Escolha as suas informações

Alunos regressam às escolas com a ameaça da quarta vaga

  • Usar ou não máscara?
  • A escola fundamental será o ambiente crítico
  • Recuperar o atraso
  • O desafio de aprender três linguas ao mesmo tempo
  • Problemas psicológicos crescem cada ano que passa
  • Uma longa lista de exigências
  • Formar cidadãos que percebam o mundo
  • Usar ou não máscara? 1/7
  • A escola fundamental será o ambiente crítico 2/7
  • Recuperar o atraso 3/7
  • O desafio de aprender três linguas ao mesmo tempo 4/7
  • Problemas psicológicos crescem cada ano que passa 5/7
  • Uma longa lista de exigências 6/7
  • Formar cidadãos que percebam o mundo 7/7

Alunos regressam às escolas com a ameaça da quarta vaga

Alunos regressam às escolas com a ameaça da quarta vaga
Rentrée escolar

Alunos regressam às escolas com a ameaça da quarta vaga


por Madalena QUEIRÓS/ 15.09.2021

Foto: António Pires

Cerca de 108 mil alunos regressam hoje às salas de aulas, no Luxemburgo. Depois de dois anos de pandemia, será um regresso à “vida normal”?

Iara Costa e a mãe Joana Malaquias.
1

Usar ou não máscara?
Copiar o link

Iara Costa e a mãe Joana Malaquias.
Foto: DR

Está cansada de usar máscara porque não consegue respirar. “As pessoas assim não me conhecem”, desabafa Iara Costa, sete anos, aluna da escola primária de Beaufort, no Luxemburgo. Mas a verdade é que a maioria das vezes não abdica desta proteção. “Tenho que obrigar a minha filha a tirá-la quando entra no carro. Por ela continuava sempre de máscara”. O desabafo é da mãe Joana.“Tenho muitas amigas que não gostam de tirar a máscara porque têm medo de apanhar covid”, conta Iara.

Este ano letivo deixa de ser obrigatória o uso da máscara na sala de aula. Mas muitos estudantes não estão prontos para abdicar desta proteção. No liceu francês Vauban, que abriu as portas na semana passada, “cerca de metade dos alunos têm uma inquietação grande e recusam-se tirar a máscara nas salas”, revela Marguerite Poupart-Lafargue, diretora da escola que conta com cerca de 2600 alunos.

“Há um medo e o hábito que se mantêm, devemos deixá-los fazer como querem, se uma criança se sente mais segura com a máscara deve poder usá-la, não nos cabe a nós, nem aos pais decidir o contrário”, sublinha Julie-Suzanne Bausch, diretora da Escola Internacional de Mersch, Anne Beffort.

Maria-Brufina , dirigente da CNEL.
Maria-Brufina , dirigente da CNEL.
Fotto: Guy Jallay

Até porque “existe sempre esse medo que venha uma nova vaga” admite a estudante Maria-Brufina, 20 anos. De origem congolesa está no Luxemburgo desde os três anos onde chegou com a mãe francesa e o pai congolês. Aos treze anos estava desiludida com a escolas. Até um dia descobriu numa manga, banda desenhada japonesa, uma personagem que era da associação dos estudante e que tinha uma vida entusiasmante.

No dia seguinte quando regressou à escola começou a trabalhar na associação de estudantes e agora acorda todos os dias com vontade de ir para a escola. Atualmente é dirigente do Conselho Nacional Estudantes Luxemburguês (CNEL), a estrutura que representa os estudantes do Grão-Ducado.

Patrick Remakel, presidente do SNE e Gilles Glesener, secretário-geral do SNE.
2

A escola fundamental será o ambiente crítico
Copiar o link

Patrick Remakel, presidente do SNE e Gilles Glesener, secretário-geral do SNE.
Foto: Anouk Antony

O ensino fundamental “será o ambiente crítico onde o vírus poderá circular” alerta Patrick Remakel, president do SNE/CGFP, a organização que representa os professores do ensino fundamental. O risco é maior porque os estudantes com menos de 12 anos ainda não estão vacinados.


Conheça as medidas sanitárias nas escolas luxemburguesas
Sem máscara e mais testes de rastreio à covid-19 para alunos e professores. Será assim o novo ano escolar que arranca esta quarta-feira no Luxemburgo.

