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"Uma parte de Echternach está perdida para sempre"

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"Uma parte de Echternach está perdida para sempre"

"Uma parte de Echternach está perdida para sempre"
Reportagem

"Uma parte de Echternach está perdida para sempre"


por Ricardo J. Rodrigues/ 10.09.2021

Fotos: RJR

Passaram 50 dias desde as maiores inundações da História do Luxemburgo. Em Echternach, onde tudo foi pior, há quem ainda não tenha podido voltar a casa dois meses depois da evacuação da cidade. O rio pode ter baixado mas as mágoas estão longe de secar.

Ricardo Marques é o vereador com o pelouro da Ação Social na comuna de Echternach. Há dez famílias, na maioria portuguesas, que continuam desalojadas.
Ricardo Marques é o vereador com o pelouro da Ação Social na comuna de Echternach. Há dez famílias, na maioria portuguesas, que continuam desalojadas.

Quase quatro quilómetros separam a casa de Alfredo Moutinho, 51 anos, da residência onde agora está alojado, um pequeno chalet no parque de campismo de Echternach. É ali que ele e a mulher vivem desde que as águas do Sûre subiram e entraram “com uma força dos diabos” pela porta e pelas janelas do pequeno rés do chão que ocupavam no Val des Roses, uma das ruas mais afetadas pelas cheias de julho. “Sinto-me para aqui esquecido e não sei quantos meses vai demorar até conseguir voltar para o meu lar”, diz. “Esta casa foi o fruto do trabalho de uma vida inteira e agora está tudo perdido.”

Alfredo e a mulher são uma das dez famílias que ainda não conseguiram voltar a casa em Echternach. “São quase todos portugueses, tal como eram quase todas portuguesas as 250 pessoas que tivermos de resgatar de barco no dia das inundações”, conta Ricardo Marques, vereador com o pelouro da Ação Social na autarquia local. Na maioria dos casos as pessoas puderam voltar aos seus lares quando as águas baixaram e a humidade das paredes secou. Mas ainda há lugares que a água tornou perigosos – como a casa dos Moutinho.

“Uma parte do teto ruiu e assim que tentei ligar a eletricidade houve um curto-circuito”, explica o homem. “E o pior de tudo é que o seguro não cobre cheias. Então vou ter de esperar por ajudas do Estado para reconstruir o que quer que seja.” Força de braços também lhe falta – tanto ele como a mulher sofrem de esclerose múltipla. “Foi aliás por isso que nos mudámos para esta casa em 2008. Antes vivíamos num terceiro andar e, quando a doença da minha mulher começou a piorar, mudámo-nos para esta casita. Eu na altura ainda podia trabalhar, era socorrista de ambulância. Todas as economias da nossa vida foram investidas aqui.”

“Sinto-me para aqui esquecido e não sei quantos meses vai demorar até conseguir voltar para o meu lar,” diz Alfredo Moutinho.
“Sinto-me para aqui esquecido e não sei quantos meses vai demorar até conseguir voltar para o meu lar,” diz Alfredo Moutinho.

“Há três níveis de ajuda para as pessoas afetadas pelas cheias: o primeiro é o das seguradoras, o segundo é o do estado e o terceiro é o da comuna”, explica o vereador de Echternach. “As famílias que não conseguem voltar a casa são precisamente aquelas cujos seguros não foram ativados. E como os pedidos de ajuda ao governo têm candidaturas abertas até ao fim do ano, na melhor das hipóteses as pessoas só vão receber algum dinheiro em março do próximo ano.” E o apoio autárquico? “Criámos uma conta solidária que tem neste momento 250 mil euros. Servirá para apoiar casos críticos.”

As habitações são a prioridade, mas os estabelecimentos comerciais também vão ser apoiados. “Não foram apenas casas, foram muitas lojas e cafés a serem afetados”, diz Ricardo Marques. “Echternach vive do turismo, mas mais de metade das lojas continuam fechadas – e algumas não voltarão a abrir. Só a nível comunal, os nossos prejuízos são de seis milhões de euros. A nossa piscina, que era um dos orgulhos da cidade, não voltará a abrir. Uma parte da escola elementar também não. Há uma parte de Echternach que está perdida para sempre.”

