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Refugiadas ucranianas trabalham com portugueses no Luxemburgo: "São como nós, de coração aberto"

  • "Deus, por favor, não deixes que uma bomba caia em cima de nós"
  • "Começámos a perceber que os portugueses são como os ucranianos"
  • "Somos boas raparigas, não somos, ‘baby boo’?"
  • "Os nossos colegas vêm ter connosco e dizem-nos que tudo vai ficar bem"
  • "O meu sonho é visitar Portugal quando tiver férias"
  • "Deus, por favor, não deixes que uma bomba caia em cima de nós" 1/5
  • "Começámos a perceber que os portugueses são como os ucranianos" 2/5
  • "Somos boas raparigas, não somos, ‘baby boo’?" 3/5
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  • "O meu sonho é visitar Portugal quando tiver férias" 5/5

Refugiadas ucranianas trabalham com portugueses no Luxemburgo: "São como nós, de coração aberto"

Refugiadas ucranianas trabalham com portugueses no Luxemburgo: "São como nós, de coração aberto"
Reportagem

Refugiadas ucranianas trabalham com portugueses no Luxemburgo: "São como nós, de coração aberto"


por Tiago RODRIGUES/ 12.05.2022

Katja (ao centro) e Lara (à direita) com parte da equipa do restaurante The Game. O gerente, Rui Agostinho (à direita), e o subgerente, Carlos Freitas (à esquerda), são portugueses.Foto: Chris Karaba

Duas refugiadas ucranianas estão a trabalhar num restaurante em Kirchberg com uma equipa cheia de portugueses. Lara e Katja encontraram no Luxemburgo uma segunda família e já sonham ir a Portugal. Os colegas de trabalho elogiam a atitude e dizem que são uma inspiração.

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"Deus, por favor, não deixes que uma bomba caia em cima de nós"
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Lara e Katja são como mãe e filha. Em Kharkiv, antes da invasão russa à Ucrânia, toda a gente dizia que elas eram da mesma família. Apesar das semelhanças físicas, são só amigas. Conhecem-se há mais de seis anos. Trabalhavam juntas na restauração. A mais velha como empregada de mesa, a mais nova como empregada de balcão. Lara tem 43 anos. Katja tem 26. Viviam felizes na sua cidade e no seu trabalho. No dia 24 de fevereiro de 2022, a sua vida mudaria para sempre.

Kharkiv, antiga capital da Ucrânia até ao ano 1934, localizada no leste do país, a cerca de 50 quilómetros da fronteira com a Rússia, foi uma das primeiras cidades a ser atacadas pelos russos. Na madrugada daquela quinta-feira, por volta das 5 horas, ouviram-se as primeiras bombas. O barulho dos aviões de guerra era ensurdecedor. "Só dizíamos: ‘Deus, por favor, não deixes que uma bomba caia em cima de nós’", recorda Lara, sem controlar a emoção ao repetir aquelas palavras. "Durante aqueles segundos, olhávamos uns para os outros, dávamos as mãos e pedíamos a Deus para não morrermos".

Katja Popova tem 26 anos e é empregada de balcão.
Katja Popova tem 26 anos e é empregada de balcão.
Foto: Chris Karaba

Uns minutos depois, Lara e Katja viram nas notícias que as bombas tinham caído a poucos quilómetros das suas casas. Começaram a perceber que ficar em Kharkiv era muito perigoso e ponderaram sair do país. Mas não queriam deixar os pais para trás. "Eles disseram-nos: ‘Que Deus vos abençoe. Nós vamos ficar e vocês têm de ir, porque não podem fazer nada aqui. Têm de pensar no vosso futuro’", contou Lara. As amigas decidiram deixar a Ucrânia no dia 4 de março. Só as duas, com apenas uns sacos. "Demorámos mais de três horas a chegar à estação de comboios. Um homem ofereceu-se para nos levar. Foi aí que a nossa viagem começou".

Estávamos sobretudo à procura de países de língua inglesa, onde pudéssemos encontrar não só proteção, mas também oportunidades de emprego.

