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Se a desigualdade no ensino fosse um país, Larochette era a capital
Editorial Luxemburgo 5 min. 14.12.2018 Do nosso arquivo online

Se a desigualdade no ensino fosse um país, Larochette era a capital

Se a desigualdade no ensino fosse um país, Larochette era a capital

Foto: Guy Jallay
Editorial Luxemburgo 5 min. 14.12.2018 Do nosso arquivo online

Se a desigualdade no ensino fosse um país, Larochette era a capital

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
A localidade mais portuguesa do Luxemburgo tem a percentagem mais baixa de alunos no ensino clássico, segundo o último relatório nacional da Educação. Larochette é a face visível de um sistema de ensino que segrega os alunos por nacionalidade.

O mapa faz parte do mais recente Relatório Nacional sobre a Educação, apresentado esta sexta-feira, e não deixa dúvidas. Pintadas de cinzento escuro estão as autarquias onde há o maior número de alunos no ensino clássico, a via rápida para o ensino superior. É sobretudo no centro do país, em torno da capital, que se encontram os melhores resultados. O cinza vai-se aclarando nas zonas em que há mais alunos orientados para o Técnico e o Modular e menos no Clássico - sobretudo no Norte e no Sul do país, onde a proporção de estrangeiros é maior -, até chegar a um tom tão claro que parece quase branco, por contraste. No meio do mapa, como a proverbial aldeia branca, destaca-se Larochette, a região com a percentagem mais baixa de alunos que chegam ao Clássico, menos de 20% do total. Nas autarquias com melhores resultados, este valor pode chegar aos 70%.

Não é novidade para ninguém que os portugueses têm piores resultados a nível nacional e são orientados em massa para os ramos inferiores do ensino. Ano após ano, as estatísticas confirmam-no, e o relatório nacional sobre a educação de 2018, apresentado hoje, não é exceção. Por todo o país, "a diferença entre crianças de origem luxemburguesa e de origem portuguesa é notável", aponta o documento. Por cada dez portugueses que todos os anos entram na escola, só um chegará ao clássico, o ramo mais elitista do ensino secundário, contra metade dos luxemburgueses. Seis acabarão no ensino técnico, enquanto uns estarrecedores três ficarão a marcar passo no Preparatório, o grau zero do ensino secundário, reservado aos alunos que não atingiram as competências mínimas para integrarem os outros ramos do ensino.

Os investigadores explicam estas diferenças por factores que, no caso dos portugueses, são cumulativos: tal como outros imigrantes romanófonos, têm mais dificuldades com o alemão, a língua de alfabetização; e o baixo estatuto sócio-económico das famílias.

Larochette é a única localidade do Luxemburgo onde há mais portugueses que luxemburgueses: 948 habitantes têm passaporte português, contra apenas 877 luxemburgueses. Não surpreende por isso que a localidade mais portuguesa do país se destaque no mapa como uma ilha de exclusão no meio de vizinhos mais privilegiados. A diferença é chocante. Basta andar poucos quilómetros para ver o mundo ao contrário e entrar noutra dimensão: enquanto que em Larochette só 10 a 20% do total de alunos são orientados para o liceu clássico, na vizinha Fischbach, onde a maioria dos alunos são luxemburgueses, essa proporção sobe até aos 70%.

Que Larochette é vista pelos vizinhos mais abastados como um gueto, um sítio a evitar, mostra-o uma polémica recente. Em 2014, Larochette foi notícia por causa do referendo que propunha uma fusão com as autarquias vizinhas de Fischbach e Nommern. A proposta acabaria rejeitada tanto em Fischbach (76% contra) como em Nommern (70% pelo “não”). O “sim” só ganhou em Larochette, com 66,5%. O chumbo foi uma bofetada na localidade mais portuguesa do Grão-Ducado. Na imprensa luxemburguesa, vários editoriais atribuíram o resultado ao medo dos luxemburgueses de que os seus filhos viessem a ser obrigados a frequentar a mesma escola que os portugueses de Larochette.

Mas se em Larochette a segregação típica do ensino luxemburguês é mais visível, é só porque ali se concentram mais portugueses, o que não significa que os resultados sejam diferentes no resto do país. Há é menos portugueses, em números relativos.

Nada disto, dirá o leitor, é novo, e tem inteira razão. O problema é mesmo esse. Tudo neste novo relatório soa a "déjà vu", "déjà lu", "déjà entendu". Tudo cheira a velho e a mofo. Até as propostas para remediar o gritante grau de discriminação no ensino luxemburguês são um prato requentado a que os clientes (as escolas) continuam a torcer o nariz. Uma das sugestões com cheiro a bafio é ensinar alemão como língua estrangeira, em vez de presumir que o idioma é igualmente acessível às crianças que falam luxemburguês ou português em casa. Fui ver aos arquivos do jornal, e o algodão não engana: a proposta de ministrar aulas suplementares de alemão aos alunos estrangeiros (ALLET, sigla para "Allemand Langue Étrangère") começou já no século passado, nos anos 1980, na escola privada Fieldgen, na capital. Mas apesar dos bons resultados obtidos pelo colégio, e de o mesmo modelo ter sido adotado timidamente por alguns liceus a partir de 2002, a experiência nunca foi generalizada ao ensino público, tirando casos contados, dispersos pelo país. 

Lançada na anterior legislatura, a alternativa ao ensino tradicional, as chamadas escolas europeias, está longe de chegar para as encomendas: só cerca de dois mil alunos frequentam as chamadas escolas internacionais. Destes, só 238 têm nacionalidade portuguesa. É uma gota de água no oceano. No sistema escolar tradicional, as alterações são apenas cosméticas.

Timidamente, o relatório deste ano, da responsabilidade do Luxembourg Centre for Educational Testing (LUCET), da Universidade do Luxemburgo - um organismo criado e financiado pelo Ministério da Educação - sugere que o sistema educativo luxemburguês, com a orientação dos alunos para ramos diferentes do secundário logo no fim da escola primária, é "muito propício às desigualdades escolares". Segundo o relatório, "uma repartição precoce dos alunos conduz a desigualdades em matéria de educação, já que as condições desiguais à partida, por causa da origem [dos alunos], ainda não puderam ser compensadas, e nesta fase, as capacidades cognitivas de um grande número não puderam ainda ser avaliadas com precisão". E aponta que em países como a Finlândia, onde os alunos estudam juntos num tronco comum até ao fim do secundário, as crianças de meios sociais desfavorecidos têm melhores resultados. "A pesquisa internacional sobre a educação conclui que os sistemas de ensino integradores (com uma escolarização conjunta mais longa para todos os alunos) levam a menos desigualdades escolares", acrescenta o estudo. É o que em inglês se chama "stating the obvious", constatar o óbvio. Resta saber se a sugestão, como as que vêm sendo feitas há anos, não cairá em orelhas moucas.

Uma definição famosa de loucura é continuar a fazer as mesmas coisas esperando resultados diferentes. Assenta como uma luva ao ensino luxemburguês, alienado da realidade que tem à frente do nariz há mais de meio século.


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