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Remy Manso. "Estou a perder muito dinheiro, mas vou dar a volta por cima"
Luxemburgo 7 min. 29.04.2020 Do nosso arquivo online

Remy Manso. "Estou a perder muito dinheiro, mas vou dar a volta por cima"

Remy Manso

Remy Manso. "Estou a perder muito dinheiro, mas vou dar a volta por cima"

Remy Manso
Foto: Álvaro Cruz
Luxemburgo 7 min. 29.04.2020 Do nosso arquivo online

Remy Manso. "Estou a perder muito dinheiro, mas vou dar a volta por cima"

Álvaro CRUZ
Álvaro CRUZ
É português e uma das maiores referências da restauração no Luxemburgo. Tem 34 anos, possui dez restaurantes e apesar da crise, garante que vai abrir mais um por cada mês que estiverem fechados.

"A situação no setor da restauração e de uma forma geral está bastante complicada. Apesar de ser otimista por natureza, tenho algum receio que esta crise transforme as coisas no futuro e não encontre as respostas adequadas para fazer face aos problemas que vamos enfrentar. Mas eu não desisto e se for necessário estou disposto a recomeçar tudo de novo", garante Remy Manso à mesa de um dos seus restaurantes fechados, em Kirchberg.

A pandemia está a ser responsável por um dos maiores golpes no setor da restauração no Luxemburgo. Com o estado de emergência decretado há semanas pelo Governo, a vida social foi abruptamente interrompida. Hotéis, restaurantes, cafés e bares, outrora cenários preferidos para socializar e descontrair tiveram de fechar portas e muitos deles correm sérios riscos de nunca mais voltar a abrir. Remy também passa por dificuldades, mas mostra-se disposto a enfrentar a crise com os sócios e os seus mais de 200 empregados.

"Estou a ter um prejuízo na ordem dos 250.000 euros mensais com despesas fixas e espero que as coisas melhorem e possam voltar à normalidade o mais rapidamente possível. Caso contrário, vai ser o fim para grande parte dos restaurantes e cafés no Luxemburgo. O Estado faz o que pode em relação aos salários, mas sobre as rendas tenho que as pagar na integralidade, sem receber nenhuma ajuda".

Com apenas 34 anos, criou um 'império' nos últimos cinco e possui, com os sócios, dez restaurantes: Daiwelskichen, batucada, Piri Piri, Ela, The JFK, Chimi Churri, The Game, Toro Toro, Gringos e El Barrio, quase todos em Kirschberg, na capital. Apesar da crise, prepara-se para expandir o Manso Group e garante que continua com os olhos postos no futuro.

"Estou a pensar em abrir mais dois restaurantes num futuro próximo, mas esta crise veio atrasar todo o processo. Antes da pandemia estávamos no auge da nossa faturação, mas depois tudo mudou num abrir e fechar de olhos", lamenta.

"Apesar de todos os estabelecimentos estarem fechados continuo em contacto com os meus sócios e empregados. Somos uma equipa forte e muito unida. Discutimos entre nós e procuramos encontrar soluções e estratégias para o futuro. Aproveitamos para fazer a manutenção e limpeza dos restaurantes e implementar uma ou outra inovação para quando recomeçarmos a trabalhar possamos estar preparados. Temos de nos adaptar à situação e dar a melhor resposta. Por isso, vamos fazer entregas e preparar comida para as pessoas poderem vir buscar aos nossos restaurantes. Estou a perder muito dinheiro, mas vou dar a volta por cima", garante.

"Por cada mês que estivermos fechados vou abrir um novo restaurante"

Remy não é homem de se entregar e garante que apesar das dificuldades quer sair mais forte da crise: "Fiz a promessa que por cada mês que estivermos fechados vou abrir um novo restaurante. Posso garantir que vamos regressar ainda mais fortes. Estamos a concertar estratégias que nos possam fazer recuperar o que perdemos no mais curto espaço de tempo. Já tínhamos passado por um período difícil em vários restaurantes aquando das obras do elétrico, em Kirchberg, mas com muito esforço conseguimos recuperar e agora temos que trilhar o mesmo caminho", precisa.

"Mesmo que tenhamos de trabalhar mais horas, todos estão dispostos a fazer sacrifícios. Só podemos dar a volta à situação com uma grande união de esforços. Ainda não sei como as coisas vão correr porque as dúvidas são muitas quanto ao futuro, mas se as coisas forem por água a baixo, recomeço do zero e volto a erguer tudo de novo". A crise apanhou todos de surpresa e Remy não é exceção. Em confinamento, diz que tem refletido bastante e que agora dá mais valor às pequenas coisas da vida.