Os responsáveis de saúde alertam para a “hipótese de uma quarta vaga” e “sem os purificadores de ar nas salas de aula estamos menos tranquilos”, sublinha o docente. Continuam a exigir ao ministro da Educação que coloque estes aparelhos de purificação de ar em todas as salas, como foi feito nas escolas alemãs. O ministro da Educação argumenta que “a medida foi desaconselhada por peritos do setor da saúde. A melhor coisa é ter ar fresco e puro nas salas de aula, abrindo as janelas”.

Uma solução que não agrada aos representantes dos docentes. “No inverno se abrirmos as janelas, vamos ter que usar casacos e cobertores nas salas de aulal”, alerta Gilles Glesener, secretário-geral deste sindicato. Para já vão ter que contentar-se com os medidores de CO2 que o governo colocou, no ano passado, em todas as salas. O sistema funciona de uma forma muito simples. Quando é ultrapassado um limite de concentração de dióxido de carbono o aparelho apita e há que abrir a janelas. Faça frio ou calor.

“A principal preocupação para a rentrée escolar continua a ser a situação atual da pandemia e as suas novas mutações”, afirma Charles Krim, presidente da Federação das Associações de Pais do Luxemburgo. Mas o representante dos pais diz ter “total confiança nas disposições sanitárias preparadas pelo Governo” .


"Teremos um aumento relativo de casos positivos entre a população escolar"
"Não podemos, durante todo um ano letivo, limitar o funcionamento das escolas e impor restrições às crianças e aos jovens, apenas porque há adultos que não se querem vacinar", afirma o responsável pela pasta da Educação.

A apreciação geral do dispositivo sanitário disponibilizado nas escolas é positiva. “O ministério no Luxemburgo geriu muito bem a situação. O número de horas de aulas presenciais que foram salvas no ano passado foi muito maior que nos países vizinhos ”, sublinha a diretora da Escola Internacional de Mersch. Na Alemanha escolas de algumas regiões estiveram fechadas durante vários meses e “os alunos ficaram abandonados dentro de casa, agarrados ao telemóvel”, sublinha. “Prefiro alunos nas aulas com máscaras do que estudantes em casa, sem máscara mas completamente isolados de tudo”, acrescenta a também presidente do Comité de ética do Luxemburgo.

Escola Internacional de Mersch Anne Beffort ( EIMAB)
3

Recuperar o atraso
Copiar o link

Escola Internacional de Mersch Anne Beffort ( EIMAB)
Guy Jallay

Certo é que muitos dos alunos perderam o comboio da aprendizagem nos dias em que estiveram em casa no ano passado. Para compensar estas deficiências na aprendizagem o Ministério da Educação criou uma “Summer School” que aconteceu dias antes do começo das aulas. Uma iniciativa criticada por Patrick Remakel, representante dos professores do ensino fundamental.

Para compensar este atraso defendem que “deve ser dado um reforço das aulas durante o horário educativo, o que implica reforçar os efetivos das escolas”. Mas fundamental é garantir um maior número de aulas presenciais. “É preciso fazer tudo para garantir o ensino na escola, porque embora o sistema de ensino à distância tenha funcionado, percebemos a importância do ensino presencial”, acrescenta.

Para suprir as falhas de alguns alunos foram criados outros sistemas inovadores. Como o Movimento de Igualdade de Oportunidades (MEC) que prevê “que adultos mais velhos estejam disponíveis para dar explicações às disciplinas em que os alunos sentem mais dificuldades” revela António Valente, vice -presidente do Comité de Ligação das Associações de Estrangeiros (CLAE). Um sistema que já funciona em cerca de 11 comunas e que, em breve, deverá chegar a mais regiões. Uma iniciativa que já recebeu um prémio europeu.

Pierre Marc, diretor da Escola Fundamental do Brill, Esch-sur-Alzette.
4

O desafio de aprender três linguas ao mesmo tempo
Copiar o link

Pierre Marc, diretor da Escola Fundamental do Brill, Esch-sur-Alzette.
Foto: António Pires

“Estou contente de voltar à escola porque gosto da professora que é muito simpática e das fichas que ela dá para fazermos”, conta Iara Costa. Matemática é a disciplina preferida e o alemão a que menos gosta. Como todos os meninos e meninas que frequentam a escola pública no Grão-Ducado está aprender três línguas: luxemburguês, alemão e francês. No recreio há que exercitar os seus dotes de poliglota. “Com alguns amigos falo luxemburguês, com outros português e com outros em alemão. É tudo misturado. Às vezes fico baralhada”, confessa.

