Escolha as suas informações

Reportagem: 500 portugueses recorreram à "sopa dos pobres" no Luxemburgo
Luxemburgo 9 min. 03.02.2016

Reportagem: 500 portugueses recorreram à "sopa dos pobres" no Luxemburgo

A cantina da "Voz da Rua" foi criada para os sem-abrigo, mas há cada vez mais pessoas que trabalham ou têm reformas baixas e não conseguem chegar ao fim do mês

Reportagem: 500 portugueses recorreram à "sopa dos pobres" no Luxemburgo

A cantina da "Voz da Rua" foi criada para os sem-abrigo, mas há cada vez mais pessoas que trabalham ou têm reformas baixas e não conseguem chegar ao fim do mês
Fotos: Paulo Lobo
Luxemburgo 9 min. 03.02.2016

Reportagem: 500 portugueses recorreram à "sopa dos pobres" no Luxemburgo

No último ano, 500 portugueses passaram pela cantina da Stëmm vun der Strooss ("A Voz da Rua"), que serve refeições a sem-abrigo e pessoas em situação precária. Nem todos vivem na rua: há quem tenha reformas tão baixas que não consegue chegar ao fim do mês e quem não possa sequer pagar os 50 cêntimos que custa o almoço na cantina social.

À hora do almoço, a sala da Stëmm vun der Strooss ("A Voz da Rua"), em Hollerich, está sempre cheia, mas quase nem se ouve o barulho dos talheres. Entre os comensais que partilham as mesas, a maioria homens sozinhos, reina um silêncio envergonhado que o distingue de outros restaurantes. Mas se os utentes da cantina para sem-abrigo falassem, o português seria a língua mais ouvida.

No ano passado passaram por lá 500 portugueses, um número superior ao dos luxemburgueses que recorreram à "sopa dos pobres" (484 pessoas), segundo dados da associação. Os portugueses são quem mais recorre à cantina social, representando 18,5% do total, uma percentagem que sobe para 23% no caso do restaurante em Esch-Sur-Alzette (241 pessoas), e não são todos sem-abrigo.

Teixeira tem 64 anos e chegou ao Luxemburgo há quatro, empurrado pela crise em Portugal. Tem cabelos brancos, idade para ser avô, mas "reforma nem vê-la, e ajudas do Estado também não". "Fui à falência, tinha lá um café e tive de o entregar ao banco. Vim à boleia com outro rapaz, à aventura, a pensar que me desenrascava. Lá já estava a pensar em suicídio, havia dias que não comia", conta no tom baixo que todos usam na cantina. Agora trabalha a negro na construção ou a fazer mudanças, sem saber se vai ter dinheiro para pagar a renda do estúdio que alugou do outro lado da fronteira, em França. "Hoje posso ter 20 euros no bolso, amanhã 50. Se tivesse salário já escusava de vir aqui".

Aqui, por 50 cêntimos, pode-se comer sopa, o prato do dia e fruta. Quem não tem sequer 50 cêntimos no bolso tem direito a sopa quente e sandes.

"Passam por aqui muitos, muitos portugueses", confirma Maria (nome fictício), que trabalha na cozinha e se reveza com os colegas a servir ao balcão. "Há muitos que não têm sequer 50 cêntimos, e eu às vezes tenho pena e dou-lhes, sem eles saberem". Alguns "vivem na rua e não têm direito ao RMG [Rendimento Mínimo Garantido]", mas também "há muitos que recebem pouco, pagam uma renda enorme e têm filhos na escola", conta.

Maria sabe do que fala: com dois filhos menores e um salário de 1.400 euros (metade vai para a renda), ela própria tem dificuldades para chegar ao fim do mês, e até lhe "dá jeito levar comida para casa".

O perfil dos portugueses que recorrem à cantina social é variado e não se limita a quem vive na rua.

"Há pessoas sem-abrigo que têm problemas de toxicodependência, pessoas que trabalham e têm dificuldades para fazer face às despesas e aproveitam para vir comer aqui, e pessoas idosas que recebem pensões de reforma muito baixas e não têm dinheiro suficiente para viver", explica a assistente social da "Voz da Rua", Charlotte Marx.

A assistente social diz que a pobreza está a aumentar para todas as nacionalidades e que a associação está a rebentar pelas costuras. "Há dois anos tínhamos uma média de 100 pessoas por dia, agora estamos com 180. Há dias tivemos 320 pessoas num só dia. Há cada vez mais pessoas que trabalham e não têm dinheiro para viver, e temos muitos portugueses que também vêm buscar roupas".