"Acho que ninguém estava preparado para viver uma situação destas. Não sou do tempo da Segunda Guerra mundial nem de outros períodos que marcaram negativamente a história da humanidade, mas este é sem dúvida um dos piores. Por outro lado, em confinamento, tenho agora mais tempo para a família, o que não era o caso. É extremamente importante poder estar com a minha mulher e o meu filho, até porque dentro de dias vou ser pai pela segunda vez. Quero desfrutar na plenitude esses momentos. Esta crise faz-nos refletir sobre as pequenas coisas da vida, às quais nem sempre atribuímos o verdadeiro valor".


Fernanda Batalau, empresária portuguesa, chegou ao Luxemburgo há 30 anos.
Fernanda Batalau. "Estou mais preocupada com os meus empregados do que comigo”
Fernanda Batalau chegou ao Luxemburgo em 1990, exatamente há 30 anos. Conhecida empresária no setor da restauração, possui vários estabelecimentos na capital e está a viver momentos dramáticos devido à pandemia.

"Nos últimos dois anos tirei apenas 15 dias de férias consecutivos. Trabalho em média 14/15 horas por dia porque as coisas não caem do céu. E faço de tudo. De vez enquando, aproveito e dou a minha ’escapadela’ de dois três dias para ir a um ou outro jogo porque sou benfiquista assumido e adoro futebol, mas normalmente trabalho bastante como toda a gente na minha empresa", regozija-se.

"A união faz a força"

Jovem e com uma filosofia empresarial 'sui generis', Remy Manso valoriza os seus colaboradores e ajuda-os a subir na vida. Privilegia as relações humanas e não tem qualquer problema em atribuir responsabilidades a quem as merece no grupo que dirige.

"Apesar de ser exigente, na minha equipa todos são importantes e eles sabem disso. Do sócio gerente ao mais simples empregado. Gosto de gente séria, trabalhadora, transparente e empenhada. Tenho por princípio abrir restaurantes com sócios. E todos os meus sócios começaram por baixo, a trabalhar comigo. Aqueles que ao longo do tempo mostram dedicação, qualidade e empenho dou-lhes uma oportunidade de subir na hierarquia. E isso acaba por responsabilizar as pessoas, tornando-as mais envolvidas e dedicadas ao trabalho", explica.

Amor pela restauração é herança paterna

A escolha por uma profissão no setor da restauração é herança do pai que desde muito cedo se estabeleceu no Grão-Ducado e dirigiu vários restaurantes. "Nasci no Luxemburgo, fui para Portugal e regressei ao país em 2004, com 18 anos, após o Campeonato da Europa de futebol. Fui estudar para a Escola de Hotelaria, em Diekirch, e comecei a aprender a profissão com o meu pai. Tínhamos uma grande cumplicidade. Ensinou-me muitas coisas, é pena que tenha morrido com 48 anos", lamenta.

Inaugurou o primeiro bar (Epic) há nove anos e como as coisas correram bem nunca mais parou. Em pouco tempo abriu dez restaurantes e tem mais de 200 empregados. Uma história de sucesso que explica em poucas palavras.

"As coisas têm corrido bem, felizmente, mas é um trabalho árduo por parte de muita gente. Desde miúdo que me habituei a tomar notas de tudo, ser ambicioso, refletir onde posso melhorar e a discutir com os meus colaboradores sobre as melhores estratégias a adotar. Antes, contratava pessoas por CV, mas agora faço-o através da experiência e intuição pessoal e raramente me engano. Para mim, quem gostar de trabalhar e aprender e estiver sempre disponível reúne as condições necessárias para fazer parte da minha equipa. Tenho empregados que sem que eu lhe diga nada se apresentam ao trabalho mais cedo para aprenderem e isso é uma excelente atitude. A confiança mútua é muito importante", vinca. "Vou uma vez por ano com os meus sócios a Las Vegas ou Los Angeles a conferências sobre gastronomia e negócios com os melhores do mundo. Vamos para aprender e celebrar a vida, porque ambas as coisas são importantes para crescermos".

Nos vários restaurantes que possui, a carne é tema dominante em grande parte dos menus, embora confecionada de formas diferentes. Remy dá a receita do sucesso e desvenda alguns dos seus segredos.

"Quando abro um restaurante faço um estudo de mercado na zona para poder propor aos clientes algo diferente do que estão habituados. Gosto muito de carne e além disso no Grão-Ducado é mais fácil adquirir bons produtos. É importante oferecer pratos confecionados de forma diferente. A imaginação e criatividade são fundamentais no Luxemburgo, onde por regra os clientes são exigentes. É fundamental saber agradar à cientela que é variada e com gostos diferentes. Para mim é importante ter clientes que preferem um vinho a 200 euros, mas também quem opta por um copo de sangria a apenas 5"

Mas agora, o desafio é outro e Remy sabe-o bem. "O mais importante é ultrapassar a crise para que as coisas voltem rapidamente ao normal, senão vai ser o caos. Quero aproveitar enquanto posso para dar o melhor de mim e depois dos quarenta aproveitar melhor o tempo com a família. Não quero morrer cedo como o meu pai". 

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