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Restauração: "Não vamos aguentar muito mais tempo"

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Restauração: "Não vamos aguentar muito mais tempo"

Restauração: "Não vamos aguentar muito mais tempo"

Restauração: "Não vamos aguentar muito mais tempo"


por Ricardo J. RODRIGUES/ 25.11.2020

O ano tem sido tão terrível para o negócio que Patrick Eriksson, proprietário do Maybe Not Bob’s decidiu manter as decorações do Halloween até ao Natal. Os restaurantes e bares voltam a fechar esta semana e em poucos lugares se consegue perceber melhor a crise do sector do que nas Rives de Clausen.Foto: António Pires

Cafés e restaurantes voltam a fechar esta semana, e assim permanecerão até 15 de dezembro. Mas o receio de que muitos estabelecimentos não consigam voltar a abrir portas é cada vez maior. Os empresários do setor tentam aguentar até ao fim da pandemia.

O ano de 2020 foi tamanho pesadelo que Patrick Eriksson decidiu manter as decorações de Halloween até ao Natal. "É uma ideia justa, manter as teias de aranha e as abóboras assustadoras por toda a parte", diz o proprietário do Maybe Not Bob’s, um restaurante nas Rives de Clausen, o quarteirão de animação noturna construído numa antiga fábrica de cerveja da capital. "Desde março que eu acordo a pensar quanto tempo vou conseguir manter as portas abertas. Arrisco-me a dizer que o mesmo acontece com todos os empresários deste setor. Não vamos aguentar assim muito mais tempo."

Na segunda-feira, 23 de novembro, o primeiro-ministro Xavier Bettel anunciou o encerramento de todos os restaurantes e bares do país, no âmbito das medidas de confinamento parcial para travar a pandemia de covid-19. É a segunda vez que isso acontece este ano – o primeiro decreto de encerramento durou de março ao final de maio, quando vigorava o estado de emergência. "O verão foi fraquinho, não deu para compensar as perdas da primavera. E agora estamos naquela altura em que costumamos equilibrar as contas do ano", diz Eriksson. "Bom, é bastante óbvio que em 2020 isso não vai acontecer."

Foto: António Pires

 As festas de Natal das empresas, balão de oxigénio da restauração em dezembro, estavam já condenadas. Com as mesas limitadas a quatro clientes, muitas não se iriam sequer realizar. "Ah, eu não tenho dúvidas de que muitos negócios já não vão abrir quando tivermos luz verde para voltar ao negócio. Sobretudo os que abriram há menos anos e não tiveram tempo de criar uma almofada financeira para os dias difíceis", diz o dono do Maybe Not Bob’s.

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Um ano terrível
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O Bob’s abriu portas em 1993 e tornou-se num ponto de encontro fundamental da comunidade estrangeira da capital. Começou por ser um bar, que depois introduziu uns grelhados à carta, e de repente se tornou num destino fundamental para quem quisesse ir comer um hamburguer caseiro ou umas costelas de porco. "Em 2017 mudámo-nos da rue de la Tour Jacob para as Rives de Clausen, e passámos de 85 para 125 lugares, mais 80 na espalanada", conta. "Os dois primeiros anos correram bastante bem, tínhamos a casa sempre cheia. Em 2019, os custos do álcool e da comida subiram bastante, e as margens de lucro baixaram. E depois, pronto, veio 2020." Patrick dá este exemplo para explicar a aflição: em 2018 o Bob’s tinha 13 funcionários, em 2019 baixou para 11, agora são nove.

"A restauração é um negócio de paixão, muitos de nós fizemos disto a nossa missão de vida", continua o empresário. "Mas agora sentimo-nos dependentes da solidariedade alheia." Nomeadamente dos fornecedores, a quem muitos donos de restaurantes estão a pedir para adiar o pagamento de contas. "Tentamos gerir as coisas como pudemos. No primeiro confinamento, em março, perdemos 4.500 euros em comida e bens perecíveis. Agora tentámos adaptar-nos, há uma semana que estamos a fazer compras numa base quase diária. Dou um exemplo: costumamos produzir 100 litros de molho barbecue de cada vez, dá-nos para três a cinco dias. Nos últimos tempos, só estávamos a fazer dez litros."

Foto: António Pires

O grande problema, neste momento, continuam a ser as rendas. "Os proprietários das Rives de Clausen não cobraram o mês de abril por causa da pandemia, depois adiaram maio, mas mais ou cedo ou mais tarde teríamos de pagar essa conta. Estou certo que aqui ninguém paga alugueres há sete meses, porque simplesmente não conseguimos faturar para pagar prestações altíssimas", admite Patrick. "Os donos dos imóveis dizem que não têm de pagar eles por medidas que foram decretadas pelo Governo. Então estamos aqui dependentes, à espera que não nos ponham na rua."

Mesmo nos dias em que puderam abrir, durante o verão, o negócio caiu vertiginosamente. "Houve dias em que faturámos menos 10 por cento do que no ano anterior, mas outros em que a quebra foi de 75 por cento", continua o empresário. "Muita gente ganhou medo e não voltou a sair como saía antes. As restrições obrigaram-nos a reduzir as mesas e a investir no combate à pandemia. Mas o pior de tudo tem sido esta incoerência: trabalhamos num negócio de hospitalidade onde temos de policiar os clientes. Caramba, com as máscaras nem sequer conseguimos mostrar um sorriso."

