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Restauração. E, ao terceiro sábado, o protesto duplicou

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Restauração. E, ao terceiro sábado, o protesto duplicou

Restauração. E, ao terceiro sábado, o protesto duplicou

Restauração. E, ao terceiro sábado, o protesto duplicou


por Ricardo J. Rodrigues/ 23.01.2021

Fotos: António Pires

Pelo terceiro sábado consecutivo, o centro da capital encheu-se com a manifestação do setor Horeca. Desta vez vieram mais de 400 pessoas, o dobro da semana passada. Depois do anúncio governamental de sexta feira, que mantém os restaurantes fechados até 21 de fevereiro, a palavra de ordem era "não nos deixem morrer".

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"Je suis Horesca"
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Ainda o relógio não tinha dobrado as duas da tarde e já a multidão que se concentrava na Praça Guillaume II superava o protesto do sábado passado - em número de pessoas e em ruído. Os trabalhadores do setor dos bares e restaurantes também traziam mais cartazes, mais palavras de ordem, mais revolta para partilhar.

Johnny Mancuso trouxe uma cruz maior do que ele, branca, onde se podia ler "Je suis Horesca". Não estava ali apenas por medo do futuro, estava sobretudo por revolta. "A maneira como o governo nos ignora é absolutamente cretina", atirou. "O primeiro-ministro faz uma conferência de imprensa a anunciar o prolongamento das medidas durante um mês, passa dez minutos a falar do caso Mónica Semedo, mas não é capaz de dirigir uma palavra aos milhares de trabalhadores que estão há semanas a protestar e exigir medidas."

Outras pessoas juntavam-se à sua volta, e anuíam com a cabeça em sinal de aprovação. "É uma arrogância terrível, mas é uma arrogância que torna as coisas muito claras", continuava Mancuso. "Nós estamos pura e simplesmente a ser desprezados pelo governo. Não querem saber de nós. Mas não nos vamos calar. Se morrermos, morreremos a lutar."

Clément Elie, o organizador do protesto de sábado, 23 de janeiro.
Clément Elie, o organizador do protesto de sábado, 23 de janeiro.
Foto: António Pires

Clément Elie, o organizador da marcha deste sábado, já tinha dito ao Contacto que esperava uma multidão maior do que as 200 pessoas que haviam comparecido na última manifestação. "Agora toda esta gente está muito mais zangada. Não só nos sentimos completamente injustiçados como nem sequer têm a cortesia de nos responder." No final da marcha a sua previsão acabaria por mostrar-se certeira: ao nosso jornal, a polícia confirmaria a presença de "pelo menos 400 pessoas."

 

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Os passos em volta
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Foto: António Pires

Às 14h10 Elie agarrou no megafone e anunciou o início da marcha. O grupo descia as escadarias ao lado do Hotel de Ville em direção à Gëlle Fra, interrompendo durante largos minutos trânsito no Boulevard Franklin D. Roosevelt. 

Fernando Luís Costa e Carlos Máximo, do restaurante Moments.
Fernando Luís Costa e Carlos Máximo, do restaurante Moments.
Foto: António Pires

Fernando Luís Costa trazia um quadro de ardósia com as letras SOS. Ele e o sócio, Carlos Máximo, viram a faturação do seu restaurante Moments, em Neudorf, descer 90% em comparação ao ano anterior. "Mais um mês assim e rebentamos. Precisamos de ajuda imediatamente."

Costa ensaiava esta explicação para o silêncio do governo: "O problema é que a Horesca não vota. A maioria dos donos e dos trabalhadores de bares e restaurantes não têm nacionalidade luxemburguesa. Então por que raio se haveriam de preocupar connosco?"

Bruno Ferreira, proprietário do Café Nau, em Rodange, acrescentava outra ideia. "França está em confinamento até março, a Alemanha até ao fim de fevereiro, e Bettel tem de ceder à pressão dos vizinhos porque não se pode dar ao luxo de fechar as fronteiras." 

Bruno Ferreira, do Café Nau, em Rodange.
Bruno Ferreira, do Café Nau, em Rodange.
Foto: António Pires

"Os 200 mil trabalhadores transfronteiriços que entram diariamente no país são essenciais e ele não pode vedar as entradas no país. Mas então, se não pode abrir os restaurantes e bares, tem ao menos de nos auxiliar." Se isso não acontecer, explica, um setor inteiro da economia vai simplesmente desaparecer.

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Laranjas espremidas
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O cozinheiro Simone Mancuso
O cozinheiro Simone Mancuso
Foto: António Pires

"Aidez-nous", "aidez-nous", gritava a multidão enquanto subia para a Place d'Armes. Simone Corrado era dos mais ruidosos. Envergando a jaleca de chef, chocava um batedor de ovos com uma panela para marcar o compasso."Dou emprego a 20 famílias. Os apoios do Estado são poucos e estão em atraso. Sinto-me como uma laranja, espremida até ao limite do sumo. Já não aguentamos mais", dizia.

A comitiva seguiu marcha pela Grand-Rue, onde um músico de rua cantava The Winner Takes It All, dos Abba. Alguns dos manifestantes agarravam nos seus telemóveis e faziam lives para as páginas de facebook dos seus restaurantes, ou para as suas contas privadas. De repente, a polícia dava ordem de paragem à concentração.

Um outro grupo, esse com não mais de 50 pessoas, protestava contra o uso de máscaras e contra a vacinação. "Não nos queremos certamente misturar com eles, porque essa não é a nossa mensagem. Não somos negacionistas de nada, fomos aliás os primeiros a criar condições de segurança nos nossos estabelecimentos", dizia Elie, o organizador da marcha dos restaurantes.

Andrew Martin, criador do movimento #LightsOnLuxembourg
Andrew Martin, criador do movimento #LightsOnLuxembourg
Foto: António Pires

Vinte minutos haveria o grupo de ficar parado na Krautmaart, à espera que o outro protesto abandonasse a praça do Parlamento. Andrew Martin, o criador do movimento #LightsOnLuxembourg - que em poucos dias conseguiu que dezenas de estabelecimentos e centenas de trabalhadores mantivessem as luzes dos restaurantes acesas para mostrar que estão prontos a abrir - assumia a frustração. "Vamos cumprir regras que não fazem sentido algum, porque o resto do comércio tem muito menos medidas de segurança e permanece aberto. As pessoas estão cada vez mais desesperadas e é urgente terem uma resposta e um interlocutor. A Federação Horesca fala com o governo, diz-nos que preenchemos mal os papéis e agora parece que há papéis novos para preencher. Mas não há comunicação de nada, não sabemos de nada. A nossa frustração é também por nos sentirmos completamente abandonados."

Na câmara dos deputados, voltar-se-iam a ouvir os gritos a pedir ajuda, mesmo que todos aqueles manifestantes soubessem que nenhum parlamentar os viria escutar. Então seguiu-se o rumo até à Praça Guillaume II, onde o percurso tinha começado. Agarrando no megafone, Clément Elie prometia não desistir da luta. "No próximo sábado temos de ser ainda mais", dizia. O encontro ficou marcado para 30 de janeiro, no mesmo lugar, desta vez às 15h30. 

 

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