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Esplendor no entulho
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As águas subiram a 15 de julho, uma quinta feira. A 17, desceram – e nesse dia Echternach tornou-se um cenário quase pós-apocalíptico. “Só se viam frigoríficos e máquinas de lavar a boiar na água”, conta Gil Silva Ferreira, que no dia das inundações tinha contado como ele e mãe tinham fugido da inundação pelo quintal, deixando afogar as memórias de uma vida inteira. “As máquinas costumam ficar nas caves, que foram as primeiras a encher. Foi por isso”, explica o rapaz.

Vai buscar uma fotografia: o Val des Roses com as ruas cheias de máquinas e mobílias de madeira destruídas na enchurrada. Depois havia a lama, as paredes descascadas, pedaços de ferro, troncos de árvore, rodas de bicicletas a encher as ruas que começavam a secar. Em três dias, 520 toneladas de entulho seriam retiradas de Echternach por 100 camiões – vindos de 12 autarquias vizinhas. Um relatório municipal mostra que a subida do nível das águas atingiu um recorde histórico: a água subiu 6,39 metros.

Quando entrou em casa, Gil teve o seu momento de triunfo. “A fritadeira estava a flutuar na água mas a parte elétrica ficou por sorte virada para a superfície. Foi uma das poucas coisas que consegui tirar, e eu sei que pode parecer um bocado parvo, mas no meio de ver tanta coisa perdida conseguir salvar alguma coisa soube mesmo bem.” Logo depois deu com um álbum de fotografias do pai, que morreu o ano passado, completamente arruinado pelo lamaçal. “Foi como se uma flecha me atravessasse o peito.”

O Val des Roses nos dias a seguir à inudação.
O Val des Roses nos dias a seguir à inudação.
Foto: Gil Veloso

A água foi-se, mas deixou um rasto de destruição na casa. Paredes descascadas, o chão levantado, tudo o que era instalações elétricas feito num oito. “Agora estamos a mudar o chão para tijoleira, vamos por uma mesa com tampo de vidro e pés de ferro, tal como o mobiliário todo, e o que puder ser em PVC melhor. Madeira não volta a entrar nesta casa”, conta Gil. Da cozinha só se salvou o forno, e mesmo assim metade ficou inundado, então só a resistência de cima continua a trabalhar. Para cozinhar lasanha não dá: fica queimada no topo e crua no fundo. “Temos um bico de campingaz e é com ele que nos desenrascamos agora.” Não dá para por dois tachos ao lume. Quando o dinheiro do seguro chegar, hão de repor a ordem à nutrição.

Ali ao lado fica a principal rua comercial da cidade. Há 50 dias, a Rue de la Gare era um cais de aflitos: aqui desembarcavam os barcos no dia da evacuação. Agora tem metade das lojas fechadas. Uma das poucas que se mantêm abertas é um oculista que forrou os vidros da parede do rés do chão com cartazes a dizer que o comércio segue aberto no primeiro andar. A água infiltrou-se de tal forma nas paredes dos pisos térreos que rebentou com os radiadores e espalhou o óleo-combustível por toda a parte. O odor da toxicidade atravessa aliás toda aquela artéria pedonal.

Marc Zehren vai fechar de vez a padaria que estava nas mãos da família há mais de 100 anos.
Marc Zehren vai fechar de vez a padaria que estava nas mãos da família há mais de 100 anos.

Lá em baixo fica uma das mais míticas casas da cidade. A Boulangerie Zehren leva mais de uma centena de anos de portas abertas, é uma instituição de Echternach. Ou era, que a água destruiu tudo. “A única coisa que consegui salvar foram as cadeiras da esplanada, já não tive tempo para mais nada”, diz Marc Zehren, o proprietário. “Sou a quarta geração da família a fabricar pão e bolos aqui e, infelizmente, sou eu que vou fechar as portas desta casa para sempre. Não vamos voltar a abrir”, diz com a voz reduzida a um fio.


