas e sobrestimadas”, indica o referido estudo, realizado pela investigadora Ineke Pit-ten Cate e duas colegas, intitulado "Exatidão das decisões de acompanhamento dos professores: Efeitos a curto e longo prazo da responsabilização". 

Clique para ampliar
Clique para ampliar

“Nos nossos estudos, mostramos que os professores têm expectativas diferentes para diferentes grupos de estudantes e que estas expectativas generalizadas podem influenciar a sua tomada de decisão para os estudantes individuais que pertencem a estes grupos. Isto ocorre especialmente quando os professores têm de tomar decisões sob pressão de tempo e quando as informações disponíveis confirmam a expectativa”, explicou ao Contacto Ineke Pit-ten Cate, sublinhando que o estudo se baseou em alunos fictícios.

As expectativas dos professores

“Como os dados do Luxemburgo têm demonstrado com consistência que os estudantes filhos de imigrantes têm um desempenho menos bom no sistema escolar e estão sub-representados no ensino secundário clássico (isso é mostrado no Relatório Nacional sobre Educação no Luxemburgo, de 2018),  pode não surpreender que os professores esperem que a maioria dos estudantes filhos de imigrantes frequentem o ensino técnico”, explica a investigadora.

No entanto, o estudo também mostrou que “ao aumentar a responsabilização dos professores, eles passaram a avaliar toda a informação disponível para cada estudante individual, em vez de confiarem nas expectativas do grupo social, o que, por sua vez, leva a uma maior precisão na tomada de decisões”.

Este estudo e outros já realizados mostraram que as “características sociodemográficas dos estudantes influenciam as decisões dos professores mesmo depois de controlarem o desempenho académico real”. Contudo, a investigadora frisa que “não se pode assumir automaticamente que as decisões que os professores tomam na vida real para estudantes reais mostrarão uma (in)exactidão semelhante”. 


“Não sei alemão nem francês, como posso ajudar os meus filhos nas aulas em casa?”
Há pais portugueses no Luxemburgo muito preocupados por não terem competências para apoiar nos trabalhos escolares nestes tempos de confinamento. Alguns nem têm computador. O relato de vários pais e os alertas de associações e sindicatos.

As decisões de transição “têm consequências duradouras para os percursos educativos dos estudantes e para as suas perspetivas futuras e, como tal, pode assumir-se que os professores levam estas decisões a sério”, realça. Ineke Pit-ten Cate frisa que desde o ano letivo 2016-2017, a decisão de transição do aluno é tomada pelo professor e pelos pais, em conjunto, o que em seu entender “reforça a responsabilidade e responsabilização individual dos professores, e pode conduzir a estratégias de integração de informação e a decisões mais precisas”. 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

EDITORIAL: Má sorte chamar-se João
Por Paula Telo Alves - Chamar-se João ou Roger pode determinar o futuro das crianças. Um estudo da Universidade do Luxemburgo indica que os preconceitos dos professores podem estar a prejudicar os alunos portugueses. O caso levou esta semana a eurodeputada Marisa Matias a questionar a Comissão Europeia.
Estudo: Preconceitos dos professores podem prejudicar alunos portugueses no Luxemburgo
Chamar-se Carlos ou Roger pode influenciar o percurso no ensino e o sucesso escolar dos alunos. Segundo um estudo da Universidade do Luxemburgo, os preconceitos dos professores em relação à nacionalidade dos alunos podem levá-los a tomar decisões erradas, prejudicando os portugueses. O estudo indica que os docentes cometem mais erros de avaliação com alunos portugueses do que com os estudantes luxemburgueses, quando decidem quem vai para o ensino secundário técnico ou para o clássico.
19.05.08 cours de portuguais, langue portugaise, contacto,  Schule, Schueler, bildung, photo: Marc Wilwert