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Referendo provoca tensões entre luxemburgueses e estrangeiros
Luxemburgo 12 min. 03.06.2015 Do nosso arquivo online

Referendo provoca tensões entre luxemburgueses e estrangeiros

Nas redes sociais, o debate sobre o referendo está ao rubro, e há quem tema o aumento da xenofobia e do nacionalismo

Referendo provoca tensões entre luxemburgueses e estrangeiros

Nas redes sociais, o debate sobre o referendo está ao rubro, e há quem tema o aumento da xenofobia e do nacionalismo
Foto:Gerry Huberty
Luxemburgo 12 min. 03.06.2015 Do nosso arquivo online

Referendo provoca tensões entre luxemburgueses e estrangeiros

O referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros está a provocar tensões entre luxemburgueses e estrangeiros. Nas redes sociais, a questão que vai ser referendada no próximo domingo trouxe a público uma xenofobia latente, alertam militantes do “Sim”.

O escritor francês Claude Frisoni, que lançou um manifesto subscrito por personalidades luxemburguesas a favor do voto dos estrangeiros, publicou um romance em que satiriza a “questão fracturante” que divide o Luxemburgo. Na fábula distópica, o referendo acaba mal, e o escritor vê “sinais preocupantes” de nacionalismo a surgir no país.

Claude Frisoni
Claude Frisoni
Foto: Marc Wilwert

Imagine um país com rendimentos que fazem a inveja dos vizinhos, com três línguas oficiais, e onde quase metade da população é estrangeira. O que aconteceria se os políticos decidissem organizar um referendo perguntando aos nacionais se concordam com a atribuição do direito de voto aos imigrantes?

O exercício foi feito pelo escritor francês Claude Frisoni, que assina o conto filosófico “Carta de amor ao povo que não conhecia o verbo amar”. Na fábula distópica, o escritor transpõe a questão do referendo para um país imaginário – Vatounu, uma ilha do Pacífico onde os nativos falam ’bislama’, um dialecto que vai buscar palavras ao inglês e ao francês, as outras duas línguas nacionais, e onde a maioria dos empregos na Função Pública são reservados aos nacionais.

Neste país em tudo semelhante ao Luxemburgo, os fronteiriços dão lugar aos “trabalhadores trans-ilhas”, que provocam engarrafamentos de pirogas à hora de ponta, e nem os portugueses foram esquecidos. Convertidos em imigrantes filipinos “chegados nos anos 60” a Vatounu, são descritos como “trabalhadores e disciplinados, educados e reservados, tendo aprendido no seu país [de origem], na escola da ditadura, a contentar-se com pouco e a não chamar a atenção”.

Publicado em Março, o livro do antigo director do Centro Cultural Abadia de Neumünster lidera há dois meses o top de vendas no Luxemburgo. Neste espelho ficcional da realidade luxemburguesa, o referendo precipita uma guerra civil que acaba em desastre, com os nacionalistas de Vatounu a proibirem as outras duas línguas do país e a exigirem que todos falem o dialecto nacional, levando à destruição da pequena ilha paradisíaca por violentos ataques xenófobos.

Para o escritor, o referendo trouxe a lume “sinais inquietantes” de xenofobia e nacionalismo, com muitos militantes do “Não” a defenderem que a integração no país exige a aprendizagem do luxemburguês ou a naturalização.

“São coisas que nunca vi em 35 anos a viver no Luxemburgo“, lamenta Frisoni. “Há questões fracturantes, sectárias, com o pretexto da língua luxemburguesa, levantadas por pessoas que ainda por cima a falam mal, com muitos erros“.

O escritor, que foi condecorado pelo Estado francês e luxemburguês, dá como exemplo os ataques de alguns partidários do “Nee” (Não) na sua página do Facebook. Um dos episódios aconteceu momentos antes da entrevista ao CONTACTO: Claude Frisoni citou os versos “Nenhum homem é uma ilha“, do poeta inglês John Donne, e foi imediatamente criticado por não escrever em luxemburguês. “Não percebo, pode escrever em luxemburguês?“, perguntava-lhe um comentador. Frisoni, que percebe o idioma, acabaria por lhe corrigir os erros em luxemburguês, dando-lhe uma lição sobre a língua de Dicks. Os mais de 70 comentários que se seguem parecem saídos de um “sketch“ humorístico: a partir de uma citação poética sobre a fraternidade, a conversa descamba numa discussão sobre gramática luxemburguesa.