Na cantina da associação Stëmm vun der Strooss (“A Voz da Rua”), aberta à hora de almoço de segunda a sexta-feira, o prato do dia custa 50 cêntimos, mas há quem não tenha sequer esse valor. Para quem não pode pagar, a sopa é gratuita
Na cantina da associação Stëmm vun der Strooss (“A Voz da Rua”), aberta à hora de almoço de segunda a sexta-feira, o prato do dia custa 50 cêntimos, mas há quem não tenha sequer esse valor. Para quem não pode pagar, a sopa é gratuita
Foto: Paulo Lobo

João (nome fictício) tem 55 anos e recebe uma pensão de invalidez, depois de ter sido submetido a uma cirurgia cardíaca de peito aberto para colocar um 'pacemaker'. "Já fui autopsiado em vida", brinca o cozinheiro, que chegou ao Luxemburgo em 2005. O português vive num quarto por cima de um café, "sem condições" nem acesso à cozinha. "À noite é à base de sandes e leite, por causa do coração", e ao almoço vem à cantina social, até porque de outra maneira "o dinheiro não chegava".

"Recebo 1.300 euros e não chega. Pago 400 euros pelo quarto e tenho de enviar 300 euros à minha mulher em Portugal para pagar a renda de casa e dinheiro para os filhos [dois de um primeiro casamento e duas filhas menores da mulher]. Ela trabalha das sete da noite às nove da manhã a tomar conta de idosos, sem caixa, sem nada, e recebe 300 euros por mês".

A família vive com o dinheiro contado, mas mesmo assim João sofreu cortes na reforma que recebia em Portugal. "Portugal cortou-me 50 e tal euros, porque como estou a receber cá, eles acham uma fortuna. Se eles chamam pensão a 104 euros, não sei como chamam àqueles que têm duas ou três pensões, e uma pessoa está com uma pensão de miséria e dizem que não se pode ter pensão acumulada. Tudo bem, são as leis deles", diz.

João gostava que o deixassem voltar para Portugal, mas a pensão que recebe, o Rendimento para Pessoas com Deficiência Grave (RPGH, em francês), obriga-o a viver no Luxemburgo. "Não consigo arranjar habitação para ela vir também, ainda por cima dizem que tinha de ser um apartamento com dois quartos, por causa das duas meninas. Eu estou sozinho cá, ela está sozinha lá".

Não é caso único: o CONTACTO falou com mais um português a receber o RPGH, por causa de uma grave deformação nos ossos que o impede de trabalhar. Tem 44 anos e já nasceu no Luxemburgo, mas se pudesse deixava o quarto do café onde vive, sem cozinha nem micro-ondas, e "ia já para Portugal".

Sentado ao lado de João, já com o prato de massa com carne terminado, está um português a viver há 26 anos no Luxemburgo, também com uma pensão de invalidez. "Tive seis acidentes de trabalho, sempre a cair", conta este reformado da construção, de 53 anos. "Parti um braço, fui operado duas vezes ao joelho, uma à coluna, e depois apanhei uma depressão". Hoje recebe 1.250 euros de reforma. A mulher trabalha só algumas horas por dia e o filho "não consegue trabalho fixo" nas agências de trabalho temporário. "Se a reforma não fosse tão baixa, não precisava de vir aqui. Mas há pessoas que estão em condições mais precárias do que eu e não têm mesmo nada".

UM CÍRCULO VICIOSO

Frederico tem duas mantas que lhe deram na "Voz da Rua", veste roupa em segunda mão e não tem "mais nada" a que chamar seu. O português de 34 anos vive nas ruas há um ano e meio e come o prato do dia com sofreguidão. "Durmo quase sempre na rua, nas entradas dos prédios. Estou sempre a levar com a polícia, ainda ontem me chamaram a polícia. Eles são simpáticos, fazem a identificação e depois mandam a gente embora". O elogio à Polícia não esconde qualquer ironia: Frederico fala sempre de forma resignada, mesmo quando conta o inferno burocrático que o deixou na rua, e é o primeiro a dar-se como culpado por ter caído nas malhas da droga.

