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"Só no último fim-de semana recebemos oito jovens na urgência de psiquiatria"
Luxemburgo 11 min. 30.06.2021
Saúde mental

"Só no último fim-de semana recebemos oito jovens na urgência de psiquiatria"

Saúde mental

"Só no último fim-de semana recebemos oito jovens na urgência de psiquiatria"

Foto: Guy Jallay
Luxemburgo 11 min. 30.06.2021
Saúde mental

"Só no último fim-de semana recebemos oito jovens na urgência de psiquiatria"

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
O número de jovens com problemas psicológicos não para de crescer e está a gerar lista de espera de mais de três meses. Para responder ao aumento da procura, o Hospital de Kirchberg vai abrir um novo hospital de dia com 20 vagas revela o pedopsiquiatra, Gerhard Ristow em entrevista ao Contacto.

Qual é o efeito da pandemia na saúde mental dos jovens?

A situação é grave, mas o resultado da pandemia é parcialmente visível. Os pedopsiquiatras que trabalham, principalmente nos serviços ambulatórios, têm um aumento da procura. Uma procura que se centra em psicopatologias de depressão, de crises de angústia, problemas de obsessão compulsiva e distúrbios alimentares. Estes são os problemas mais numerosos. No quadro do Serviço Nacional não houve uma mudança no número de admissões de urgência, relativamente ao ano anterior à pandemia covid. Houve apenas uma pequena alteração. O número de admissões diminuíu, por causa da crise covid, mas tivemos uma aumento de percentagem. Penso que alguns dos efeitos da pandemia não são ainda visíveis, porque a situação ainda não normalizou. Por exemplo, os pacientes que evitaram a escola, têm uma regulação aceitável, por agora. Mas no futuro poderá haver um aumento de evitamento da escola, em geral. Espero também um aumento a nível de número de perturbações relacionadas com os novos media. Porque a escola, quer no Luxemburgo, quer na Alemanha focou-se nos novos media e, ao mesmo tempo, os pais não têm tempo para preparar essa etapa e aumentar as competências das crianças. Penso que, por causa disso, muitas crianças terão problemas a esse nível. Sobretudo problemas de abuso dos novos media.

Porque passam demasiadas horas por dia nesses dispositivos?

Exato. Espero que os desafios para os próximos dois anos, três anos aumentam. Tudo vai depender da evolução da situação nas escolas, mas com o regresso dos pais ao trabalho, os jovens têm a possibilidade de utilizar os novos media, porque o controlo dos pais não será possível.

Quais são os principais doenças psíquicas dos jovens?

As principais razões que causam mal estar tem a ver com a situação de controlo, que provocam insegurança e comportamento obsessivo, descritos como rituais, de sentimentos negativos em relação ao que aconteceu com a pandemia, que não é claro para os jovens, mas que foi vivido como uma catástrofe. O que acaba por induzir ações e comportamentos compulsivos.

A percentagem de jovens que pensam no suicídio aumentou?

Não tenho a certeza...Porque nós só observamos os jovens que tentaram fazer alguma coisa e que sobreviveram. Neste momento não tenho os dados sobre o que verdadeiramente se passou. Neste momento, no nosso caso não é visível esse aumento.

Mas o número de consultas de psiquiatria e psicologia aumentou?

Sim aumentou. Especialmente no serviço ambulatório onde há muito mais procura. Todos os colegas dizem que há uma longa lista de espera. O único número que posso dar, por exemplo no Hospital de Dia, em que a lista de espera no passado era de seis a oito semanas e, neste momento, o tempo de espera ultrapassa as 12 semanas. Todos os gabinetes de atendimento ambulatório estão completos e com listas de espera.

O relatório nacional “Covid Kids” revela que os estudantes de meios económicos desfavorecidos são mais afetados. Pensa que é importante criar uma oferta específica para estes casos?

Penso que é necessário, porque no caso dos jovens que já pertenciam a meios desfavorecidos, com o covid, a situação agravou-se. Porque nos casos em que a capacidade de cuidar dos pais é diminuída por qualquer razão, estes jovens devem ter uma intervenção especial.

Ristow Gerhard , pedopsiquiatra, Hospital de Kirchberg
Ristow Gerhard , pedopsiquiatra, Hospital de Kirchberg
Foto: Guy Jallay


O ministro da Educação, Claude Meisch justificou a reabertura das escolas com a necessidade de diminuir os pensamentos suicidas dos jovens. Pensa que o regresso à escola é importante para evitar este tipo de pensamento nos jovens?