Livro de Frisoni "Carta de amor ao povo que não conhecia o verbo amar”
Livro de Frisoni "Carta de amor ao povo que não conhecia o verbo amar”

O antigo director do Centro Cultural Francês do Luxemburgo não é o único a ver sinais de xenofobia entre os defensores do “Não”. Num artigo de opinião publicado a 15 de Maio no Tageblatt, o jornalista Alvin Sold denunciou os argumentos xenófobos do ’Nee’, concluindo que o referendo “teve o mérito de fazer cair as máscaras” dos que têm medo dos estrangeiros. Ironicamente, o também responsável do grupo editorial Editpress, proprietário do “Quotidien”, o primeiro diário francófono no Luxemburgo, foi imediatamente atacado por não escrever em luxemburguês e sim em francês. Um absurdo, sustenta Frisoni, que recorda que em 150 anos de imprensa no Luxemburgo nunca se escreveu em luxemburguês.

Para o escritor francês, os partidários do “não“ que invocam o luxemburguês como referência identitária esquecem o passado multilingue do Luxemburgo e ignoram a história do país.

“A única altura em que se tentou proibir o francês no Luxemburgo foi durante a ocupação nazi“, recorda, sublinhando que é neste idioma que escrevem os maiores poetas luxemburgueses, como Jean Portante e Anise Koltz, e são escritas as leis nacionais.

Por detrás do aumento da “francofobia“ há também sentimentos xenófobos, defende Frisoni. De um idioma que no passado tinha “um carácter elitista, falado pelas famílias da alta burguesia luxemburguesa”, o francês passou a ser “a língua do proletariado, dos imigrantes e dos trabalhadores fronteiriços”.

“Antes, era a língua dos poderosos, mas hoje em dia é a língua dos mais frágeis, que são mais fáceis de estigmatizar: [criticar quem fala francês] serve para estigmatizar os trabalhadores portugueses, os fronteiriços, todos os que não são funcionários públicos“, acusa.

Na sátira que escreveu, o escritor diz que a defesa agressiva do “bislama” – que está para os nativos de Vatounou como o luxemburguês para o Luxemburgo – tem como verdadeiro objectivo “dar mais importância ao que nos diferencia, mas sobretudo ao que nos tranquiliza, nos dá um sentimento de sermos únicos, de sermos mais fortes”. É que, como observa uma das personagens do livro, falar o dialecto local é a única coisa “que ninguém no mundo faz melhor que um Vatounusino”: até “uma criança de cinco anos de Vatounu fala melhor que qualquer professor universitário, investigador, filósofo [ou] génio de outro país“, e aqueles que aprendem o idioma em adultos “nunca o dominarão tão bem como aqueles que o receberam em herança“.

Para Frisoni, “o verdadeiro combate” de muitos dos partidários do ’Não’ “é manter o máximo de privilégios na Função Pública – não é por acaso que o único sindicato que é contra o direito de voto dos estrangeiros é o sindicato dos funcionários públicos“, acusa.

“O Luxemburgo está a perder a identidade plural, o multilinguismo e a abertura e capacidade de acolhimento, que são as suas melhores defesas no futuro“, lamenta.

Foto:Gerry Huberty

DEBATE AO RUBRO

A questão sobre o direito de voto dos estrangeiros nas eleições legislativas é uma das três perguntas que vão ser submetidas à consulta popular de 7 de Junho, mas é a única a suscitar tantas paixões. Segundo uma sondagem sobre o referendo divulgada no início de Maio, mais de metade dos luxemburgueses (56%) defendem que os estrangeiros têm de falar luxemburguês para estarem integrados no país – um idioma que só 30% dos estrangeiros consideram necessário para a integração.

