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Editorial Luxemburgo 2 min. 27.03.2019 Do nosso arquivo online

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Foto: Lex Kleren
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Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
São necessários 140 anos em Espanha, cerca de quatro gerações, para que uma família trabalhadora atinja os proveitos necessários para chegar ao rendimento médio desse país. Para aqueles que comentavam que provavelmente em Espanha o “elevador social” estaria avariado, um analista revelava que as únicas sociedades europeias em que esta ascensão social era mais rápida do que no estado espanhol era apenas nos países nórdicos. O que quer dizer que no resto da Europa são precisos muito mais do que 140 anos.

A conhecida frase do título do texto costuma estar bem à vista em alguns estabelecimentos noturnos que exigem uma quantia exorbitante de consumo mínimo para espantar os mais afoitos. Com as devidas distâncias, é aquilo que acontece com o preço da habitação no Luxemburgo.

Se a habitação é o principal problema do país, confirmado pelas sondagens feitas aos eleitores nas últimas eleições, em que mais de 44% se diziam preocupados com esta questão, e nada se fez para o resolver, é porque há pessoas que ganham com esta situação.

De que outra forma se pode perceber que a construção pública de habitação social significa menos de 1% do parque habitacional, quando em França atinge os 20%, e na circunspecta Holanda chega aos 40%?

De que outra forma se pode entender que o Estado tenha repetidamente alienado para os privados terrenos públicos que podiam ser edificáveis, de modo que atualmente as áreas públicas que, segundo os PAG (Plano de Ordenamento do Território, na sigla em francês), podem ser usadas para construir novas habitações, não ultrapassam, somado o Estado e as autarquias, os 11,8%?

A contínua inépcia dos governos ao tratar o problema da habitação não pode passar por mera incompetência: esta gestão é pelo menos uma forma de indiferença interesseira.

A falta de habitação permite selecionar de uma forma eficiente aqueles que podem viver neste país e que têm as condições mínimas de exercer uma qualquer forma de cidadania. Ao ter casas cujo preço aumenta mais de 4,5% ao ano desde 2010, não se está só a condenar a maioria dos trabalhadores imigrantes a serem transfronteiriços, está-se a expulsar muitos dos luxemburgueses filhos daqueles imigrantes que há muito anos vivem no Grão-Ducado e até a enviar para França, Bélgica e Alemanha os cidadãos mais pobres. Para os 10% menos abonados, viver no Luxemburgo significa gastar cerca de 66% do seu rendimento em habitação.

Segundo os estudos oficiais, o sector em que a desigualdade é maior é em relação à posse de terrenos. Aí, o índice de Gini, que mede a desigualdade, é muito superior ao do rendimento entre os mais ricos e os mais pobres e até à desigualdade de património.

Para se perceber o nível desta desigualdade, basta dizer que 1% dos 15.907 proprietários de terrenos detinha 16,4% dos 20,7 mil milhões de euros em que estão avaliados todos os terrenos disponíveis para construção de habitação.

Esta política continuada de habitação significa dar um euromilhões a uns poucos à custa de uma vida amputada de horas diárias em filas de trânsito intermináveis para muitos outros. A uns pede-se que trabalhem para uns poucos poderem mandar em paz.

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O preço louco da habitação está a obrigar os luxemburgueses a ir viver para os países vizinhos, e os seus habitantes a deixar de poder morar também na sua terra, como Arlon. O efeito bola de neve da habitação no Grão-Ducado tem diversas direções: filhos adultos a viver mais tempo com os pais, desigualdades a aumentar e o país a deixar de ser atrativo para os emigrantes.