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A vulnerabilidade exposta
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O Governo luxemburguês aceitou duas vezes candidaturas para os negócios que precisassem de apoio, e muitos restaurantes – como o Bob’s – receberam duas vezes um cheque de cinco mil euros. "Também é muito importante que possamos deslocar os funcionários para o desemprego parcial, o que garante que o Estado paga 80 por cento dos salários", diz Eriksson. "Mas o nosso setor está mais vulnerável do que nunca, e penso que continuará a estar mesmo depois de a população ser vacinada. As pessoas estão a habituar-se a ficar em casa e vai ser preciso pensar como se reverte essa situação. Porque o que está a passar-se é realmente grave."

Esta semana, a central sindical OGBL tem-se reunido com a federação Horesca (hotelaria, restauração e catering) para tentar encontrar um acordo que preserve os trabalhadores do setor. "Não é muito comum que nos sentemos à mesa com os patrões para encontrarmos um discurso comum", admite David Angel, que dirige o setor de comércio do sindicato. "Mas percebemos que esta segunda vaga se está a revelar muito mais dura para a restauração do que a primeira. Quem tinha poupanças, já as gastou. O verão foi fraco por causa das restrições. E, mesmo que o Governo crie um novo pacote de ajudas para este segundo confinamento, vai ser impossível salvar toda a gente."

Angel diz que este é, já por si, um dos setores mais vulneráveis da economia – e que a pandemia veio expor todas as feridas que estavam disfarçadas. "Repare que estes trabalhadores ganham normalmente o salário mínimo, que trabalham com horários mais alargados sem a compensação a que as outras atividades têm direito." O facto de a maior parte das empresas terem cinco ou seis trabalhadores não permite ao sindicato auferir os despedimentos exatos, mas há sintomas preocupantes. "Há nesta área muita gente indocumentada, em situação ilegal, que quando o café ou o restaurante fecha não tem como pagar o quarto e vai parar à rua. Temos relatos de que isto está a acontecer. Há empregados que vão parar às ruas e ficam em situação de sem-abrigo no meio de uma pandemia."

Na semana passada, quando o Governo anunciou que poderia voltar a fechar o setor da restauração e das bebidas, a Comissão Consultiva dos Direitos Humanos luxemburguesa veio a público mostrar a sua preocupação com este novo encerramento de um setor que já está a atravessar uma das suas maiores crises. Num parecer sobre as novas medidas restritivas, pediam ao Governo que reforçasse as medidas de apoio aos trabalhadores e às empresas. A federação Horesca veio entretanto dizer que espera que o novo projete lei considere a extensão dos apoios até 100% no pagamento de rendas, contas de eletricidade, água e aquecimento até março de 2021. Além, claro, de manter o pagamento de 80% dos salários de todos os trabalhadores que agora se veem forçados a ir para casa.

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Estratégias de combate
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Dany Francisco é um dos proprietários de dois restaurantes na capital: o Mont Saint-Lambert, em Limpertsberg, e o Hakii, em Belair. Há dois anos, abriu também o Dyonisus, na Gare, que faz apenas entregas ao domicílio de sushi. Quando, a meio de março, o país entrou em estado de emergência, tremeu. "Tínhamos remodelado a cozinha do Hakii no início do ano e o dinheiro que tínhamos de parte não nos permitia funcionar mais de três meses sem faturar. Percebi com os meus sócios que tínhamos de apostar nas entregas a casa desde o primeiro minuto, e foi isso que nos safou."

Foto: António Pires

Assim que os restaurantes foram obrigados a fechar, ele inscreveram-se no Wedely, uma plataforma de entregas de comida a casa. "Tínhamos a nossa própria distribuição, mas não ia chegar para tudo. E foi a melhor coisa que fizemos. Nos primeiros dias, eram muito poucos os restaurantes a fazer take-away ou entregas e o timming, aqui, foi tudo." Nas primeiras semanas, o Hakii era o único restaurante de sushi e o Mont Saint-Lambert o único asiático da capital presentes na plataforma.

Foto: António Pires

As encomendas choviam a tal ponto que decidiram reformular a cozinha do Dyonisus e fazer a partir dali toda a produção de peixe cru. "Fomos buscar quatro sushi-chefs temporariamente a restaurantes que estavam fechados, para nos ajudarem naqueles dias." No final das contas, comparado com o ano anterior, os resultados não foram maus de todo. "Tivemos uma quebra de 20% no Hakii, de 30% no Mont Saint-Lambert e o Dyonisus, na verdade, cresceu", diz o proprietário dos restaurantes. "Mas a verdade é que isto também serviu para apresentarmos os restaurantes, torná-los mais conhecidos junto do público. A nossa clientela cresceu bastante durante o confinamento."

A adaptação foi a chave. "Mesmo que servíssemos os pratos em caixas, tentávamos pensar na apresentação, colocávamos flores, ordenávamos os rolos. Fotografávamos tudo muito bem e fizemos um enorme esforço de divulgação nas redes sociais", conta. "Também adaptámos alguns pratos. No Mont Saint-Lambert servíamos panados que não funcionavam nas entrega ao domicílio, ficavam moles. Então apostámos noutros pratos. As tempuras eram as últimas coisas a entrar nas caixas antes de serem levadas e inventámos novos pratos, como o sushi burrito, que tem tido bastante sucesso."

Foto: António Pires

Se perguntaram a Dany Francisco por um conselho para a segunda vaga do confinamento, ele oferece este: "Apostem na comunicação. Façam vídeos, fotografias, sejam ativos nas redes sociais. A gastar dinheiro, é aí." Com meio mundo fechado em casa, é através do telemóvel que se pede comida. Então que ela apareça convidativa e apetitosa. Enquanto não se voltarem a abrir as portas dos restaurantes, é a festa possível de fazer.

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