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Sócio-linguista Fernand Fehlen: Há um "teto invisível" para os imigrantes na política
Luxemburgo 4 min. 18.10.2017

Sócio-linguista Fernand Fehlen: Há um "teto invisível" para os imigrantes na política

Sócio-linguista Fernand Fehlen: Há um "teto invisível" para os imigrantes na política

Foto: Guy Jallay
Luxemburgo 4 min. 18.10.2017

Sócio-linguista Fernand Fehlen: Há um "teto invisível" para os imigrantes na política

O sócio-linguista Fernand Fehlen comenta o caso de José Vaz do Rio, o português que ganhou as eleições em Bettendorf mas recusou o cargo de burgomestre. Em resposta a questões colocadas pelo Contacto por email, o sócio-linguista luxemburguês admite que "há um teto invisível" na política que impede os imigrantes de primeira geração de chegar mais alto.

Nos seus estudos, fala do peso do trilinguismo no sucesso escolar, social e profissional dos imigrantes. Estas exigências linguísticas colocam dificuldades específicas aos imigrantes portugueses de primeira geração?

Diria que os imigrantes têm mais dificuldades para se integrar linguisticamente no Luxemburgo que num país monolingue. Tomemos como exemplo os portugueses imigrados em França, onde há aquilo a que os sócio-linguistas chamam um “monolinguismo de Estado”. Não só são obrigados a aprender imediatamente o francês, como um grande número renuncia mesmo a transmitir a sua língua aos filhos. Regressando à sua questão: sim, a primeira geração de imigrantes tem geralmente dificuldades para se integrar linguisticamente. No Luxemburgo, esta dificuldade é acentuada, paradoxalmente, pelo seu “plurilinguismo de Estado”, instituído em 1984. É preciso dominar pelo menos quatro línguas, os três idiomas do país e o inglês. Também é necessário saber quando e como utilizá-las. Para resumir esta situação, criei o conceito de “competência legítima multilingue”.

Na política, o luxemburguês é "a língua legítima"?

Os debates políticos fazem-se em luxemburguês, a imprensa noticia em regra em alemão e o resultado das deliberações é escrito em francês, a única língua legislativa do país. Mas o Conselho Comunal, o órgão mais próximo das populações, funciona resolutamente em luxemburguês. Poucas pessoas sabem que a lei que instituiu o direito de voto para os estrangeiros nas eleições municipais, em 1999, inclui uma regulamentação sobre as línguas no Conselho Comunal. É, de alguma forma, uma “válvula de segurança” linguística: a língua habitual é o luxemburguês, as outras duas são permitidas.

Para a primeira geração, há um ’teto de vidro’ linguístico, um limite invisível que os impede de chegar ao topo na política?

Sim, este ’teto de vidro’ existe na política, como de resto em todo o lado. Mas não é só uma barreira linguística. Comparando com outros países, pode dizer-se que no Luxemburgo a integração e a ascensão social são facilitadas por ser um país pequeno, mas dificultadas pelo seu multilinguismo. É preciso ter presente que a integração não se faz apenas numa geração. A jovem que vai ser burgomestre em Larochette é descendente de imigrantes cabo-verdianos. Félix Braz, ministro de origem portuguesa, é outro exemplo. De resto, ele não é o único “imigrante de segunda geração” no atual governo. O primeiro-ministro Xavier Bettel diz que é “um quarto russo, um quarto polaco, um quarto francês e um quarto luxemburguês”. Dois outros ministros são de origem italiana.

Muitos estrangeiros tentam aprender luxemburguês, mas têm dificuldades para chegar a um nível competente. É possível para as primeiras gerações?

O dominío de uma língua nunca é perfeito, sobretudo se a aprendemos como língua estrangeira. O trilinguismo oficial no Luxemburgo não foi feito para facilitar as coisas. O recém-chegado tem de fazer uma escolha sobre a língua que vai aprender, e será, pela utilidade económica, provavelmente o francês. Pode viver-se no Luxemburgo sem falar luxemburguês, pode mesmo ser-se bem sucedido em numerosas áreas sem falar luxemburguês ou falando muito pouco.

Além de só ter “a quarta classe”, Vaz do Rio invocou em primeiro lugar as dificuldades em luxemburguês.

O ideal da nossa democracia é que cada cidadão tenha as mesmas oportunidades para participar na vida política. Ora, todos os estudos demonstram que, apesar dos direitos reconhecidos formalmente a todos, a participação na vida política exige uma determinada competência que varia fortemente em função do nível de instrução e a posição na sociedade, entre outros.

Entre os 560 candidatos às últimas legislativas, em 2013, havia apenas três operários. Nas listas de candidatos às eleições municipais esta taxa é certamente superior. Ainda assim, que um operário tenha o melhor resultado na sua autarquia constitui uma verdadeira proeza. Em 2011, José Vaz do Rio tinha sido candidato e tinha conseguido 361 votos. Desta ver conquista 588, uma progressão com que outros nem ousam sonhar, e é a prova de que conseguiu convencer muitos eleitores para além dos jogadores e apoiantes das duas equipas de futebol de que é presidente. O facto de hesitar em assumir o cargo de burgomestre e preferir o de primeiro vereador não é inabitual. Isto porque nas autarquias com voto maioritário [onde não há listas partidárias e os candidatos se apresentam de forma individual], em regra são equipas que se apresentam, e o resultado não passa de um elemento a ter em conta na hora de decidir os papéis no Colégio de Vereadores. A nova burgomestre, Pascale Hansen, é militante ativa do partido liberal (DP) a nível regional. E sobretudo, é advogada, e estará por isso mais à vontade com a burocracia francógrafa da administração comunal. Teria José Vaz do Rio aceitado a função de burgomestre se tivesse melhores competências em luxemburguês? A questão é redutora e típica do debate político no Luxemburgo, onde frequentemente as questões sociais complexas são reduzidas à questão linguística.

Paula Telo Alves


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