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Regressar a Portugal para não passar fome
Luxemburgo 3 min. 21.10.2020

Regressar a Portugal para não passar fome

Regressar a Portugal para não passar fome

Foto: Shutterstock
Luxemburgo 3 min. 21.10.2020

Regressar a Portugal para não passar fome

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Sem emprego, dinheiro, nem perspetivas de novo trabalho para conseguir "viver decentemente no Luxemburgo" há quem não "encontre outra alternativa senão voltar para a terra natal", conta Alice Santos, dos serviços sociais do C.A.S.A..

A crise da epidemia está a obrigar imigrantes a voltar para Portugal. Sem emprego, dinheiro, nem perspetivas de novo trabalho para conseguir “viver decentemente no Luxemburgo” há quem não “encontre outra alternativa senão voltar para a terra natal”, conta Alice Santos, dos serviços sociais do C.A.S.A..

“Os pedidos de ajuda que nos chegam para tratar do regresso a Portugal com a ajuda da Embaixada triplicaram, em relação ao ano passado”, anuncia Alice Santos. “Só este mês de outubro, já estamos com três e o mês ainda não acabou”.

Também Sérgio Ferreira da ASTI fala de casos de desespero de quem ficou sem nada e a “única solução é regressar para Portugal”. Ester, de 47 anos, deixou o Luxemburgo no último dia de junho, numa camioneta com destino a Lisboa. “Se não fosse a pandemia ainda estava a viver naquele país que me tratou muito bem”, frisa esta portuguesa, solteira e sem filhos.

A aventura no Grão-Ducado começou há três anos quando imigrou para cuidar das quatro filhas de um casal imigrante português de classe alta. Ester fez amigos portugueses e “a vida corria de feição”. Até à pandemia. “O casal para quem trabalhava regressou para Lisboa, muito por causa da epidemia. E eu comecei a trabalhar nas limpezas. Mas perdi o emprego”. Foi então que recorreu aos serviços socias da C.A.S.A para a “ajudarem a tratar do desemprego” porque não domina o francês. “Agradeço do fundo do coração à D. Alice Santos que me ajudou em tudo e a este centro, sem eles não teria sido possível voltar para Portugal com os apoios a que tenho direito”.

Para se poder candidatar a um novo emprego, Ester tirou um curso intensivo de francês no C.A.S.A durante três meses. E começou a beneficiar do subsídio de desemprego. “Só que pagava 600 euros por um quarto em Strassen e o que lhe restava para viver “era pouco”. “A habitação e a alimentação são muito caras no Luxemburgo e estava difícil fazer face a todas as despesas”, recorda Ester.


Portugueses estão a passar fome no Luxemburgo
A pandemia trouxe o desemprego e o desespero de não ter dinheiro para alimentar os filhos. Nunca houve tantos casos, entre eles famílias que sempre “viveram decentemente” no país. O testemunho de quem teve de regressar a Portugal e o relato de quem está no terreno a ajudar estes imigrantes.

“Sem perspetivas de futuro” esta portuguesa decidiu regressar a casa. “Aqui tenho a minha casa, a minha família e estou melhor. Lá com a covid-19 seria muito difícil encontrar emprego e sustentar-me. Cá estou inscrita no centro de emprego e vou receber o subsídio de desemprego de lá por mais dois ou três meses”. Ester tem “esperança no futuro”, confidenciando que existe a possibilidade de voltar a trabalhar em casa da família com as quatro meninas, agora em Lisboa.

Há outros casos de “pessoas sozinhas na casa dos 50 anos e de famílias que estavam cá imigrados há anos, muitas com salários baixos e que a epidemia lhes tirou os empregos, ficaram em situação difícil e estão a regressar às origens”. Alice Santos ajuda-os em todos os processos necessários.

“Apesar de viverem cá há anos não dominam os idiomas do país, “francês, alemão ou luxemburguês” exigidos pelos serviços oficiais na candidatura a novos empregos. Sobra-lhes assim trabalhos duros e devido à idade têm doenças que os impedem de trabalhar com saúde”, vinca.

No Luxemburgo, a covid-19 destruiu-lhes a vida que levavam. “Falamos de imigrantes que há muitos anos residiam aqui, dignamente com os seus empregos e salários, mas que a crise sanitária e económica lhes tirou o tapete. É muito duro assistir a esta nova realidade”, confessa José Trindade.


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Uma situação que pode ganhar contornos difíceis “a nível psicológico” perante “a vergonha” e o “duplo estigma social” que estes regressados enfrentam, como alerta Sérgio Ferreira. “Eles saíram da sua terra como heróis que emigraram para conquistar uma vida melhor”, no Luxemburgo são vítimas da crise e “têm de voltar para Portugal com os bolsos vazios”. “Para estas pessoas é muito dramático enfrentar esta realidade e passível de desenvolver depressões”, alerta Sérgio Ferreira. Mas o regresso é a melhor solução pois em Portugal têm apoio familiar”, muito importante para ultrapassar este momento negro. 

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