Penso que, no geral, se os jovens têm um objetivo para trabalhar e se estiverem juntos na escola, é melhor para eles. Penso que se os jovens podem fazer qualquer coisa é melhor para eles, porque é qualquer coisa regular. Se os jovens ficarem o tempo todo em casa e sem vontade é difícil. Nessa situação, os jovens podem desenvolver alguns problemas a nível psicológico. Porque passam muito tempo sem um objetivo, sem qualquer coisa para fazer.

Quando estão muito tempo em casa podem refugiar-se nas redes sociais?

A utilização das redes sociais depende se são raparigas ou rapazes. Os rapazes preferem jogar e ver vídeos e as raparigas preferem ver vídeos ou utilizar as redes sociais. E as redes sociais não são com o a vida normal. São uma substituição da vida normal, mas que não é boa. O verdadeiro contacto é necessário para os jovens para assegurar um desenvolvimento normal. As redes sociais não passam de uma imitação da vida.

O que podem os pais fazer para combater esse uso excessivo dos novos media?

Penso que é melhor limitar o tempo no computador, no tablet, ou no smartphone , em geral. Mas considero que não se deve dar um smartphone aos jovens antes dos 14 anos, é uma recomendação de colegas alemães que fizeram investigações que revelam os efeitos no cérebro dos jovens se os utilizam demasiado.

Regressando ao impacto da crise de covid ao nível de suicídios acho que os casos aumentaram. O que foi visível, por causa do covid, é que tivemos muitas intervenções de crise de jovens que chegam na sequência de uma crise suicidária. E uma das principais razões para que os jovens cheguem a esta fase tem a ver com a ausência de contacto com os outros jovens, se tornou impossível ter em casa. Neste momento estamos melhor porque todas as limitações diminuíram. Mas se tivermos uma quarta vaga será problemático porque reduzirá os contactos sociais. Na minha opinião o grupo de crianças e jovens foi maltratado na crise covid.

  Ristow Gerhard , Pedopsiquiatra , Hospital Kirchberg.
Ristow Gerhard , Pedopsiquiatra , Hospital Kirchberg.
Foto: Guy Jallay

Porque é que são o grupo mais afetado psicologicamente?

Por causa dos contactos sociais. Porque os contactos sociais diminuíram se os pais levaram em conta as recomendações, esses jovens ficam várias semanas sem contacto com outros jovens. Apenas podem contactar através das redes sociais.

Por isso é que é o grupo mais afetado?

Sim porque têm muito menos contactos sociais. Por isso estou de acordo com o ministro da Educação, porque muitos contactos sociais acontecem na escola. E para isso é necessário que as escolas estejam abertas. Penso que foi uma estratégia positiva a adotada no Luxemburgo para decretar duas semanas de férias e seis semanas de trabalho. Porque nessas duas semanas foi possível controlar algum problema a nível da situação infeciosa. A resposta do Luxemburgo foi melhor, se compararmos com a situação na Alemanha em que as escolas estiveram muito mais tempo fechadas.

O primeiro-ministro referiu que o número de consultas psiquiátricas aumentou exponencialmente o que revela que há uma preocupação política com este tema…

Penso que é importante, porque existe uma grande falta ao nível de seguimento da depressão. Por isso é o tempo de falar sobre os jovens e das suas necessidades. Porque eles são o nosso futuro e o futuro do país. Por isso e necessário ver bem o que será necessário para lhes garantir uma boa evolução.

Porque a resposta atual não é suficiente?

Sim. Porque a crise covid criou um novo “setting” para nós e a procura nos gabinetes ambulatórios aumentou fortemente, como dizem todos os colegas. Temos cerca de 15 pedopsiquiatras que trabalham nos consultórios privados, o que não suficiente para responder à procura.

Mas no Hospital de Dia vão aumentar a oferta?

Temos planificada esse aumento para setembro, para abrirmos um segundo local deste hospital e vamos abrir mais vagas. Atualmente temos 12 lugares em Esch e com a abertura em Kirchberg teremos mais 20 lugares.

Pensa que este aumento será suficiente?

É melhor do que tínhamos antes. Porque poderemos dar mais atenção aos pacientes do norte e centro do país. Porque o centro de Esch atendia principalmente pessoas do sul do país.

Pensa que o Hospital do Dia é a melhor solução para os jovens com problemas psiquiátricos?