Katja Popova

As ucranianas partiram sem destino certo. A prioridade era chegar à fronteira e depois decidir para onde ir. "Estávamos sobretudo à procura de países de língua inglesa, onde pudéssemos encontrar não só proteção, mas também oportunidades de emprego", explicou Katja. Fizeram uma viagem de 19 horas de comboio até Lviv, atravessando o país em mais de mil quilómetros. "Sem comida nem nada, só com os nossos sacos. Nem havia sítio para sentar". De Lviv conseguiram boleia até à fronteira e daí foram de autocarro, durante mais cinco horas, até à Eslováquia.

Depois de conseguirem sair da Ucrânia, as amigas começaram a pensar em que país iriam refugiar-se. A primeira opção foi a Hungria. "Fomos até Budapeste e tentamos procurar trabalho em restaurantes, mas quando perceberam que eramos ucranianas disseram que não tinham trabalho para nós. Percebemos então que a Hungria apoia a Rússia", lamentou Lara. A segunda opção foi o Luxemburgo. Deixaram Budapeste no dia 9 de março e chegaram ao Grão-Ducado na manhã do dia seguinte, após mais uma viagem de 19 horas. Iniciaram um novo capítulo das suas vidas.

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"Começámos a perceber que os portugueses são como os ucranianos"
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Lara e Katja foram primeiro à estação da polícia na Gare. Dali foram encaminhadas para o SHUK, o centro de acolhimento de refugiados em Kirchberg, na capital. "Ficamos lá um dia. Foi incrível. Convidaram-nos para jantar no refeitório e ficamos surpreendidas porque nos deram salmão, arroz, vegetais… A comida era muito boa e as pessoas foram muito amigáveis", recordaram as ucranianas. O Gabinete Nacional de Acolhimento (ONA, na sigla em francês) e a Caritas arranjaram-lhes alojamento "muito rápido". Estão há dois meses a viver num hotel em Foetz, na comuna de Mondercange, no sul do país.

Naquele hotel, as ucranianas encontraram uma segunda família. Uma família portuguesa. "Há muitos portugueses a trabalhar lá. Quase toda a equipa. A gerente, a Sónia, é a minha rainha. Sempre que temos algum problema, ela ajuda, dá-nos conselhos. É como se fosse a minha mãe aqui", afirmou Lara, comparando as duas nacionalidades. "Começámos a perceber que os portugueses são como os ucranianos. De coração aberto, muito otimismo e boa disposição. Temos uma grande amizade".

Lara Yakovlieva tem 43 anos e é empregada de mesa.
Lara Yakovlieva tem 43 anos e é empregada de mesa.
Foto: Chris Karaba

Assim que ficaram instaladas, as amigas decidiram procurar emprego imediatamente. "Há muita gente no hotel que fica à espera e queixa-se de não encontrar trabalho. Esse estilo de vida não é para nós. Não estamos de férias, por isso quisemos encontrar trabalho o mais rapidamente possível", disse Lara. "O Governo ajuda, mas precisamos de viver uma vida normal", acrescentou Katja. Como estão alojadas no hotel e têm comida três vezes por dia por parte da Caritas, elas recebem do Estado 28 euros por mês de ‘pocket money’, mais 40 euros para produtos de higiene e outros bens essenciais. Os apoios mais elevados podem chegar aos 200 euros para os refugiados em famílias de acolhimento.

Há muita gente no Luxemburgo registada na ADEM e percebemos que tínhamos de ser nós próprias a encontrar trabalho.

Lara Yakovlieva

Apesar de receberem esse dinheiro, Lara e Katja registaram-se na Agência para o Desenvolvimento do Emprego (ADEM). "Demorou cerca de 10/15 minutos para tratar de tudo. Foi muito rápido. Perguntaram-nos o que fazíamos na Ucrânia, o nosso nível de educação e a experiência profissional. Mas há muita gente no Luxemburgo registada na ADEM e percebemos que tínhamos de ser nós próprias a encontrar trabalho", reconheceu Lara. Até 5 de maio, 274 dos mais de 4500 ucranianos que beneficiam de proteção temporária no Grão-Ducado estavam inscritos na ADEM.

A maior parte dos requerentes são mulheres (67%) e mais de metade têm entre 30 e 44 anos (52%). Os jovens entre os 16 e 30 anos representam 19% dos inscritos, enquanto as pessoas com idade entre os 45 e 64 anos equivalem a 27%. Há apenas cinco pessoas com mais de 65 anos (2%). A grande maioria tem um diploma do ensino superior (75%), seguindo-se os que têm apenas o ensino secundário (18%) ou primário (7%). As áreas com mais procura são as dos transportes e logística (17%), serviços pessoais e comunitários (16%) e apoio empresarial (15%). O setor dos hotéis, restaurantes, turismo e lazer, para o qual Lara e Katja se registaram, é o quarto mais procurado (13%).