Uma tese defendida também pelo fundador do movimento Nee2015, a plataforma que se opõe ao direito de voto dos estrangeiros, cuja página no Facebook regista mais de seis mil simpatizantes.

“Se dermos o direito de voto aos estrangeiros, damos um passo contra a integração, que deve ser feita através da dupla nacionalidade”, disse ao CONTACTO Fred Keup.

O professor de Geografia e Educação Cívica no Liceu Técnico de Esch-sur-Alzette, que diz ser apartidário, defende também que “para estar realmente integrado no Luxemburgo é necessário falar três línguas, e o luxemburguês é essencial”. “Para os luxemburgueses, a identidade nacional está ligada à língua luxemburguesa”, diz, sustentando também que o francês (um dos três idiomas oficiais do país) “é uma língua estrangeira” para os nacionais. 

Foto: Chris Karaba

Questionado sobre se a insistência no luxemburguês não conduz na prática a uma rejeição dos estrangeiros, o professor defende que não.

“Não é uma rejeição, é uma defesa do que constitui a identidade local. É verdade que um estrangeiro pode sentir-se rejeitado, mas é preciso incitá-los a aprender luxemburguês. É o que se faz em Barcelona, que substituiu os sinais em espanhol por sinais em catalão”, compara. “Por que não escrever os nomes das ruas em luxemburguês?”, propõe. Objectamos-lhe que já há algumas placas em luxemburguês e francês, e o professor propõe: “Era bom pôr o luxemburguês em primeiro lugar e depois o francês”.

A ideia de renomear as ruas em luxemburguês não está longe da fábula criada por Claude Frisoni, mas há muitos luxemburgueses que discordam desta defesa nacionalista. No domingo, o linguista luxemburguês Henri Losch, considerado o maior especialista do idioma de Dicks, disse “ter vergonha” dos argumentos nacionalistas do “Não”.

“Enquanto luxemburguês de gema, fico envergonhado por causa dos meus vizinhos estrangeiros quando leio e ouço os que se opõem ao direito de voto [dos não-luxemburgueses]”, disse o linguista, numa declaração de apoio ao “Sim” divulgada na plataforma que defende a participação política dos imigrantes.

Foram muitos os luxemburgueses que deram a cara pelo direito de voto dos estrangeiros. A geógrafa luxemburguesa Aline Schiltz, que vive entre Portugal e o Luxemburgo e publicou vários estudos sobre a imigração portuguesa no Grão-Ducado, é uma das embaixadoras da plataforma do “Jo” (Sim), formada por duas dezenas de associações e sindicatos. Para a investigadora luxemburguesa, que fala fluentemente português, dar o direito de voto aos estrangeiros “é uma evidência”, e a pergunta do referendo tem até “condições demasiado restritivas”.

Aline Schiltz
Aline Schiltz
Foto Tania Bettega

“Quem vive no país há tanto tempo [dez anos] e já votou noutras eleições tem de ser considerado cidadão e deve ter o direito de votar nas eleições nacionais. Era muito bom que o Luxemburgo fosse inovador e tomasse uma decisão integrativa e não de exclusão“, disse ao CONTACTO.

“Eu gostava que parássemos de falar de estrangeiros e passássemos a falar em cidadãos, que vivem e trabalham no mesmo país e constroem a sociedade juntos“, defende, considerando “completamente deslocado associar a questão da língua luxemburguesa ao referendo”.

“No meu comentário [na plataforma do ’Sim’], decidi escrever em francês, porque é de facto a língua veicular, a língua de comunicação do país, quer os luxemburgueses queiram, quer não. Não quer dizer que eu não seja a favor de as pessoas aprenderem luxemburguês, mas a língua mais falada é de facto o francês, e por isso optei por escrever em francês, para ser percebida por toda a gente“. A decisão valeu-lhe vários ataques nas redes sociais. “Houve quem perguntasse se os cursos de luxemburguês dados em Portugal eram para os portugueses que queriam emigrar para o Luxemburgo ou se afinal eram para os expatriados luxemburgueses que esqueceram a língua”, conta.

