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Só uma minoria de portugueses investe em negócio próprio
Luxemburgo 6 min. 16.03.2016 Do nosso arquivo online
Estudo

Só uma minoria de portugueses investe em negócio próprio

boucherie ferreira
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Só uma minoria de portugueses investe em negócio próprio

boucherie ferreira
Luxemburgo 6 min. 16.03.2016 Do nosso arquivo online
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Só uma minoria de portugueses investe em negócio próprio

Os sectores de restauração e pequeno comércio são as principais apostas.

Não há muitos empresários portugueses no Luxemburgo, e quando decidem avançar para um negócio por conta própria, fazem-no nos sectores de actividade que já conheciam. Os mais predominantes são a restauração e alojamento, e o pequeno comércio. Estas são algumas das conclusões de um estudo desenvolvido pelo Instituto Politécnico de Leiria – “Empresários portugueses no Luxemburgo: uma primeira aproximação” – que analisa e traça o perfil dos empresários portugueses no Grão-Ducado.

Quem são, em que sectores investem, quais as maiores dificuldades que sentem quando se estabelecem. É a estas perguntas que o investigador José Carlos Marques pretende dar resposta no estudo feito em Maio de 2015 e divulgado recentemente. O inquérito foi realizado no início de 2012 a 156 empresários portugueses no Grão-Ducado, ou seja a cerca de 11% dos portugueses que trabalhavam por conta própria.

O estudo indica que a esmagadora maioria (92,1%) dos portugueses activos no mercado de trabalho no Luxemburgo trabalha por conta de outrem e apenas 3,5% (1.384 pessoas) têm um negócio seu. O documento nota ainda que, apesar de se tratar de “uma migração de cariz laboral”, só pouco mais de metade “dos portugueses se encontram activos no mercado de trabalho luxemburguês”.

A maioria das empresas foi criada já no século XXI, em particular a partir de 2006 (44,2%). Isto é resultado das vagas de migrações mais tardias, dos portugueses que chegaram ao Grão-Ducado na última década do século XX ou na primeira década deste século. A quase totalidade comprou uma empresa já existente, pelo que muito poucos passaram pelo processo de criação de uma empresa de raiz.

Mas por que motivo há tão poucos portugueses a avançaram por conta própria? De acordo com José Carlos Marques, “o estudo realizado não permite saber as razões do baixo nível empreendedor dos portugueses no Luxemburgo”, mas o investigador explica que podem ser avançadas algumas explicações, “a partir do que se sabe de outros contextos nacionais”. Assim, podem ter influência “o baixo nível recursos financeiros para adquirir empresas já existentes e dificuldades em lidar com o sistema burocrático luxemburguês”.

Por outro lado, a concepção do projecto emigratório é muitas vezes visto como temporário, “o que afasta alguns emigrantes de realizarem investimentos que só a longo prazo podem ser recuperados”. A “relativa juventude do fluxo emigratório” também pode ser um dos factores que ajuda a explicar os baixos números de empreendedorismo. Contudo, o especialista admite que as novas gerações de portugueses podem contribuir para mudar este cenário (ver entrevista ao lado).

Quanto aos sectores de actividade, não há uma grande mudança entre as áreas onde os portugueses estavam antes e depois de se tornarem independentes.

O alojamento e restauração, o comércio, e a construção são os sectores que empregam mais trabalhadores por conta de outrem. Quando passam a ter negócio próprio, a construção deixa de ter um peso tão significativo. Isto pode ser explicado pelo facto de se tratar de uma área que implica um montante de investimento inicial avultado, afastando, à partida, muitos empresários. O imobiliário e a prestação de serviços ganham assim preponderância em detrimento da construção quando se fala do desenolvimento de uma actividade por conta própria. Isto significa que a maior parte dos empresários portugueses no Luxemburgo acaba por estabelecer-se nos sectores que já conhece por terem adquirido conhecimentos sobre o sector – como clientes, fornecedores, possibilidade de lucro – por já terem trabalhado na área.

Apesar da escassez dos recursos financeiros, os recursos próprios e o crédito bancário são as principais formas de financiamento utilizadas pelos portugueses, com as verbas oriundas da comunidade a assumirem aqui uma importância menor.

