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Reportagem. Domingo em Ettelbruck é tesouro do mundo inteiro
Luxemburgo 10 min. 16.11.2019

Reportagem. Domingo em Ettelbruck é tesouro do mundo inteiro

Reportagem. Domingo em Ettelbruck é tesouro do mundo inteiro

Laurent Blum
Luxemburgo 10 min. 16.11.2019

Reportagem. Domingo em Ettelbruck é tesouro do mundo inteiro

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Vêm da Holanda e da Bélgica, até vêm de Paris. Desaguam todos no Étoiles, um pequeno restaurante no norte do Luxemburgo onde, aos domingos e apenas aos domingos, se cantam mornas ao desafio. História da procissão musical que os cabo-verdianos do centro da Europa cumprem até uma tasca de Ettelbruck, para perceber como uma canção tropical se tornou Património da Humanidade.

“Já está, zero graus, esta semana neva”, discursa para plateia nenhuma Dani da Cruz, 40 anos, enquanto fuma um cigarro à porta do Étoiles de Cap Vert, em Ettelbruck. No telefone confirma a meteorologia, mas dentro do restaurante a conversa é outra. A partir das 18h a casa fica cheia, por isso agora sopra ali um calorzinho dos trópicos. “Cá fora é Luxemburgo, lá dentro é Cabo Verde”, ri o homem. Tem toda a razão: quando soam os primeiros acordes da morna, já ninguém está na Europa.

É assim todos os domingos. Das seis da tarde às dez da noite, o que na maioria das vezes significa onze e pouco, o 41 da avenue J.F. Kennedy transforma-se em ilha africana. É noite de morna em Ettelbruck, sempre com música ao vivo. “Aqui, a maioria dos cabo-verdianos vem de Santo Antão, e é por isso que se faz a noitada ao domingo e não à sexta ou ao sábado”, explica Alcídio Francês, dono da casa. “É que, lá na ilha, toda a gente apanha o barco e vai curtir para São Vicente ao fim de semana. O dia da festa rija é no regresso, começa no fim da tarde de domingo e prolonga-se noite dentro.”

Logo da entrada certifica-se a história de um país inteiro – tal como há mais cabo-verdianos emigrados do que a viver no arquipélago, aqui há três vezes mais gente de pé do que sentada nas mesas, ainda que estas estejam todas cheias. Os homens acotovelam-se a pedir grogue, ou minis, ou ponche de coco. Mas então a luz baixa ligeiramente, sinal de que os músicos estão prontos. A morna vai arrancar e o primeiro dedilhar de cordas é anúncio de que vem lá magia. Dezenas de pessoas calam-se subitamente, há uma sala inteira a suster a respiração. É agora.

Di nôs terra

“Para um país onde é tão difícil construir uma identidade, Cabo Verde conseguiu encontrá-la em nenhum outro sítio como na morna”, diz ao Contacto Paulo Lima, o antropólogo que coordena a candidatura da canção a Património Imaterial da Humanidade. “Temos de ver que é uma nação jovem, independente há menos de meio século. Que a população não só está dispersa por uma dezena de ilhas como se espalhou pelo mundo tudo – há mais diáspora do que habitantes no território. E, no entanto, esta expressão cultural é comum a toda a gente. Não se pode pensar Cabo Verde sem se pensar em morna. E vice-versa.”

Na semana passada, Abraão Vicente, ministro cabo-verdiano da Cultura, anunciou no seu Facebook que a morna já era património do mundo, provocando celebrações um pouco pelo mundo inteiro – e no último domingo em Ettelbruck. Mas a UNESCO ainda não confirmou a resolução. Só o fará entre 8 e 14 de dezembro, depois de o Comité Intergovernamental de Salvaguarda do Património Imaterial da Humanidade se reunir em Bogotá, na Colômbia.

“Não tenho a menor dúvida de que vai ser aprovado”, diz Lima, que trabalhou nas candidaturas portuguesas do fado, da arte chocalheira e do cante alentejano, todas com sucesso. “Em fevereiro uma comissão de avaliação internacional da UNESCO analisou o dossier e em novembro aprovou-o sem quaisquer lacunas. É só questão de esperar mais um bocadinho.”

