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Sandra Rendall. A cura da crise passa pela autoconsciência
Luxemburgo 5 min. 01.01.2021

Sandra Rendall. A cura da crise passa pela autoconsciência

Sandra Rendall. A cura da crise passa pela autoconsciência

Foto: António Pires
Luxemburgo 5 min. 01.01.2021

Sandra Rendall. A cura da crise passa pela autoconsciência

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
É preciso estudar o passado para não o repetir no futuro. A crise faz explodir os populismos fáceis e o racismo. É preciso colocarmo-nos na pele do outro. Há um caminho da autoconsciência para debelar as sequelas da crise, garante a psicóloga, Sandra Rendall.

Vai fazer 11 anos que vive no Luxemburgo. Acabou a tese de mestrado e foi praticamente direta para o Grão-Ducado. A razão foi simples: “Estava apaixonada.” Conhecia muito pouco do país, mas tinha com o seu ex-marido um projeto de constituir família. Portugal estava a começar a afundar e com a crise nos tempos da troika mudou de país.

Fez licenciatura em psicologia e depois um mestrado em psicologia das organizações. Foi no âmbito desse mestrado, mas mais numa vertente social, que fez uma tese sobre a excisão genital em Portugal. “O projeto foi estudar essa situação em Portugal. Quando acabei fiquei um pouco desiludida. A investigação correu muito bem, mas depois dela, um plano que estava a ser feito para a erradicação da mutilação genital feminina nunca mais andava. Nesse momento tive um embate com a realidade e esse choque foi muito duro. Algumas coisas depois concretizaram-se. Mas havia coisas, como estarmos três horas de uma reunião a discutir ortografia de erros nos relatórios em vez de estarmos a ver como as coisas se iam fazer.”

Chegou ao Grão-Ducado no mês de janeiro, “havia muito frio. Sou de Lisboa, nasci lá e para mim foi uma certa diferença. Sempre me dei com toda a gente, tinha amigos de todas as cultura e cheguei aqui e as pessoas são muito mais fechadas, cada um no seu quadrado , e mesmo nos imigrantes parece que cada grupinho está muito junto e fechado. Senti-me um bocado deslocada. Pareceu-me um país frio, durante dois ou três anos penso mesmo que tive uma depressão, mas a certa altura reagi. Disse: “ó Sandra, ó estás cá ou estás lá. E a partir dai senti que mudei, passei a gostar mais de estar aqui. Até acontece que quando estou em Portugal tenho saudades do Luxemburgo.”

Tem boa capacidade de integração. “É uma pré-disposição. E é também uma característica profissional , se não gostasse de pessoas, isto seria um problema. Sou uma psicóloga mais humana e competente por causa de conseguir lidar também com os meus problemas. Não há nada que me assombre estou capaz de lidar com qualquer situação.”

Todas as situações? “Confesso que se for um pedófilo terei dúvidas, talvez esse assunto eu transferiria”. Mas como vê um pedófilo? Como alguém que tem uma perturbação ou vê como um criminoso. “As duas coisas. É, para mim, diferente se tem uma tendência, mas que não tenha cometido um crime. Talvez aí teria a necessidade de transferir para outra pessoa porque sou mãe e sou mulher. E um violador? “(silêncio) Não sei. Confesso que são as grandes questões que se me colocam e da minha própria sombra. Acho que nós profissionais temos que saber as nossas capacidades e ser capazes de ver também os nossos limites e nesse caso pedir um supervisor.”

O que é para si o mal? “Está em todos nós, da nossa ignorância ou mesquinhes. Tudo vai para um saco sombrio, e se a gente não olha para esse saco somos capazes de tudo. Quanto mais ignoramos esse lado mais ficamos reféns da nossa sombra. A diferença é que sou muito consciente dos meus limites. Quando vemos pessoas no limite de quererem deixar de viver, temos que ter estar bastante resolvidos para ajudar”.

O que leva as pessoas a isso? “A sociedade empurra-nos para isso, vendem-nos um sonho. Quando tirares o curso, quando te apaixonares, quando tiveres a casa, quando tiveres o carro o novo... Mas passado um tempo percebemos que isso não é aquilo que nos preenche.”

Hoje as pessoas sentem-se mais frágeis e sem rede ou essa situação é uma coisa de sempre? “As duas coisas, hoje há um enfraquecimento dos laços sociais, mas se calhar há 50 ou 60 anos, esse tecido social podia ser uma espécie de prisão. As questões sociais sempre existiram.”

No próximo ano o que vai acontecer? “Há sempre duas realidades: as pessoas que conseguiram preservar o seu emprego, a família e a doença, para essas pessoas podem usar isso para se capacitarem para se tornarem mais resilientes , e para poderem usar para ajudar as pessoas que perderam as casas, os empregos etc... Depois há obviamente o aumento das perturbações mentais em geral, pela decorrência da covid-19, com um perigo agravado nesse sentido nos profissionais de saúde, devido ao stress a que estão sujeitos perante esta situação em que veem colegas e pessoas a morrerem”.

Do ponto de vista social, o medo da covid-19, destapou uma panela de ódios? “Multiplicou essas situações , mas alimentou-se dos ódios que as pessoas já tinham.”

Como analisa o aumento do racismo e do extremismo no mundo?

“Não sei se há mais racismo ou violência doméstica ou se tornamo-nos mais conscientes disso. Só se fala das coisas quando há uma explosão emocional. E hoje em dia, há mais gente e organizações a falarem dessas situações.”

Já sentiu racismo? “Claro que já. Mas estou mais forte em relação a isso. Mas de facto, sinto que hoje há mais polarização. É estranho que se permita que um homem que foi acusado de ter participado num assassinato de um negro vá a um programa da manhã, da TV portuguesa, como se nada fosse. Dá-se voz a esses cultores dos discursos fáceis. As nossas aulas de História não têm funcionado. Uma sociedade que já passou pela escravatura e pelo holocausto devia dar mais atenção à história e às ciências sociais para que o passado não se possa repetir. Se não o fizermos, temos que se calhar de passar por lá outra vez. A cura é um processo coletivo que se começa individualmente, temos que ter uma maior consciência. É preciso termos a capacidade de fazer isso. É possível curar a sociedade dos racistas? Deus queira que sim, pela consciência, temos que ultrapassar as barreiras sociais , as fronteiras e afirmar que somos todos seres humanos. É preciso calçar os sapatos dos mais frágeis e perceber a situação dos outros.”

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