As pequenas e médias empresas (PME) dominam o cenário quer em termos de empregados (até nove empregados) quer em volume de negócios (normalmente inferior a 75 mil euros). Verifica-se ainda a tendência para empregar membros da família e portugueses, sendo que cerca de três quartos dos inquiridos afirmaram que empregavam exclusivamente portugueses. Contudo, o estudo conclui, por outro lado, que as empresas não subsistem sem a integração com a sociedade luxemburguesa, que assume um papel fulcral nos fornecimentos de bens aos negócios detidos por portugueses. Para José Carlos Marques, este factor pode ser importante para incentivar uma integração maior da comunidade portuguesa na sociedade de acolhimento.

Os portugueses que decidem apostar num negócio próprio fazem-no mais por motivos positivos, como o reconhecimento de uma oportunidade e o desejo de adquirir independência, do que por factores de pressão, como uma situação de desemprego ou de alterações na situação familiar. Quando passam à acção os principais constrangimentos que sentem estão relacionados com questões de financiamento, problemas de pessoal, insuficiência de clientes ou dificuldade em encontrar instalações.

As novas gerações podem criar mais empresas


O investigador José Carlos Marques é o autor do estudo Empresários portugueses no Luxemburgo: uma primeira aproximação
O investigador José Carlos Marques é o autor do estudo Empresários portugueses no Luxemburgo: uma primeira aproximação
Foto: Manuel Dias

Apenas uma minoria dos portugueses no Luxemburgo opta por trabalhar por conta própria. Por que motivo é que isto acontece?

José Carlos Marques: O estudo realizado não permite saber as razões do baixo nível empreendedor dos portugueses no Luxemburgo. Contudo, a partir do que se sabe de outros contextos nacionais, podem ser avançadas algumas explicações, tais como: o baixo nível recursos financeiros para adquirir empresas e negócios já existentes; dificuldades em lidar com o sistema burocrático luxemburguês; a concepção do projecto emigratório como temporário, o que afasta alguns emigrantes de realizarem investimentos que só a longo prazo podem ser recuperados e a relativa juventude do fluxo emigratório.

De que forma se pode mudar esta tendência? As novas gerações de emigrantes podem ajudar a alterar este cenário?

É de admitir que as novas gerações de emigrantes, em particular as que realizaram parte substancial do seu percurso formativo no Luxemburgo, invertam esta tendência. Para que tal possa ser potenciado, seriam benéficas acções de formação e divulgação sobre as oportunidades de desenvolvimento empresarial e a criação de condições que auxiliem os que desejam estabelecer-se por conta própria, sobretudo nos aspectos burocráticos.

Segundo o estudo, as empresas portuguesas empregam muitas vezes familiares e portugueses. Este facto não pode ter a desvantagem de limitar o raio de actuação destas empresas e a própria integração dos portugueses?

Numa primeira análise, o emprego de co-nacionais portugueses nas empresas detidas por portugueses pode apontar para a limitação da acção dessas empresas e da integração dos portugueses, sobretudo se funcionarem num circuito muito fechado, isto é, se para além dos funcionários, também os clientes e, por vezes, os fornecedores forem portugueses. Contudo, é reconhecido – com base noutros estudos de caso – que estas empresas, mesmo empregando co-nacionais, permitem a interacção entre portugueses e luxemburgueses. Segundo o estudo, uma parte substancial dos clientes tem outra nacionalidade além da portuguesa. É evidente que isto não significa que a contratação de portugueses, sobretudo quando realizada de forma exclusiva, pode constituir uma situação propícia à manutenção da resistência à integração plena na sociedade luxemburguesa, pois limita o desenvolvimento de contactos no mundo do trabalho com indivíduos da sociedade de acolhimento. E como o trabalho constitui uma dimensão central da integração dos migrantes nas sociedades de acolhimento, a integração dos portugueses na sociedade luxemburguesa pode ser limitada pelo facto de a relação laboral ocorrer apenas entre pessoas do mesmo país.

Paula Cravina de Sousa

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