Então digam lá ao povo que se juntou no último domingo nos Étoiles para esperar par fazer a festa. É que há pouco a banda sacou os acordes de Sab Sebim e o restaurante arrebitou. Lá atrás do balcão, a cozinheira Vitória pega no irmão Carlos para dançar. Rodopiam, cantam as saudades insulares, e “ai que ainda queimo as moelas.” A letra fala da maravilha das ilhas – das noites a beber grogue e das festas na praia da Laginha, dos churrascos na Baía das Gatas e nos amores de São João. Sab Sebim é crioulo para está tudo bom.

É por ser profundamente íntima, e ao mesmo tempo espetacularmente agregadora, que a canção cabo-verdiana se prepara para ser património do mundo inteiro. “A morna tem uma relação com o fado português, com o tango argentino ou com a rumba cubana. Todas elas são canções portuárias, que saem por via marítima para o mundo, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX”, diz o antropólogo Paulo Lima. O lamento dos que partem, e o dos que ficam, é aperto de coração que tem vista para o planeta inteiro. Seja em que ritmo for.

“Às vezes parece a minha história”, confirma a cozinheira Vitória, que deixou-se de cantilenas e agarrou-se a uma faca de talhante para cortar umas cebolas miúdas. “Há mornas que é como se a minha mãe tivesse vindo contar-me um segredo ao ouvido. Batem forte aqui dentro.” O Atlântico sobe-lhe aos olhos, mas ela recusa que seja da saudade. “Nós dançamos o nosso sofrimento. Os funerais são como os casamentos e os batizados: cantamos sempre. Por mais que o mundo dê sova, cabo-verdiano encontra sempre o caminho para festa.” Puxa de um lenço para enxugar a vista. “Ná, estas lágrimas são das cebolas.”

O umbigo do mundo

Amanhã é que vão ser elas. Nenny Silva, 47 anos, já percebeu que dificilmente sairá de Etterlbruck antes da meia noite, depois ainda terá de cumprir quatro horas e meia de carro até Roterdão, onde vive. “O diabo é que pego no serviço às 7h25.” Trabalha numa refinaria de petróleo, mas sempre que pode faz o circuito dos bares para cantar Cabo Verde e está contente de ter vindo a Ettelbruck no preciso momento em que corre o anúncio do música do seu país ser do mundo inteiro.

“Há qualquer coisa aqui no Luxemburgo. Há um gosto pela tradição musical pura, sem adulterações. Na Holanda, ou em França, a morna está a misturar-se com outros géneros, a crescer em vários sentidos. Aqui eu encontro qualquer coisa mais pura.” É o velhote cansado que lhe pede uma cantiga da sua infância. É a dona de casa que toma o palco largando o saco de compras porque aquela música ela tem mesmo de cantar. São os miúdos que já nasceram na diáspora e lhe perguntam pelos autores antigos. “Aqui não tem gin tónico, percebes? É grogue e pronto.”

Talvez seja por isso que, ao domingo, desaguem em Ettelbruck crioulos de todas as proveniências. Está ali um casal que veio da Bélgica e duas senhoras compostas que chegam de França. E há Dónnice Oliveira, que veio de Paris. Tem 24 anos, há de apanhar o primeiro comboio para casa, mas à noite morna nos Étoiles não há de faltar. “O meu avô era o fã número um do Ildo Lobo, tinha todos os discos, e eu cresci a ouvir.” Viveu em Santo Antão até aos 18. “E é curioso, porque lá eu não ligava tanto à morna, ouvia rap, ouvia kizomba. Mas depois de sair comecei a precisar disto.”

Diz que há um risco na emigração: ser-se absorvido pela cultura do país onde se chega e esquecer-se do lugar de onde se partiu. “Tens de te afirmar, e afirmas-te precisamente com aquilo que rejeitavas na adolescência: as tradições dos teus velhos.” Quando leu as notícias de que a morna era património mundial soube que tinha de ir a Ettelbruck. A irmã vive perto, já tinha vindo à festa de domingo à noite, e depois sentiu uma coisa no peito a puxá-lo para casa. “É que este é um momento de afirmação, em que os cabo-verdianos podem sentir orgulho de si mesmos, sair do anonimato. A emigração esconde-nos sempre um bocadinho, mas por uma vez podemos ser grandes.” Então era aqui, onde todos os domingos um restaurante se transforma em terra africana, que ele tinha de estar.

