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Relato da "aflição" de uma mãe que tem a filha doente com coronavírus noutro país
Luxemburgo 3 6 min. 01.04.2020

Relato da "aflição" de uma mãe que tem a filha doente com coronavírus noutro país

Relato da "aflição" de uma mãe que tem a filha doente com coronavírus noutro país

Luxemburgo 3 6 min. 01.04.2020

Relato da "aflição" de uma mãe que tem a filha doente com coronavírus noutro país

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A residir no Grão-Ducado, Ana conta ao Contacto como está a ser "tão difícil estar longe" de Isabel, de 24 anos, emigrada em Inglaterra e que estará infetada com o virus.

Ana vive no Luxemburgo, mas tem a filha mais velha, de 24 anos, a residir em Bristol, Inglaterra. Agora a distância tornou-se mais complicada de gerir para esta mãe portuguesa e um motivo “de grande sofrimento” pois a filha Isabel “está doente há quase três semanas” e “por todos os sintomas” estará infetada com o novo coronavírus.

“As autoridades de saúde têm a minha filha registada como doente e em isolamento em casa, mas não lhe fazem o teste de despistagem. Em Inglaterra, o teste só é feito a quem chega às urgências com falta de ar e com os outros sintomas”, conta ao Contacto a mãe Ana “preocupadíssima” com a filha e “revoltada” com o sistema de saúde britânico. 


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“É terrível. Nem imagina o que eu tenho sofrido, a minha ansiedade por a Isabel estar doente e tão longe e, ainda por cima sem poder ser testada. Felizmente, a minha filha já está melhor, mas da linha de apoio nem sequer lhe telefonam para saber como ela está”, critica a portuguesa Ana que reside no Luxemburgo há quase dez anos e tem outro filho de 14 anos, a viver com ela  com o marido no país.

"Graças a Deus está melhor"

“Graças a Deus que a Isabel melhorou. Já não tem febre e já se levanta da cama, mas a tosse continua e ainda se cansa muito a falar”, relata Ana que passa o dia a telefonar para saber da filha.  “No início tinha febres altas, muita tosse, e sentia-se tão doente que nem conseguia sair da cama”, recorda esta mãe.

Isabel telefonou para a linha de apoio aos doentes com covid-19 explicando os sintomas. “Eles registaram-na como doente. Disseram-lhe para tomar paracetamol, de quatro em quatro horas, e ficar de quarentena em casa. Mais nada. E para ela só ir ao hospital se sentisse muita falta de ar. Enviaram-lhe por email o documento de registo como doente para ela assinar e disseram para ela telefonar oito dias depois. É ela quem tem de telefonar pois eles não telefonam para saber o estado da minha filha”, diz Ana em tom muito crítico. Esta mãe tem insistido para a filha voltar a ligar para a linha de apoio, mas a jovem ainda não o fez.  Ao contrário do Reino Unido, no Luxemburgo, país que tem realizado mais análises de despistagem vai agora passar a testar doentes com sintomas ligeiros.


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Infetada num concerto

A portuguesa residente em Bristol terá sido contaminada num concerto de música a que foi com o namorado, ou por algum cliente, a quem tenha feito uma entrega ao domicílio ou pelos colegas de trabalho da grande empresa de distribuição de take away de vários restaurantes em Bristol (imagens da cidade em baixo).

“A Isabel acha que foi no concerto pois um dos elementos da banda soube depois que também estava infetado. Mas também pode ter sido no trabalho. Eles andavam sem máscara nem luvas nas entregas, porque está tudo esgotado em Bristol”, vinca. Além da jovem e outros colegas se juntarem à porta dos restaurantes para receber os pedidos.

O namorado da jovem vive com ela mas nunca teve febre, embora tenha sido aconselhado a ficar de quarentena em casa. "Há dias é que começou a ficar com tosse, mas não tem febre", e foi ele que foi à farmácia para comprar a medicação para Isabel. 

Colega de Isabel está contaminado

Aliás, um dos colegas de Isabel também está contaminado. “O colega dela foi testado e deu positivo, mas foi testado porque ficou com falta de ar e foi ao hospital”.

Até há uma semana o Reino Unido não tinha tomado nenhuma medida de prevenção mais apertada para a contaminação da população pelo novo coronavírus. "Nós aqui no Luxemburgo começámos mais cedo com as restrições e em confinamento".

“Foi uma cliente chinesa que deu uma máscara à minha filha porque ficou muito espantada de eles não terem proteção naquele trabalho, em que contactam com tanta gente”. Só há dias é que a empresa de Isabel começou a distribuir material de proteção aos colegas.


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Noites sem dormir

A verdade é que quase há três semanas que esta portuguesa nem dorme só a pensar na filha, longe em Inglaterra: “O que vale é que o meu pai e a minha madrasta também moram lá, além de outros familiares, se acontecesse algo pior eles estão lá. Eu é que não posso ir ter com ela, pois os aeroportos estão encerrados”.

Agora já se sente “um pouco mais descansada porque ela está a melhorar”. 

"Não é uma gripe comum"

Ana continua a insistir com a filha para ela telefonar a pedir o teste. Mas o despiste será só a confirmação da doença: “Eu conheço a minha filha e sei que não é uma gripe comum que ela apanhou. Ela nunca esteve assim doente e todos sintomas apresentados são os do coronavírus”. Como a jovem está a melhorar “pode ser que depois lhe façam então o teste quando ela já não apresentar sintomas”.

Em Bristol, onde residem 430 mil pessoas, existem 92 casos de infeção pela doença, não havendo nenhuma morte a registar. Contudo, o número de confirmações de infeção refere-se apenas às pessoas testadas, havendo muito mais doentes, como Isabel, que não puderam realizar o teste.

 Inicialmente, o primeiro-ministro britânico também ele infetado pelo covid-19, adotou a estratégia de infeção coletiva, deixar o vírus infetar o máximo de pessoas possível para o pico da epidemia chegar mais rápido e doença supostamente desaparecer mais cedo. Houve uma explosão de casos de contaminação e mortes. Só a 24 de março, e depois de saber que estava doente, Boris Johnson mudou de planos e foi então que adotou as medidas de prevenção semelhantes às dos outros países, nomeadamente o confinamento obrigatório.


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 O pai de Ana que já tem mais de 60 anos continua a trabalhar, mas “vai de máscara” porque teve a sorte de conseguir comprar este material de proteção. “Mesmo assim pertence ao grupo de risco, mas a empresa ainda não o mandou para casa”, salienta Ana dizendo que os “britânicos ainda não se mentalizaram bem do perigo que correm”, há quem continue a passear nos parques, como já mostram as imagens da televisão.

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