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"Somos boas raparigas, não somos, ‘baby boo’?"
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As ucranianas começaram a procurar um sítio onde se "sentissem bem". Num grupo do Facebook, viram um anúncio do Manso Group, empresa de restaurantes do português Remy Manso, em que se oferecia emprego a refugiados, nas mais diversas áreas. Falaram com um dos responsáveis e foram entrevistadas. Disseram-lhes para experimentar o The Game, um restaurante e bar desportivo em Kirchberg, nas mesmas funções que tinham quando trabalhavam na Ucrânia. "Assim que entrei por aquela porta pensei: ‘Por favor Deus, ajuda-me, quero ficar aqui!’ O sítio é incrível, o ambiente, tudo. E esta equipa é a melhor. Da minha experiência de 20 anos na restauração, tenho a certeza disso", garantiu Lara.

Começaram a trabalhar de imediato. Foi há cerca de um mês, mas as ucranianas sentem que já conhecem os colegas "há mais de 10 ou 15 anos". "Mal nos apresentamos, depois de alguns minutos já estávamos a trabalhar em equipa. Foi muito fácil. Acho que eles também gostaram de nós e receberam-nos muito bem", disse Lara, antes de interromper a conversa, entre risos, para perguntar a um dos colegas: "Somos boas raparigas, não somos, ‘baby boo’?", ao que este responde: "São sim. Vocês são uma inspiração para nós".

O ‘baby boo’ (expressão carinhosa sobre alguém "querido") é Tiago Fernandes, um dos muitos portugueses que trabalham no The Game. Para o emigrante de 27 anos, que trocou Leça da Palmeira pelo Luxemburgo há quatro, "é fácil trabalhar com elas, porque vieram com boa disposição e motivadas". "Também as ajuda a esquecer por momentos o que se está a passar no seu país. Às vezes chateamo-nos com pequenas coisas e saber que elas estão aqui a sorrir enquanto têm o seu lar a ser destruído ajuda-nos a pensar que há coisas mais importantes e que há sempre uma solução", afirmou Tiago, que é empregado de mesa naquele restaurante há dois anos.

Lara Yakovlieva serve às mesas no The Game.
Lara Yakovlieva serve às mesas no The Game.
Foto: Chris Karaba

Com a minha idade, mesmo se voltar à Ucrânia seria muito difícil encontrar trabalho. Aqui é mais fácil. Não importa que idade tens, desde que trabalhes bem.

Lara Yakovlieva

O português conta que o grupo sempre foi "muito cosmopolita", com trabalhadores de vários países, mas agora ficou ainda mais. "A única diferença é que elas vêm de uma situação mais sensível. Não falamos muito do assunto. Tentamos só perceber se as coisas estão bem, sem entrar em pormenores. Para elas também não sentirem que estão aqui por complacência, mas sim pelo seu trabalho. Elas são úteis para nós e isto é útil para elas", apontou. "O Luxemburgo abriu-lhes as portas para poderem ter uma vida condigna. E, no que pudermos ajudar, estamos disponíveis. Elas retribuem esse espírito com o seu profissionalismo, o sorriso e a boa disposição".

Tiago considera que este tipo de iniciativas para promover o emprego para os refugiados ucranianos é importante, mas, no caso do Manso Group, "não é uma surpresa". "Conhecendo o Remy e sabendo o coração que tem. Ele já ajudou muita gente ao longo dos últimos anos, muito antes deste flagelo na Ucrânia. Tem um coração de ouro", elogiou o funcionário. "Estamos contentes, mas não é uma surpresa. É algo que ele tem vindo a fazer ao longo dos anos".