Nenny, entretanto, voltou ao palco, agora é mais mestre de cerimónias do que cantor. Vai chamando uma e outra pessoa para vir ao palco, mas nas mesas toda a gente canta, e às tantas um grupo de rapazes começam a fazer beatbox com as gargantas para acompanhar a batida. “A morna não é como o folclore, em que há sempre a reconstituição histórica de uma tradição. É antes um organismo vivo, que se reinventa todos os dias nas mais variadíssimas geografias”, diz Lima, o antopólogo. Aqui e agora, em Ettelbruck, não está apenas vivo. Está, sem ponta de exagero, em êxtase.

Cantar para resistir

Alto lá, que agora o capitão foi chamado ao palco. Tem 54 anos, o Jorge Barros, mas aqui todos o tratam por Djôy D’ninha. Camisola vermelha do Micau, clube dos cabo-verdianos no Luxemburgo, uma boina de velho lobo do mar, postura de sábio, e uma voz das cavernas. “Vai, capitão”, e ele vai, a mesma ginga com que dançava a morna na cratera onde cresceu. Da Pedra Lume, na ilha do Sal, fez-se cantor de mornas e jogador de futebol. Depois a vida deu outras voltas.

Foi jogador da Seleção do arquipélago e aos 22 anos saltou para Portugal – prometeram-lhe a Académica de Viseu, da Liga de Honra, mas afinal foi parar o Mora, da III Divisão. Seis anos passou em rodagem pelos clubes do sul, até se cansar da bola. “Conheci a minha mulher no Alentejo, tivemos cinco filhos. E a determinada altura acabou-se a festa, era preciso alimentar aquelas bocas todas.” Ainda esteve numa fábrica de alumínios no Cacém, arredores de Lisboa, mas era salário pouco para tanta necessidade. Seguiu marcha.

Tentou uns anos na Suíça, outros em França, mas faltava-lhe o crioulo. Os cabo-verdianos já tinham uma comunidade estabelecida desde os anos 1960 no Luxemburgo, aqui sempre havia quem o quisesse ouvir cantar à dor. Chegou há 21 anos, fez-se motorista nas entregas, estrela de futebol no Micau. E à noite punha-se a cantar B’Leza e Paulinho Vieira, Ildo Lobo e até Cesária. “Nessa altura eu percebi como estava adormecido. A morna é como acordar, é como comer ou respirar. Se a abafamos em nós, definhamos aos pedacinhos.”

A cantiga dos cabo-verdianos, agora de um planeta inteiro, tem aliás uma longa tradição de resistência. Foi canto da luta dos independentistas e a banda sonora do PAIGC de Amílcar Cabral. Marcava o ritmo dos trabalhos nas fábricas e nas embarcações. Hoje alivia um povo que se habitua a fazer-se de menos. “Quando és forasteiro, e os cabo-verdianos vivem quase todos fora, encolhes-te. Habituas-te a não criar ondas, mesmo que a onda seja boa. E depois dizem-te que a tua música é património e tu enches o peito de ar, puxas os ombros para trás, cresces.”

Aponta um dedo e fá-lo rodopiar, estão dezenas de pessoas de sorriso na cara. “Este povo luta duro para ganhar a vida. Nascemos numa terra seca, onde não tínhamos nada, e fizemos do nosso país um caso de sucesso africano. Saímos, lutámos, choramos sempre com a distância, mas na hora da morna já não doi nada, é o nosso remédio. Agora o mundo bate-nos palmas e isso tem um valor para nós que ninguém pode imaginar.”

Nove da noite e ninguém arreda pé. Dez, onze e só se acaba a festa porque não tarda nada sai o último comboio para a capital – há de seguir cheio com a clientela dos Etoiles. Na cozinha Vitória descansa, finalmente. Serviu pastéis de atum e moreia frita, além da cachupa ainda se pôs a preparar midj ingron, ou milho e grão, aos domingos há festa mas ela não tem mãos a medir. Nenny não quer largr o microfone, está feliz que se farta com a morna que é do mundo, e ainda quase nem chegou à Cesária.

Mas vai uma última, e a última é a que globalizou a morna. Cumpre as regras todas – a letra a refletir a dureza da vida, o arranque que não é mais do que um sopro de voz, a guitarra a prolongar o final da quadra e subir meio tom quando vira para o refrão. Há um milésimo de segundo de silêncio antes deste povo todo embalar em coro, e nesse momento o silêncio enche o espaço todo, enche o planeta todo, enche a humanidade inteira. E depois vai: “Sôdade, sôdade...” O resto o mundo sabe. 


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