O jovem chegou ao Luxemburgo em 2008. Veio com a ex-namorada e ainda trabalhou numa empresa de granito até 2013. Depois foi despedido, perdeu o subsídio de desemprego e acabou a viver nas ruas, uma espiral que o levou a voltar à heroína que consumia em Portugal desde os 18 anos. Como não tem morada, não tem direito a ajudas sociais, e a metadona que consome diariamente, "mais barata que a heroína", é paga por inteiro, a preços do mercado negro. Uma caixa para dois dias custa-lhe dez euros, o que o obriga a passar os dias "a arrumar carros" ou a pedir nas ruas.

"Envergonho-me. É sempre mau pedir, porque há pessoas que me dizem 'não tem nenhuma deficiência', 'tu podes ir trabalhar', mas pelo menos eu não roubo e não me meto em tráfico". Antes de a rua lhe ter deixado marcas, ainda fazia "umas bricolas", mas agora as mãos sujas, as roupas coçadas e o cabelo em desalinho não são um bom cartão-de-visita.

"Precisava de uma morada para pôr a vida nos eixos e ter ao menos um quartito", diz Frederico, que não consegue obter a autorização de residência permanente a atestar que vive no Luxemburgo há mais de cinco anos, necessária para conseguir cama no Foyer Ulysse. Sem morada e sem papéis, caiu numa espiral de que é difícil sair, explica a assistente social.

"É um círculo vicioso para os estrangeiros, porque para terem autorização de residência têm de ter uma morada, e para terem uma morada precisam de ter um alojamento, mas para isso precisam de ter dinheiro e um emprego, e para terem emprego é preciso morada... Mas mesmo que tenham algum dinheiro e recebam o RMG, os proprietários não querem alugar".

Viver na rua quebra as pessoas, e quanto mais o tempo passa, mais difícil se torna sair. "É cada vez mais difícil: a saúde degrada-se, e mesmo para ir às agências de trabalho temporário não é fácil", diz Charlotte Marx.

No Inverno, Frederico podia dormir no abrigo temporário organizado pelo Governo luxemburguês ou no Abrigado, um albergue nocturno para toxicodependentes, mas por causa da burocracia e de ter de se levantar "às 7 da manhã" já se habituou a dormir na rua, tal como a maioria dos sem-abrigo. "Os 'foyers' têm muitos constrangimentos e eles querem manter a liberdade", explica a assistente social.

O português admite que tem medo de morrer de hipotermia, como o sem-abrigo francês que morreu de frio há um ano, em Fevereiro de 2015, perto do busto de Camões, em Bonnevoie, mas mesmo assim vai continuar a dormir nas ruas. "Tenho as minhas mantas", diz, a apontar com o queixo para o saco que transporta para todo o lado. E para comer à noite, quando a "Voz da Rua" está fechada? "Ou levo daqui uma sandes ou peço aqui ou acolá".

Ao balcão da cantina onde o café é servido a 25 cêntimos, um alemão quer saber em que língua falamos. "Português? Isso não é bom", diz. Mostra uma carta com uma oferta do centro de emprego (ADEM) que pede candidatos que falem "francês e português". "Estamos no Luxemburgo, isto não é normal", acusa o imigrante alemão.

A assistente social da associação garante ainda assim que não há problemas de xenofobia na cantina. "Temos 86 nacionalidades diferentes e não temos mais problemas por isso".

Paula Telo Alves


Notícias relacionadas

Cafés de tirar o sono
Esch e Differdange abriram caça aos cafés que alugam quartos insalubres. Por cima dos estabelecimentos, a maioria explorados por portugueses, as autoridades descobriram condições de tirar o sono. Em Differdange há 17 pessoas a partilhar uma só sanita e duche, e quartos com 1,5 m de altura. Em Esch a autarquia teme uma tragédia. A maioria dos cerca de mil hóspedes nestas condições são portugueses recém-chegados ao Luxemburgo a trabalhar na construção: pagam entre 300 a 650 euros para dormir num quarto com mais duas a quatro pessoas, com ou sem alimentação.
Trabalhadores recrutados em Portugal acabam explorados em obras no Luxemburgo
Há portugueses recrutados por empresas de construção em Portugal para trabalhar no Luxemburgo que acabam a ser explorados. Recebem salários muito abaixo do mínimo luxemburguês e trabalham domingos e feriados. Sem conhecerem o país nem a língua, são poucos os que apresentam queixa, diz o 
sindicato LCGB.