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Relais pour la Vie. Quem corre, o cancro espanta
Luxemburgo 1 4 min. 26.03.2019

Relais pour la Vie. Quem corre, o cancro espanta

Sibila LIND
Sibila LIND
Milhares de pessoas juntaram-se este fim de semana para participar no “Relais pour la Vie” e apoiar os doentes com cancro, uma doença que afeta cerca de 3% da população no Luxemburgo.


Ana e Telmo Ferreira deixaram Portugal à procura de uma vida melhor para a filha Carolina, de três anos. Tinham acabado de chegar ao Luxemburgo quando descobriram que ela tinha um tumor na cabeça. “No dia em que a Carolina foi operada foi o primeiro dia de trabalho do meu marido”, conta Ana. “Começámos em grande”, acrescenta Telmo a sorrir, com a filha, agora com nove anos, debaixo do braço.

Há cinco anos que a família participa no “Relais pour la Vie”, um evento para homenagear e apoiar os doentes com cancro. Várias equipas participam numa corrida que dura 24 horas. “No primeiro ano em que participámos, em 2014, não me lembro de ver nenhuma criança pequena na volta dos sobreviventes”, diz Ana. “Se havia eram adolescentes, mas a Carolina ainda não tinha cinco anos”.

O primeiro-ministro cumprimenta Carolina e a sua família
O primeiro-ministro cumprimenta Carolina e a sua família
Foto: Claude Piscitelli

A t-shirt roxa de Carolina é igual à de muitas outras pessoas à sua volta. Nas costas lê-se “sobrevivente”. Já os pais levam uma faixa ao peito, com a palavra “cuidador” (“caregiver”). “Gosto de correr mas não gosto de usar a t-shirt”, diz Carolina, que deu um nó na t-shirt para lhe dar um toque mais feminino. Está na “fase da vergonha”, diz a mãe. “Tem vergonha de ter estado doente. E a parte do começo é muito emotiva, só não chorou no ano passado porque fez duas amigas e foram as três de mãos dadas à nossa frente”.


Vídeo. A minha vida não é um cancro
O “Relais pour la Vie” é um fenómeno no Luxemburgo. Todos os anos, milhares de pessoas participam nesta corrida de 24 horas para apoiar e homenagear os doentes com cancro. Ouvimos seis sobreviventes que quiseram partilhar a sua história.

O “Relais pour la Vie” junta todos os anos milhares de pessoas na Coque, no Luxemburgo. Este ano contou com mais de 13 mil participantes (fora visitantes) e 375 equipas, que correram mais uma hora do que o habitual para comemorar o 25° aniversário da Fundação do Cancro, organizadora do evento. “No Luxemburgo há cerca de três mil novos casos de cancro por ano e acreditamos que cerca de 3% da população vive com um cancro”, diz Lucienne Thommes, diretora da Fundação do Cancro. “É uma doença que toca a todos”.

Após o testemunho de três sobreviventes de cancro, começa o momento mais emocionante do evento. Os sobreviventes caminham ao lado dos seus cuidadores, enquanto recebem rosas laranja e o aplauso e admiração de todos à volta. Jorge Silva, português de 39 anos, leva de um lado a mulher e a filha de oito anos e do outro lado o filho de 14. É a primeira vez que participa no Relais. Há dois anos, no dia em que o filho foi retirar os ferros da perna que tinha partido, Jorge soube que tinha um tumor atrás do nariz. Foi a primeira vez que ouviu o termo “cancro da nasofaringe”. Nada podia confortá-lo, mas as palavras do médico ajudaram. “Ele disse que já tinha tido vários casos como o meu e que até ali não tinha perdido nenhum”. Jorge fez três quimioterapias e depois radioterapia. Perdeu 35 kg. “O que mais me chocou foi a minha filha dizer que eu estava feio, quando o cabelo caiu todo”, conta. Jorge perdeu grande parte do paladar mas conseguiu retomar a rotina. A mulher foi o seu maior apoio. “O cancro é uma coisa muito má mas pode ter solução”.

De perto ou de longe, todas as famílias já conheceram esta doença 

Depois da volta dos sobreviventes, é a vez de as equipas desfilarem. Às 19h30, a pista abre. Há quem ande, quem corra, quem dance e até quem salte, a pedido de um voluntário, Christian Henning, que segura uma folha onde se lê “Saltem”, ao lado de um fotógrafo. O bom humor de Christian é contagiante. Psicoterapeuta especializado em sofrologia, o francês de 61 anos está habituado a lidar com pessoas e a ajudá-las a superar os medos ou problemas através da meditação ou relaxamento. Christian já chegou a receber doentes com cancro no seu consultório. “Às vezes dizem-me: ‘O meu corpo abandonou-me. Está contra mim’. E eu ajudo-os a aceitarem a doença e a voltarem a confiar no seu corpo”, conta Christian, que perdeu o pai, vítima de cancro. “De perto ou de longe, todas as famílias já conheceram esta doença”.

Cerimónia das velas.
Cerimónia das velas.
Foto: Claude Piscitelli

Poucas horas antes do final da corrida, as luzes apagam-se para dar lugar às velas. A palavra “Soutenir” (“Apoiar”) brilha no meio da pista. “Infelizmente, nem todos conseguem vencer esta doença, e este minuto de silêncio serve para relembrar essas pessoas”, conta Christian. “Mas juntos apoiamo-nos uns aos outros. É um evento que apela realmente ao humanismo e à benevolência, que é o fundamento do ser humano”.


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