"Ai, meu Deus, a água vem com uma força que nos engole a vida inteira"
Echternach é um cenário de desolação, com centenas de pessoas a serem resgatadas de barco e a deixarem para trás a vida que levaram anos a construir. Na capital, o pesadelo da noite de quarta regressou ao final da manhã de quinta. As histórias de quem avalia perdas, estragos e as memórias que a tempestade levou.

As paredes estão todas rebentadas. A decoração em madeira não resistiu. Mas o grande problema está nas traseiras. “Há sete anos tinha comprado um forno industrial que me custou 250 mil euros. Ainda o estou a pagar, mas agora ele ficou completamente destruído”, conta o padeiro. O seguro, cobria infiltrações de água, mas não cheias. “Já não tenho forças para recomeçar do zero. O que me custa mais é que dava emprego a oito pessoas, e não poder continuar a fazê-lo.” É um capítulo da história dos Zehren que se encerra agora. E de Echternach, também.

A cozinha da padaria Zehren ficou totalmente destruída. Incluindo o forno industrial que Marc comprou há sete anos e ainda está a pagar. Custou 250 mil euros.
A cozinha da padaria Zehren ficou totalmente destruída. Incluindo o forno industrial que Marc comprou há sete anos e ainda está a pagar. Custou 250 mil euros.

 “Há uma série de tragédias pessoais a acontecer todos os dias diante dos nossos olhos, mas não fomos capazes de contá-las e isso doi bastante”, diz Luc Hurt, presidente da Radio Aktiv – uma pequena rádio comunitária falada em várias línguas, que emite a partir do antigo posto fronteiriço da guarda fiscal – junto à ponte internacional de onde parte a procissão dançante de Echternach, classificada Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

No primeiro confinamento, foi destes microfones que se levantou o protesto contra o encerramento da fronteira com a Alemanha. Os altifalantes passavam músicas de contestação e entrevistavam gente que se dizia prejudicada pelas novas barreiras. “Dar voz à comunidade sempre foi a nossa missão maior”, diz Hurt. “Só que a água entrou pela cave das instalações e deu cabo do sistema elétrico inteiro, estivemos vários dias sem conseguir emitir.” A frustração foi total.

Luc Hurt preside à Radio Aktiv, uma rádio comunitária. A sua frustração maior foi não poder reportar pelos microfones a aflição dos dias das cheias.
Luc Hurt preside à Radio Aktiv, uma rádio comunitária. A sua frustração maior foi não poder reportar pelos microfones a aflição dos dias das cheias.

No momento em que os cidadãos mais precisavam de informação, não foram capazes de prestá-la. “A partir do dia em que voltámos a emitir temo-nos desdobrado a tentar contar o que aconteceu, a dar informações de como se pode pedir ajuda, ou simplesmente a ouvir alguém falar do que sofreu e o que está agora a passar.” Mas nunca perde a sensação de estar a correr atrás do prejuízo. A água levou tudo e até calou a conversa.

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Mergulho em tanque vazio
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Agostinho Saraiva no Centro de Devéloppment Intellectuel. A associação que apoia jovens com deficiências ou dificuldades de aprendizagem não vai abrir portas no início do ano letivo.
Agostinho Saraiva no Centro de Devéloppment Intellectuel. A associação que apoia jovens com deficiências ou dificuldades de aprendizagem não vai abrir portas no início do ano letivo.