Depende muito da problemática dos jovens. Habitualmente, o hospital de dia é mais psicoterapêutico em comparação com a “station agu”. Mas temos também uma grande necessidade ao nível desta oferta. Porque no fim do ano escolar é visível que o número de admissões de jovens aumenta rapidamente, o que gera uma situação muito difícil de gerir durante cerca de quatro semanas. Por exemplo, no passado fim-de-semana tivermos oito admissões de urgência.

O que é muito?

Sim mas é habitual neste período do ano escolar. No fim do ano escolar há muito mais admissões nas urgências e depois diminui durante as férias. No início do próximo ano escolar é também reduzido, mas no Natal o número de admissões volta a aumentar. É visível esta resposta ao stress escolar.

O que é que deve ser feito para responder a este aumento da procura?

Uma das possibilidades para tratar estes pacientes é aumentar o número de lugares disponíveis e ser flexível na reação. Temos capacidade para gerir o número de pacientes, mas nesta fase do ano escolar, por exemplo, o aumento é muito rápido e durante alguns dias temos mais admissões de urgência. O que que significa que temos que ter, nesse momento, capacidade para lidar com mais de 15 pacientes na “station agu”. Neste momento temos uma “station agu” com 23 lugares e no futuro teremos 15 na “station agu”e 15 na “station terapeutique”. Mas é previsível nesta fase do ano escolar que os lugares não sejam suficientes no quadro da “station agu”.

É possível que um jovem que precise de ficar internado não tenha lugar?

Não. É claramente uma questão médica e se a pessoa precisar de ficar aqui terá um lugar. É uma coisa que é muito importante para nós porque se a pessoa representar um perigo para ela própria é necessário ser admitida. Se alguém desenvolve uma nova psicose é necessário fazer admissão. Isso não é uma questão para nós e se for necessário aumentamos os lugares disponíveis.

É possível?

É possível mas é difícil para todos: para o pessoal, para os pacientes e por razões de segurança. Por isso temos que ter soluções flexíveis. Porque no meio do ano escolar é possível gerir 15 pacientes na “station agu”, mas nesta fase com o aumento da procura temos que ter possibilidade de aumentar essa capacidade. A questão é como gerir esse aumento. Por exemplo criar uma estação só para responder aos pacientes que chegam com uma crise suicidária que será gerida nesse local e se necessário o paciente poderá ir para outra estação ou regressar a casa. Se não houver necessidade essa vaga é fechada.

Qual é a diferença da “station agu" das restantes?

A “station agu” é a estação para os pacientes que chegam com uma crise suicidária, ou um problema de psiquose ou com um comportamento que é uma ameaça para os outros. Esta é uma estação fechada. Já a “station terapeutique”, é um lugar onde se pode chegar através de uma lista de espera ou se se conclui num processo terapêutica que é necessário estar nessa estação, quando uma problemática é mais grave e não é possível resolver no ambulatório, nem no hospital de dia, nem no consultório privado.

Mas estes aumento dos problemas psicológicos dos jovens revela que algo não está bem. O que é que deve mudar?

O que posso dizer é apenas uma hipótese e passará por uma alteração de futuro. Por exemplo, as coisas podem passar pela criação de um advogado que defende os jovens. Ou talvez seja apenas necessário que o jovem aprenda a lidar com a aceitação. Em geral, muitas das doenças psíquicas tem a ver com um problema a nível da aceitação. Tenho um mau sentimento e não o quero aceitar. Por isso começo por desenvolver estratégias para gerir essa falta de aceitação e acabo por desenvolver a doença.

Pensa que nas escolas deveria haver mais psicólogos?

Penso que os psicólogos dos Cepas precisam de muito mais formação e trocar experiências. A minha experiência revela que o Cepas é muito aberto a aprender a forma como tratar os jovens para evitar que algo de mal aconteça.

Pensa que o fato de metade da população luxemburguesa ser migrante pode aumentar os problemas psicológicos?

Para os jovens que acabam de chegar é um fator de stress. Não tenho a certeza que provoque mais problemas, em comparação com outra população. Penso que depende muito do conhecimento dos pais, porque os pacientes que têm uma origem social baixa, uma história de migração por necessidade e um trabalho muito básico, em geral estes pais precisam de mais apoio porque não sabem o que fazer em caso de problema psicológico dos filhos. Para os jovens que ficam cá mais tempo, a impressão que tenho é que de adaptam muito bem. É uma questão de tempo. Porque muitas vezes os dois pais trabalham a tempo inteiro e não têm tempo para ser um apoio para os jovens. 

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