O PERIGO DO NACIONALISMO

Para Sérgio Ferreira, porta-voz da Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI), que integra a plataforma que defende o direito de voto dos estrangeiros, “há claramente um alinhamento entre as teses do ’Nee’ e do ADR“, um partido que no passado votou contra o direito de voto dos imigrantes nas eleições locais e defende a primazia do luxemburguês.

A ideia de que “a integração só é conseguida quando se fala luxemburguês e se adquire a nacionalidade luxemburguesa está muito longe do conceito de integração, e mais perto da assimilação, que não resultou noutros países e não resultaria no Luxemburgo, um país trilingue“, defende Sérgio Ferreira. “Reduzir a questão da integração à língua luxemburguesa ou à nacionalidade é redutor”, critica, lamentando ainda o tom inflamado das discussões.

“O referendo levantou questões ligadas à identidade nacional, à língua [luxemburguesa] e à integração dos estrangeiros, e aí houve um tom que está muito próximo das teses da extrema-direita europeia, sobretudo nas redes sociais“, critica o porta-voz.

O fundador da plataforma do Nee2015 recusa as críticas. Fred Keup garante que o movimento “é neutro” e que não tem “qualquer ligação com o ADR nem com qualquer outro partido político”.

A plataforma do “Nee” também foi criticada por publicar comentários xenófobos e por ter a simpatia de movimentos conotados com a extrema-direita luxemburguesa. O recém-criado partido nacionalista SDV, fundado em Abril, publicou o logo do “Nee” no seu portal, mas Freud Keup rejeita as acusações de xenofobia.

“Tentamos eliminar todos os comentários xenófobos, mas são reacções marginais”, defende. “A minha mulher é italiana [com dupla nacionalidade] e não somos xenófobos”, disse ao CONTACTO o professor de 35 anos. 

Gast Gibéryenm, do ADR, o partido que defende o "Não" nas três questões
Gast Gibéryenm, do ADR, o partido que defende o "Não" nas três questões
Foto: Guy Wolff

"NÃO" À FRENTE NAS SONDAGENS

Apesar de o “Sim” ter o apoio da maioria dos partidos com assento parlamentar (só o CSV e o ADR são contra), o “Não’ lidera as intenções de voto. Segundo a última sondagem sobre o referendo, divulgada a 6 de Maio, 53% dos luxemburgueses opõem-se ao direito de voto dos estrangeiros nas eleições legislativas, com apenas 40% a favor. A sondagem registava ainda 7% de indecisos.

Para o porta-voz da ASTI, “os partidos políticos e a coligação governamental deviam ter começado mais cedo a campanha e ter-se envolvido de uma forma mais intensa”.

“A campanha dos partidos foi feita em cima do joelho, com pouca estratégia e pouco empenho“, critica Sérgio Ferreira, garantindo que apesar disso a plataforma do “Jo” (Sim) vai continuar a campanha até ao último dia.

“Nós continuamos a lutar até ao fim pela vitória do ’Sim’, mas quer ganhe o ’Sim’ ou o ’Não’, o trabalho tem de continuar, porque o direito de voto não é uma panaceia para todos os problemas“, diz.

Claude Frisoni é mais pessimista. “Não acredito que o ’Sim’ vá ganhar, mas espero estar enganado“. O autor recorda ainda assim que há muitos luxemburgueses a dar a cara pelo direito de voto dos estrangeiros.

“É importante que os imigrantes não pensem que todos os luxemburgueses são contra o direito de voto: a ’intelligentsia’ luxemburguesa, dos políticos aos escritores e personalidades da cultura, tomaram posição a favor do Sim”, sublinha. E a popularidade do livro que escreveu para denunciar os perigos do nacionalismo “prova que ainda há pessoas com bom-senso”. O problema, ironiza Frisoni, “é que há sempre menos pessoas a frequentar livrarias do que pessoas a escrever nos fóruns da RTL e nas redes sociais“.

Paula Telo Alves