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Só restam três jihadistas portugueses no Estado Islâmico e um é do Luxemburgo

Só restam três jihadistas portugueses no Estado Islâmico e um é do Luxemburgo

Foto: AFP
Luxemburgo 7 min. 17.02.2019

Só restam três jihadistas portugueses no Estado Islâmico e um é do Luxemburgo

O lusodescendente luxemburguês Steve Duarte, Nero Saraiva e Ângela Barreto são os três portugueses, que segundo fontes do serviços secretos portuguses, citados pelo semanário Expresso, continuam a lutar pelo Estado Islâmico. A estes somam-se 20 pessoas de origem portuguesa que foram capturadas por tropas curdas e governamentais.

Segundo os serviços de informação portugueses, citados numa peça do jornalista Hugo Franco do Expresso, o grupo de combatentes do Daesh com ascendência portuguesa chegou a ter quase 20 pessoas, muitos deles oriundos da emigração em países da Europa onde se terão “radicalizado”. No entanto, a maior parte acabou por morrer vítima dos ataques das forças da coligação internacional ou está desaparecido em combate.

Em poucos anos, o território do chamado Estado Islâmico (Daesh) passou do tamanho do Reino Unido, com vastas áreas ocupadas na Síria e no Iraque e com grandes cidades, como Mossul (a segunda maior cidade do Iraque) sob ocupação, para uma situação atual em que dominam uma área inferior a 320 mil metros quadrados, equivalente ao tamanho do concelho de Coimbra.

Neste momento mesmo esse território está por um fio, Hajin e Baghus, os últimos redutos importantes dos combatentes fundamentalistas islâmicos, estão prestes a cair nas mãos das forças da coligação curda e árabe que tem o apoio de forças norte-americanas. Entre os cerca de 5 mil jihadistas que defendem o pequeno bastião situado no leste da Síria, junto à fronteira com o Iraque, encontram-se três portugueses, apurou o Expresso junto de fontes da investigação. Seriam eles, Nero Saraiva, Ângela Barreto e o lusodescendente luxemburguês Steve Duarte.

As mesmas fontes garantem que Nero Saraiva e Steve Duarte continuam a ser peças influentes no seio dos jihadistas. O primeiro fazia parte do grupo de Jihadi John — um britânico que aparecia em vídeos de propaganda do Daesh de cara tapada a decapitar jornalistas estrangeiros e soldados inimigos. Nero Saraiva terá mesmo participado em alguns destes massacres. Segundo o Expresso, foi o primeiro radical português a rumar para a Síria, juntando-se à brigada Kataib al Muhajireen em outubro de 2012. A família pouco ou nada sabe sobre o seu paradeiro, desde 2014. Mas o SIS e a PJ têm informações de que Nero, ou Abu Yaakhoub Al-andaloussi, nome que adoptou no Daesh, continua nas filas dos combatentes do Estado Islâmico.

Já o luso-luxemburguês Steve Duarte alistou-se nas fileiras do Daesh no final de 2014.

O caso de Steve Duarte encheu páginas de jornais em 2014, quando o jovem lusodescendente, então com 25 anos, deixou o país para se juntar ao Estado Islâmico, na Síria. O português originário de Meispelt, na comuna de Kehlen, a 20 km da capital luxemburguesa, adoptou o nome de guerra Abu Muhadjir Al Purtughali.

Steve Duarte ter-se-á convertido ao Islão após uma viagem à Argélia, em 2010. Frequentava uma mesquita em Esch-sur-Alzette, na rue du Brill, conhecida como o ponto de encontro dos muçulmanos radicais no Grão-Ducado, segundo o Luxemburger Wort. A mesquita de Esch-sur-Alzette frequentada pelo lusodescendente é a mesma onde o jihadista  belga de origem espanhola Davide de Angelis, detido pelas autoridades luxemburguesas, recrutaria membros para combater na Síria.

O lusodescendente era rapper, tendo adotado o pseudónimo Pollo. Chegou a editar um disco no Luxemburgo em 2011, intitulado ’En Attendant”, pela editora ZobiboZ Records. O single com o mesmo nome descreve um massacre numa escola perpetrado por um franco-atirador, mas os amigos do ex-rapper português recusaram ver na letra um indício de violência. “Era um rapaz calmo, que falava pouco, mas não me parecia de todo uma pessoa radical”, contou ao Contacto um dos mais conhecidos rapper do Luxemburgo, Rafael Possing, conhecido como T The Boss, num artigo publicado em 2014.