Lidar com a aprendizagem das três línguas é a principal dificuldade para os alunos de origem portuguesa que já representam a maior comunidade de estrangeiros nas escolas do país. Joana Malaquias, mãe, diz que as escolas públicas “não estão preparadas para os alunos não luxemburgueses”. “Eles aprendem a falar luxemburguês e a ler e escrever em alemão e francês o que cria muita confusão na cabeça da minha filha. Deveriam reformar o sistema para que os alunos aprendessem a ler e a escrever em luxemburguês e ter as outras duas línguas aparte, como funciona nos outros países europeus”.

“Eles acabam por aprender”, afirma Pierre Marc, diretor da escola do Brill, em Esch-sur-Alzette, uma cidade que tem quase 40% de habitantes de origem portuguesa. “Apostar na leitura”, é a sua prioridade e tem tido bons resultados. E na biblioteca da escola tem livros também em português.


Cursos complementares de português em todas as escolas primárias de Differdange
Medida avança já este ano escolar. Estes cursos vão estar agora disponíveis em escolas primárias de sete comunas.

Marie-Brufina confessa que foi difícil quando chegou ao Luxemburgo com três anos: “só falava francês, mas aprendi o luxemburguês”. Agora Já fala cinco línguas, e até compreende o português. “Acho que é uma vantagem que temos. Há muitos alunos de outros países que ficam espantados e nos invejam por isso”, diz sorrindo.

Preparar os alunos para saírem do liceu a dominar, pelo menos três línguas é um dos objetivos do Liceu Francês Vauban.

“Todos os alunos aprendem duas línguas estrangeiras desde muito cedo, o objetivo é que terminem o liceu com capacidade de frequentar um estabelecimento de ensino no estrangeiro sem dificuldade, o que tem sido conseguido”, esclarece Marguerite Poupart-Lafargue, diretora da escola. A maioria dos alunos acaba por ir estudar para a universidade em França, na Alemanha, Bélgica e Canadá. No Vauban há aulas de inglês, luxemburguês, alemão, espanhol e chinês. No próximo ano todos os estudantes vão ter um iPad que vai funcionar como um substituto dos livros. Evitando assim que os alunos tenham que transportar vários quilos às costas todos os dias.

Esta escola é financiada 60% pelo ministério da Educação Luxemburguês e os restantes 40% pelas propinas pagas pelos alunos.

Poupart-Lafarge, diretor do Liceu francês de Vauban.
5

Problemas psicológicos crescem cada ano que passa
Copiar o link

Poupart-Lafarge, diretor do Liceu francês de Vauban.
Foto: António Pires

“De ano para ano sentimos mais fragilidades nos alunos, o que sabemos acontece também noutras escolas. Estão fragilizados e sujei- tos a uma pressão que é difícil de viver. O covid acabou por acentuar as suas angústias. Há muita tensão e mal estar entre os jovens”, sublinha. Para responder a estes problemas o liceu tem um serviço de psicologia e foram criados momento de meditação e sofrologia na escola Há também os assistentes de educação disponíveis para apoiar os alunos de cada turma.

Para fazer face ao agravar dos problemas psicológicos dos jovens, o Ministério da Educação anunciou para este ano a colocação de cem socorristas em saúde mental nas escolas. São alunos com uma preparação psicológica para ajudar os seus colegas. “Os problemas agravaram-se com a pandemia e afetou a saúde mental dos jovens. Nesta situação investir na saúde mental dos jovens, no seu bem-estar e dando-lhes a possibilidade de sair é muito importante. Mas é preciso dizer, mesmo antes da pandemia os problemas psicológicos nas escolas já existiam. Na sequência deste debate resolvermos lançar este projeto para que os jovens se possam ajudar uns aos outros. Temos psicólogos e educadores em todos os liceu. Mas por vezes os jovens hesitam em recorrer a eles. A ideia é formar jovens estudantes que possam ajudar os outros estudantes”, esclarece Claude Meisch, ministro da Educação.

Ristow Gerhard , pedo-psiqiuiatra do  Hospital de  Kirchberg-
Ristow Gerhard , pedo-psiqiuiatra do Hospital de Kirchberg-
Foto: Guy Jallay

Como assegurar um regresso normal à escola? “A recomendação que faço aos adolescentes é que regressem à escola da forma “mais normal possível, como antes da situação sanitária”, recomenda Ristow Gerhard, pedo-psiquiatra do Hospital de Kircheberg. Este médico recomenda ainda que “uma entrevista prévia poderá realizar-se com a criança, para identificar previamente dificuldades eventuais que possam surgir” no percurso escolar. 

