Saúde mental. Conseguiremos viver bem com afetos à distância?
Saúde mental. Conseguiremos viver bem com afetos à distância?
“As mudanças pelas quais passámos foram tão drásticas, intensas e repentinas, que devem ter algum impacto na nossa saúde mental, mais cedo ou mais tarde”, acredita Conchita D’Ambrosio, economista que juntamente com psicólogo Claude Vögele está a realizar um inquérito à população do Luxemburgo que visa estudar os efeitos psicológicos da pandemia da covid-19, e do distanciamento social a que ela tem obrigado.
Irão as depressões aumentar em consequência da pandemia? Os especialistas vão ser confrontados com novos problemas psicológicos, até à data inexistentes, por causa deste vírus?
Estas são duas das muitas questões a que estes dois investigadores da Universidade do Luxemburgo querem dar respostas através do inquérito já a decorrer a toda a população. Ao todo são 200 perguntas sobre a vida em confinamento, e os sentimos, emoções e conflitos vividos que compõem a sondagem online.
“É a primeira vez na história que tantas pessoas ficam fechadas em casa durante tanto tempo, que inesperadamente começam a trabalhar a partir de casa ou não trabalham de todo, que não conseguem encontrar amigos e familiares que não vivem com eles”, diz ao Contacto a investigadora Conchita D’Ambrosio, sublinhando que tal deverá ter implicações ao nível do bem-estar mental. E isso já é visível perante o aumento de pessoas que procuram aconselhamento via telefone ou online nas linhas telefónicas e sites de apoio psicológico, lembra.
“Se isto se vai transformar num aumento do número de pessoas com uma perturbação mental diagnosticada num futuro próximo é atualmente imprevisível. Por isso estamos a realizar este estudo”, vinca a cientista, admitindo ser possível haver um aumento das depressões. Os pacientes que já sofriam de doenças de foro mental antes do covid-19 são os que correm mais riscos.
E mesmo com o Luxemburgo em processo gradual de desconfinamento, a regra do distanciamento social continua a impor-se para prevenir contágios. E deverá continuar até à chegada de uma vacina eficaz contra a covid-19.
“É plausível pensar que a continuação da regulamentação do distanciamento social mudará a forma como vivemos as nossas vidas e nos relacionamos uns com os outros, e que esta mudança será dura e difícil de suportar”, estima Conchita D’Ambrosio. O ser humano necessita de afetos diretos, beijos, abraços, festas que neste momento tem em dose muito reduzida, ao nível da família nuclear. E irá continuar a ter.
Há, no entanto, indivíduos que possuem capacidades para lidar melhor com as situações adversas. Os investigadores querem identificar estes casos, “estudar a sua personalidade, resiliência, ansiedade, características socioeconómicas e demográficas”, e descobrir quais são os fatores de proteção. Para que estes “possam ser implementados nas intervenções de prevenção e tratamento no futuro”.
Para obter dados para o estudo, os investigadores precisam de uma amostra de 1.500 inquiridos. A sondagem está disponível no site da Universidade do Luxemburgo (https://humanities. uni.lu), e por demorar cerca de 50 minutos a ser completada, os inquiridos do país recebem 20 euros. Os resultados serão fundamentais para adotar estratégias eficazes para ajudar as pessoas mais vulneráveis após esta crise, dar a conhecer ao governo quais os efeitos negativos do confinamento que devem ser tratados mais rapidamente, e ainda ajudar no tratamento de futuras crises.
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