Quando foi para o Califado, começou por trabalhar no aparelho de propaganda na Internet do Estado Islâmico. Mas também participou nos massacres, no início de 2016, surgiu num vídeo de cara tapada a matar um refém com um tiro na nuca. Adoptou o nome no Daesh de Abu Muhadjir Al Al Purtughali, o filho de emigrantes portugueses no Luxemburgo e originários da Figueira da Foz “continua operacional e a fazer parte da máquina de propaganda”, assegura fonte da investigação ao semanário português Expresso.

Quanto a Ângela Barreto, cuida dos dois filhos de Fábio Poças, o jihadista da linha de Sintra que se tornou uma espécie de símbolo dos radicais. O Expresso sabe que, desde dezembro de 2017, a luso-holandesa não tem informações do marido, com quem se casou na Síria em 2014. Um membro do Daesh entregou-lhe o relógio que pertencia a Fábio Poças, sem adiantar mais pormenores. De acordo com “The Sunday Times”, o ex-futebolista terá sido vítima de um ataque de um drone armado, mas a família continua a acreditar que tenha sido feito prisioneiro de guerra.

Vários portugueses estão detidos em campos de refugiados.

Diferente é a situação de Catarina Almeida, natural da Guarda e emigrante em França, foi detida pelas forças curdas. Não é a única de origem portuguesa no campo sírio de Roj. Vânia Cherif, de 24 anos e natural de Carrazeda de Ansiães, também se encontra lá.

Numa reportagem da SIC, citada pelo Expresso, Catarina e Vânia revelaram estar arrependidas por terem viajado para o califado e terem acreditado no Estado Islâmico e pediram às autoridades portuguesas para as resgatarem da Síria. “Todo o mundo comete erros. Todos temos direito a uma segunda oportunidade”, alega Vânia, que vivia em Andorra com a família.

As autoridades portuguesas suspeitam, segundo a reportagem do Expresso, que haja entre 20 a 30 mulheres e crianças com ascendência portuguesa na mesma situação que Catarina e Vânia.

O Expresso terá contactado várias fontes judiciais, que não garantem o regresso a Portugal dessas famílias dos combatentes do Daesh, pelo menos enquanto não ficar definido o que fazer com os milhares de jihadistas de França, Reino Unido, Bélgica ou Alemanha. “É um tema melindroso e ainda sem fim à vista. A Europa ainda não está preparada para receber os jihadistas ou mesmo as suas famílias. Têm receio de que continuem com ideias extremistas e venham para cá cometer atentados”, avança um alto responsável ao semanário português.

Trump quer europeus repatriem e julguem os “seus” combatentes.

Por sua vez, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apelou aos países europeus, nomeadamente o Reino Unido, a França e a Alemanha, para repatriarem e julgarem os seus combatentes do Estado Islâmico feitos prisioneiros na Síria.

Este apelo de Trump, formulado num 'tweet' enviado no sábado à noite, surge numa altura em que o Estado Islâmico está prestes a perder o último território do 'califado' pressionado pela aliança árabe-curda e a coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos.

"Os Estados Unidos pedem ao Reino Unido, França, Alemanha e aos outros aliados europeus para levarem mais de 800 combatentes do EI que nós capturámos na Síria para os julgarem", escreveu Trump.

"Não há alternativa porque seremos forçados a libertá-los. Os Estados Unidos não querem que estes combatentes do Daesh se espalhem na Europa, para onde se prevê que vão", adiantou.

Trump desencadeou em dezembro a fúria dos aliados quando anunciou unilateralmente a saída a curto prazo dos 2.000 militares norte-americanos da Síria.

Na altura, este anúncio e a derrota iminente do Estado Islâmico relançaram a questão do destino de centenas de jihadistas estrangeiros que foram feitos prisioneiros na Síria e que a aliança árabe-curda afirma não poder manter eternamente.

No final de outubro do ano passado, as autoridades semi-autónomas curdas da Síria condenaram em Bruxelas a recusa dos países europeus de receberem os seus cidadãos membros do grupo jihadista EI detidos pelas suas forças.

Os combatentes estrangeiros capturados e as respetivas famílias são originários de 46 países, anunciou Abdul Karim Omar, encarregado dos Negócios Estrangeiros na administração curda, numa conferência de imprensa em Bruxelas.

No total, 790 homens encontram-se detidos pelas forças especiais curdas numa prisão, ao passo que 584 mulheres e 1.250 crianças foram colocadas em dois campos, precisou o responsável.

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27-year-old Steve Duarte has reportedly been a member of IS since 2014