Pelos vidros nota-se bem a força da água. Estão rachados e os cacos espalham-se no tanque da piscina de Echternach, a jóia desportiva da cidade. Aqui treinavam duas mil pessoas por semana e formaram-se vários atletas olímpicos do país. Era a casa dos nadadores do Club de Natation de Echternach, dos saltadores para a água do Haemelmaous Divers e dos triatletas do Thriathlon Grevenmacher. “Mas para mim o mais importante de tudo eram os alunos das escolas da região, que vinham todos nadar aqui. Conheço toda a gente pelo nome no Leste do país. Conheço todos os miúdos e não me consigo adaptar à ideia de que vamos fechar para sempre”, diz Serge Kremer. 

Nos últimos 17 anos, o homem ocupou o posto de mestre nadador desta piscina. Era o responsável pelas instalações e pela segurança do complexo, além de ensinar aos miúdos o movimento exato de uma braçada. “Eu estava aqui quando a água começou a entrar. Nunca pensei que ela subisse tanto e desse cabo disto tudo. E quando digo isto falo da minha vida. Isto era a minha vida”, e os olhos a encherem-se com o Sûre, também.

Serge Kremer está inconsolável por a piscina não voltar a abrir.
Serge Kremer está inconsolável por a piscina não voltar a abrir.

As frechas e as infiltrações que a subida do rio deixou na estrutura não permitem recuperar o edifício por menos de um milhão de euros. O conselho comunal já decidiu que seria melhor fechar a piscina de vez e construir uma nova: o orçamento para uma estrutura construida de raiz é de dois milhões. Mas quando olha para o tanque cheio de entulho Kremer não consegue evitar a tristeza. O orgulho de Echternach era também a paixão da sua vida. E o que ele mais teme agora é que a idade da reforma chegue sem que nenhum tanque esteja cheio de água.

Ali ao lado fica a escola primária onde Carlos Gonçalves aprendeu a ler. Tem 20 anos, está a estudar para professor primário e o seu sonho era precisamente dar aulas ali. Com a subida do Sûre o piso mais baixo do edifício ficou inutilizado – e o segundo inundado até meio. “Agora estamos a instalar grandes desumidificadores para tirar a água das paredes. Não podemos ter crianças aqui nestas condições.”

A comuna de Echternach tem um programa de emprego para jovens estudantes nas férias – regra geral na limpeza das florestas. Carlos inscreveu-se mas desde 15 de julho que muitos dos seus dias são passados aqui, nos trabalhos de limpeza da escola onde um dia quer dar aulas. “Vamos ter de instalar contentores provisórios para compensar as salas perdidas. Não é a mesma coisa mas é o que podemos fazer por agora.” E, apesar do seu programa de férias estar a terminar, recusa-se a deixar o trabalho antes de ele estar concluído.

Carlos Gonçalves recusa abandonar os trabalhos enquanto a escola onde estudou não estiver pronta para as crianças.
Carlos Gonçalves recusa abandonar os trabalhos enquanto a escola onde estudou não estiver pronta para as crianças.

Umas ruas acima Agostinho Saraiva também não desarma. Há vários dias que anda sozinho a limpar e tentar arrumar o que consegue no Centre de Devéloppment Intellectuel, uma organização que dá formação prática a jovens com deficiências e dificuldades de aprendizagem. As oficinas de carpintaria, onde ele era formador, ficaram completamente inundadas. “É que não sobrou uma lima. Até termos o material e as madeiras repostas vão demorar meses. E esses são meses de oportunidades que estamos a roubar a quem já as tem poucas.”

Ao seu lado grandes tubos de captação de humidade trabalham continuamente e sem grande ruído. Mas Agostinho não está ali apenas para guardar a maquinaria. É que no meio dos destroços sempre se encontram bons pedaços de madeira, se investir do seu bolso em duas ou três ferramentas vai pelo menos continuar a ensinar os miúdos. “É certo e sabido que não vamos abir portas para a semana, como estava previsto. A água parece ter secado, mas ainda temos uma longa espera até ficar tudo enxuto.”

Quase dois meses depois de as águas recuarem, há muito para fazer na cidade que o Luxemburgo teve de evacuar por causa das cheias. As ruas podem parecer secas, sim, mas os olhos dos habitantes de Echternach continuam encharcados.

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