Lara e Katja assinaram um contrato de um ano e os patrões disseram-lhes que, se tudo correr bem, podem prolongar por mais dois ou três anos. "Eu ficaria muito contente por ficar aqui, porque nos próximos cinco anos não faz sentido voltar à Ucrânia. Não teremos nada para fazer, porque ainda vão estar a reconstruir tudo. Com a minha idade, mesmo se voltar à Ucrânia seria muito difícil encontrar trabalho", reconheceu Lara, enaltecendo o facto de no Luxemburgo não fazerem discriminação da idade. "Na Ucrânia, depois dos 26 é mais difícil. Não querem saber como trabalhas, mesmo se fizeres mais do que os jovens, dizem logo que não. Aqui é mais fácil. Não importa que idade tens, desde que trabalhes bem".

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"Os nossos colegas vêm ter connosco e dizem-nos que tudo vai ficar bem"
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As ucranianas ainda não sabem se irão perder o apoio do Estado por terem começado a trabalhar. "Ainda estamos à espera de uma resposta. O ONA disse que ainda está a tentar perceber o que fazer com todos os ucranianos", revelou Katja. Além disso, as amigas também querem encontrar uma outra solução de alojamento, para ficar mais perto do trabalho, uma vez que de Foetz até à capital demoram cerca de uma hora e meia nos transportes. "Queremos encontrar um apartamento na cidade. Passamos três horas por dia nos transportes, quando podemos ser mais úteis estando aqui. Seria mais confortável para nós", admitiram.

No Luxemburgo, as ucranianas sentem-se "em casa". "Os clientes também falam connosco, desejam-nos força e dão os parabéns por termos conseguido trabalho. Sentimos que aqui as pessoas têm bom coração", disse Lara, reconhecendo que nem sempre é fácil lidar com as emoções. "Quando sabemos más notícias sobre a nossa cidade e país, não conseguimos conter as lágrimas. Mas os nossos colegas vêm ter connosco e dizem-nos que tudo vai ficar bem. Também recebemos clientes ucranianos que nos cumprimentam e falam connosco".

Apesar desses momentos mais difíceis, Katja e Lara garantem que estão a dar o seu melhor e continuam a sorrir, gratas pela oportunidade que tiveram: "Esperamos que os gerentes estejam contentes connosco". Os gerentes do The Game também são portugueses. E estão certamente contentes. "Elas são boas trabalhadoras. Falam bem inglês e, como temos um bom ambiente de trabalho, elas integraram-se muito bem e têm uma boa energia. Isso é o mais importante para nós", afirmou Rui Agostinho, 33 anos.

Carlos Freitas e Rui Agostinho, subgerente e gerente do The Game, respetivamente.
Carlos Freitas e Rui Agostinho, subgerente e gerente do The Game, respetivamente.
Foto: Chris Karaba

São pessoas que fugiram da guerra e chegaram aqui com uma atitude muito positiva. Isso também nos ajuda, porque elas puxam-nos para cima, como nós tentamos fazer com elas.

Rui Agostinho, gerente do The Game

O gerente do restaurante, que divide tarefas com o subgerente, Carlos Freitas, de 36 anos, assegura que as ucranianas se dão bem com a equipa e que também puxam pelos colegas. "Isso é que é de louvar. São pessoas que fugiram da guerra e chegaram aqui com uma atitude muito positiva. Isso também nos ajuda, porque às vezes não estamos no melhor momento e elas puxam-nos para cima, como nós tentamos fazer com elas. Tem sido uma experiência espetacular", assumiu Rui.

O português, que emigrou de Castelo Branco há 10 anos, considera que é muito importante ter este tipo de iniciativas. "O Luxemburgo está a acolher muitas pessoas e é importante dar oportunidades a quem quer trabalhar, não só na restauração como noutras áreas". Isso também ajuda a que o The Game tenha uma grande variedade de nacionalidades, uma das imagens de marca do espaço. Numa equipa de cerca de 20 pessoas, nove são portugueses e os restantes são de outros países, como China, Croácia, República Checa ou Eslovénia.

O facto de haver essa multiculturalidade cria um bom espírito de equipa e ajuda na integração de Lara e Katja. "Nós brincamos com elas, ensinamos algumas palavras em português. Elas já dizem ‘bom dia’, ‘como estás?’ e alguns palavrões", brincou Rui. "E também tentamos aprender algumas coisas em ucraniano. Há sempre alguma curiosidade com todas as línguas, para tentar aprender um pouco mais. É sempre engraçado abordar os clientes de diferentes países e saber dizer uma palavra ou duas. Eles ficam contentes", confidenciou.