Patrick Arendt presidente do SEW/OGBL
6

Uma longa lista de exigências
Copiar o link

Patrick Arendt presidente do SEW/OGBL
Lex Kleren


No arranque de mais um ano letivo os sindicatos voltam a apresentar uma longa lista de exigências ao Governo.

“Nos últimos dois anos tudo se limitou ao covid e não se falou de todos os outros problemas das escolas”, afirma Patrick Arendt, presidente do sindicato de Educação e Ciência da OGBL. “Não existe qualquer diálogo entre os parceiros do sistema educativo e o ministro da Educação que pinta um quadro perfeito do que se passa nas escolas e que não é real”, acrescenta. “Há uma falta de confiança entre os professores e o ministro e uma falta de docentes nas escolas. No ensino fundamental há mesmo uma penúria de professores”, sublinha este sindicalista. Patrick Arendt exige que “o governo reponha nas escolas os docentes que foram retirados, nos últimos dez anos”.

Mas há um problema de falta de professores para contratar. “A profissão perdeu atratividade e já não há jovens que queiram ser professores. Não é uma questão de remuneração. O prestígio da profissão perdeu-se e as condições de trabalho pioraram”, remata o sindicalista.

 Julie-Suzanne Bausch diretora da Escola Internacional Mersch Anne Beffort e Michel Hiebel do SOIE.
7

Formar cidadãos que percebam o mundo
Copiar o link

Julie-Suzanne Bausch diretora da Escola Internacional Mersch Anne Beffort e Michel Hiebel do SOIE.
foto: Guy Jallay

Quando esta manhã os alunos regressarem às aulas na Escola Internacional de Mersch, Anne Beffort vão ser surpreendidos por um momento diferente. “Na primeira meia hora promovemos um debate em que os alunos são convidados a trazer temas, fazendo uma ronda pelas principais notícias do mundo. Não vamos falar apenas de guerra e atentados. Podemos falar de um bombeiro que salvou um gato, por exemplo”, explica Julie-Suzanne Bausch, diretora de escola. “Queremos ter alunos que tenham consciência do que se passa no mundo à sua volta. Por exemplo que percebam que mesmo que haja apenas um racista é grave, que a misoginia é intolerável, assim como todas as formas de exclusão”, sublinha. “Não resolvemos o racismo falando de uma forma teórica, o que é preciso é viver o não racismo”, acrescenta. Outra novidade é a disposição das mesas na sala de aula: vão estar dispostas em U, para facilitar o diálogo e evitar a propagação do vírus.

Simbólico é que o auditório principal da escola tenha três bandeiras: do Luxemburgo, da União Europeia e da Diversidade LGBT.

Com cerca de 29 nacionalidade diferentes, esta escola tem cerca de 10% alunos portugueses. Este ano abre as portas a mais uma escola europeia, a quinta no país, o que transforma o Luxemburgo no país com o maior número de escolas europeias em toda a Europa.

Este ano, o liceu de Mersch alberga esta nova escola internacional. E a procura é mais que muita. Em média estas escolas europeias têm uma lista de espera de cerca de 600 alunos.Esta escola tem cerca de três secções linguísticas: francês, inglês e alemão. E um aluno estiver na secção francesa tem as matérias principais nessa língua, tendo depois aulas numa segunda ou terceira língua.


Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Béatrice Peters é a autora do polémico livro "Fremde Heimat" ("Pátria Estrangeira"), sobre uma revolução liderada por um português para mudar o sistema de ensino luxemburguês. A escritora é a convidada de uma conferência organizada pela Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI), dia 31 de maio, para apresentar o romance.
O romance conta muitos episódios reais passados com alunos portugueses, quando Béatrice Peters dava aulas no ensino primário.
O regresso às aulas no Luxemburgo arrancou esta segunda-feira, com centenas de escolas primárias a reabrirem as portas a 46.870 alunos. Na terça, foi a vez dos alunos do sétimo ano do liceu, com os restantes alunos do secundário (41.063) a regressarem às aulas esta quarta-feira. O CONTACTO acompanhou o primeiro dia de aulas dos alunos portugueses na maior escola primária do país, em Esch-sur-Alzette. Um dia de “nervos” e ansiedade para a maioria das crianças.
15.09.10 rentree scolaire schulbeginn 2010, primaerschule hesperange grundschule ecole primaire, eleves schule schueler education bildung, photo: Marc Wilwert