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"O meu sonho é visitar Portugal quando tiver férias"
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No restaurante, as ucranianas só falam inglês, mas às vezes os colegas perguntam-lhes o que é que falam entre elas. E elas perguntam-lhes o que é que eles falam em português. "É uma língua muito difícil também. Mas sabemos dizer ‘obrigado’ e algumas palavras, eles estão a ensinar-nos", contou Lara, que apesar de nunca ter ido a Portugal já está "apaixonada" pelo país. "Depois de conhecer tantos portugueses, o meu sonho é visitar Portugal quando tiver férias. Quero saber como é que os portugueses vivem, como é a cultura", disse, lembrando que ainda têm de juntar mais dinheiro para enviar aos pais na Ucrânia, mas também para se tornarem independentes.

Até lá, as amigas querem ficar no Luxemburgo durante os próximos anos, porque se sentem bem recebidas. "Tudo tem sido muito bem organizado, o alojamento, toda a ajuda com as roupas e a comida", notou Katja. "Recebemos apoio não só do Governo, mas também das pessoas do Luxemburgo", acrescentou Lara, contando que num dos dias em que foram buscar roupas a Contern, uma mulher na casa dos 70 anos lhes perguntou se eram ucranianas e ofereceu-lhes comida. "Toda a gente nos diz ‘bonjour’, vêm que ainda podemos sorrir".

Katja Popova no balcão do The Game.
Katja Popova no balcão do The Game.
Foto: Chris Karaba

Tudo o que trabalhei para conseguir e grande parte da minha vida está na Ucrânia. Se for possível, talvez volte daqui a uns anos.

Katja Popova

As ucranianas garantem que no trabalho estão "sempre contentes", mas no hotel ou no caminho para o hotel, quando vêm as notícias, "é mais doloroso". "Ainda temos medo por causa dos nossos pais", reconheceu Lara. "Eu não falava com o meu pai há 10 anos e ele escreveu-me a dizer que ia para a guerra…", desabafou Katja, emocionada. A amiga tenta reconfortá-la: "Estamos no Luxemburgo. Estamos a salvo".

Agora, elas querem convencer os pais a mudar-se para o Luxemburgo também. "Para já não querem sair, dizem que se for para morrer, morrem na Ucrânia. Talvez quando tudo ficar mais calmo e abrirem os aeroportos. Eles têm medo da viagem, só quando puderem vir de avião", explicou Lara, contando que parte da sua casa foi destruída e que os pais estão neste momento a viver num estádio em Kharkiv. "Não têm uma vida normal, mas é o sítio mais seguro para eles na cidade", concedeu.

Ao contrário de Lara, Katja consegue imaginar-se a voltar à Ucrânia. "Porque tudo o que trabalhei para conseguir e grande parte da minha vida está lá. É importante agora apoiar a minha família, porque não há lá nada para mim. Se for possível, talvez daqui a uns anos", perspetivou. A jovem ucraniana não sabe o que esperar do futuro, lembrando que Kharkiv não foi tomada pelos russos, mas "muitas pequenas vilas à volta da cidade já foram ocupadas".

Putin disse que veio para nos libertar. Mas libertar-nos do quê? Quem pediu para eles virem para o nosso país?

Lara Yakovlieva

As amigas dizem sentir muitas saudades da sua cidade, que foi muito castigada pelos ataques russos. "Antes da guerra, Kharkiv era muito bonita. Era a melhor cidade na Ucrânia, com muitos turistas. Tínhamos muitos animais, parques de diversões e acolhemos o Euro 2012 no nosso estádio", recordou Lara, revoltada com o presidente da Rússia. "Putin disse que veio para nos libertar. Mas libertar-nos do quê? Quem pediu para eles virem para o nosso país? Nós tínhamos tudo. Bons trabalhos, uma casa. Éramos felizes", exclamou, com uma voz tremida.

A situação no país de Katja e Lara ainda é "muito difícil", mas as ucranianas têm no Luxemburgo a oportunidade de começar de novo. "Agora estamos seguras, temos um trabalho fantástico, com uma equipa incrível. É a nossa segunda família", afirmaram. As amigas, que continuam a passar por mãe e filha, vão aproveitando para conhecer o novo país. "Gostamos muito de visitar a cidade, é muito bonita e confortável. Não há muito sol, mas quando há é muito bom". Mal elas podem esperar pelas férias em Portugal.

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